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Odair de Morais 
(Ôda), cuiabano, autor de Contos Comprimidos (Multifoco, 2016) e do volume de haicais Instante Pictórico (Carlini & Caniato, 2017).

SÍLVIA

Sílvia virou de lado e contou pro amante que, durante o orgasmo, experimentara uma sensação única. Não sei se consigo explicar. Mas, enquanto gozava, senti a alma flutuante. Como se ela me abandonasse o corpo por alguns segundos e, depois, fosse voltando pouco a pouco, vagarosamente. Caminhou em direção ao frigobar enrolada na toalha. Apanhou duas cervejas. Comentou que tinha lido sobre uma expressão francesa, que, trazida para nosso idioma, significava a pequena morte. Há algumas semanas tomara coragem e entrara num sex shop, no Centro. Comprara um consolo. Macio e confortável, experimentara-o algumas vezes. Gostara bastante. Enfim encontrara uma alternativa para o chuveirinho. Apenas o toque diário durante o banho já não saciava. Chegou a procurar um médico no começo do ano. Tudo normal com a senhora. Não teria um remédio? Alguma coisa que controlasse a libido? Precisava tanto... Quando o marido chegou de viagem, correu toda animada para mostrar-lhe o que havia comprado. Irritadíssimo, acusou-a de traição. Estava sendo injusta com ele. Tentou explicar que sentia certas necessidades. E, levando em consideração que ele não estava presente durante a semana inteira, não dava ousadia para ninguém. Nada mais justo portanto que pudesse se divertir quando sentisse vontade, ainda que solitariamente. Nada demais. Era uma mulher de respeito! Como se não bastasse ter confiscado a sua mais nova aquisição, o corno se viu no direito de dar um fim em tão estimado objeto, que até nome já tinha recebido. Embrulhado em recortes de jornal, atirou o caduceu dentro de um córrego. O carro em movimento, enquanto voltavam das compras. Pronto!, exclamou, assumindo as feições do pai do avô do padre. Eu tinha a intenção de usar com você, amor!, ela confidenciou, numa tentativa explícita de confortá-lo. Agora, naquele motel de periferia, se refestelava nos braços do outro como uma desvairada. Você trouxe o gel? Come meu cu. 

© 2019 - Revista Literária Pixé.

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