Odoni Gröhs
Nascido em Canoas-RS, é médico atuante em Guiratinga-MT. Como poeta, ganhou vários prêmios nacionais e publicou Florilégio Poético I e II, Acalanto Lirial (1997), Meninos de Rua, Fascículos Mensais, Testamento – Viagem de Crepúsculo Antecipado, Canções de gastar palavras, Ao sul do outono, entre outros.

EXÍLIO DOS PASSOS INÚTEIS OU A CANÇÃO DA SOBREVIVÊNCIA

Ferido de ausências
volto para minha pátria.

A cidade dorme 
sua inquietude íntima...
Estrangeiro errante, involuntário, 
entre aromas de glicínias,
procuro em vão, nas lembranças da infância,
os meninos que brincavam comigo.

O tempo, exaurindo as horas, 
desfigurou a minha face.
A memória embriagada 
com o sabor das águas da chuva
já não responde aos nomes que chamo.

Sonhador de horizontes, expatriado da paisagem,  
decifrando astrolábios, sou um argonauta de quimeras.
No mar da noite inaugurei meu exílio.

Entre vales e colinas
busquei retornos uterinos
invocando poetas e estrelas.
Na minha verdade, discurso poético,
(tradução de algaravia)
subjaz a palavra fraturada.
Caminhando pelas ruas passos inúteis
quero esquecer o inverno
e reviver a perdida ternura.
Não é demasiado tarde...
Livre das distâncias
tenho carências e amor.

A barca se aproxima... Embarco breve
no vento leve da esperança.
Não importa o tempo... 
Já percebo a liberdade. 

Prisioneiro dos caminhos
rezo nomes e recordações.
No mar que avisto na saudade, 
não existe para mim porto estrangeiro.

Uma gaivota branca e solitária,
impregnada de dor e infinitos,
acompanha minha chegada 
quem sabe... repartindo a solidão.

Alquimista, aprendiz do futuro,
chego silenciosamente...
Perdi a juventude, mas trago a esperança
sempre presente nos meus olhos mansos
que só os amigos sabem ler.

Não quero falar da tortura e do cárcere...
Os meus caminhos de angústia e sombra 
(lança trespassando o coração)
só Deus e os meus versos 
conhecem muito bem.

Sobrevivente  da convulsão marítima
no oceano da censura e dos tormentos
não renunciei às notícias sonhadas.

Na tentativa inútil e telúrica
de recolher passos perdidos
colecionando calendários
vou reinventar a vida.

Múltiplo de mim mesmo,
fazendo planos e confundindo as horas,
trago meu corpo tatuado de universos.
                                        Cristal rompido, erótico e lúdico,
fragmentado de alumbramentos,
vou vivendo verbos de aniversários.

E quando partir, dos prazeres itinerantes,
tecendo poemas para a última paisagem,
com saudade pertinaz da poesia,
pleno de sortilégios e bem-aventuranças,
a minha Morte -- doce Morte
não terá na partilha muito lucro...

No meu corpo, fragilizado pelo Apocalipse, 
sangrando o desvario das verdades imaculadas,
apenas restarão na lápide dos sonhos derradeiros,
descansando em paz, com lágrimas de sol,
minhas antigas dores e falsas agonias.

Terra! Terras da minha terra
Ferido de ausências
volto para a minha pátria.

 

1º lugar no iV Concurso Literário Nacional da Sobrames - Salvador/Bahia – 1999.
1º lugar na Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais.
Prêmio Emílio Moura - 2000

© 2019 - Revista Literária Pixé.

  • Facebook