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Nyll M. N. Louie-Alicê 
É o pseudônimo de Vinícius Dallagnol Reis. Nasceu em Sinop no ano de 1992. Redige poemas desde os onze anos, tendo se embrenhado também na escrita de contos. Suas poesias foram laureadas quatro vezes no Varal de Poesias da Unemat. Outra delas (“Tentação”) foi escolhida para a seleção da Vivara Editora no Concurso Nacional Novos Poetas (2014). Em 2018, publicou sua primeira obra, uma breve coletânea de poemas intitulada “Escatolírica Nokturna”. Os principais temas de seus textos giram em torno dos símbolos da memória, da noite e da morte: para o autor, portanto, o ato literário significa “dar moradia às lembranças”.

INCÊNDIO NO JARDIM

Começou com uma pequena centelha:
de uma ainda mais pequena
estrela caída no jardim...

O jardineiro tentou com as próprias mãos
fazer com que mesmo no chão
as minúsculas labaredas sumissem...

Mas como pequenos insetos que pegam fogo
não houve fogo 
que se rendesse a qualquer rogo...

Parecia que cada chama 
era uma minúscula folha carregada
aqui e ali e em outro ponto no meio do nada...

O incêndio era demasiado colorido
de acordo com o trecho onde pegava
a crepitar e a fazer o alarido...

Era como um sonho demasiado repetido:
matizes de flores em combustão:
margaridas, alfazemas e camélias...

Nada que houvesse antes fora tão incomum
nada que estivesse nos limites da imaginação
de qualquer uma das lembranças já esquecidas...

No meio da noite, o jardim brilhava vermelho
alaranjando onde pegava na madeira já bruta
da casa, o primeiro jardim de flores mortas...

 

A família do jardineiro logo se viu presa
no meio daquela grande planta carnívora:
cujos muros de espinhos cercavam a redondeza...

Os gritos na noite incendiavam
ainda mais a noite
e exibiam um clarão natural...

Era com ele que a pequena estrela
poderia ver suas parceiras
no distante zênite daquele planeta...

As barras de ferro se contorciam
junto com as colunas das pessoas:
amores tardios feitos de plástico...

Arrefecendo depois, o incêndio, 
agora, era bem plácido...
e tinha apenas línguas de fogo azul...

Ao sul, 
passou outra estrela
e soube que ali uma irmã já tinha caído...

Seguiu seu rumo, rumo a outro jardim
onde outro incêndio ocorreria, dando fim 
a outra família de jardineiros; pensando:

“Veja, amiga estrela, a que viemos:
somos as serpentes cadentes passando, 
que vieram trazer ao mundo o fim das gentes.”