© 2019 - Revista Literária Pixé.

  • Facebook

Anna Maria Ribeiro Costa

É doutora em História pela UFPE e Professora do Univag. Chegou às terras do povo indígena Nambiquara na Primavera de 1982. Dos índios recebeu o nome Alusu, por conta de seus hábitos alimentares. Nessas terras, conheceu José Eduardo, com quem tem dois filhos: Theo e Loyuá. Vem se dedicando aos estudos sobre os povos indígenas de Mato Grosso, com especial atenção ao Nambiquara.

O JACARÉ A A MENARCA

 

Os grupos Mamainde e Negarotê, da etnia Nambiquara, edificam suas casas em uma parte das terras férteis do Vale do Guaporé, entre os rios Pardo e Cabixi, em Mato Grosso. Seu território é responsável por nutrir seus membros com o trabalho da caça, da pesca, da agricultura, da coleta, dos rituais, das sessões de cura, do divertimento, do nada fazer. 


Vem do tempo mítico, do ab initio, o hábito de festejar a menarca. Com esmero, homens e mulheres cuidam de todas as etapas de tão importante momento na vida de uma mulher, da comunidade. Sob a proteção de um enorme jacaré mítico, morador de uma lagoa sagrada, a menina-moça é resguardada da luz do sol. Diariamente, o corpo da menina é preparado por mulheres, quando untam com tintura de urucum, até que troque de pele para, ao término da reclusão, sair revigorada, apta à vida a dois, junto ao seu marido. 


Em uma Lua, período que corresponde a um mês, a cantoria durante a noite celebra a vida que se renova. Vozes reproduzem cantigas recentes e ancestrais, passadas de geração a geração. Tempos misturam-se, trazem lembranças dos donos das músicas, sentem saudades daqueles que não estão mais ali, comemoram a visita dos espíritos de seus antepassados que atendem aos convites em cantos apelativos. 


Acreditam os índios que se enfeitar indica um dos caminhos para obter a proteção contra os maus espíritos. Embelezam-se com brincos de madrepérola, adorno plumário de cabeça, colar de coco tucum, braçadeiras, jarreteiras e tornozeleiras para satisfazer a vontade dos espíritos. 


Os adornos e a boa música enaltecem os convidados que chegam para privilegiar a moça homenageada. Preocupam-se em levar às letras musicais seus modos de viver, entrelaçados aos sons oriundos de instrumentos musicais e de vozes de homens e mulheres que perpetuam e ressignificam um repertório de composições, de extraordinária grandeza. 


Algumas lagoas dos grupos Mamaindê e Negarotê que estão fora dos limites da Terra Indígena Lagoa dos Brincos correm risco de secar em consequência do desmatamento desmedido. Os índios pedem, sem sucesso, a revisão da área de ocupação ancestral para proteger águas e seres míticos das lagoas que protegem meninas-moças.  Enquanto isso, o jacaré mítico continua em estado de alerta para que as águas das lagoas não sequem, os moluscos das conchas não morram e possam continuar a enfeitar homens e mulheres que celebram a vida.