Neide Silva
É psicóloga e atua no campo artístico em duas frentes. Como artista plástica, empresta seu talento para pequenas esculturas e telas. Como escritora, publicou os livros infantis “Cigamiguinho”, “Sabina, a sapinha bailarina”, “Kaike” e “Iribi Sabiá”, este último selecionado recentemente em um edital da prefeitura de São Paulo para ser distribuído em bibliotecas públicas e escolas do município. Atua no coletivo Maria Taquara que promove discussões acerca da literatura escrita por mulheres.

TEMPO
    FORTE
    VENTO

Ao estender as roupas no varal, ela percebeu que não havia nenhuma peça de roupa dele. Exceto uma camisa branca, que há tempo estava guardada no guarda-roupa; o colarinho amarelado. Colocou de molho e a lavou. Ficou a tristeza ao saber que era a única no varal. Não pela peça, mas por saber que ele andou sumido. Os alimentos da dispensa estragaram. Quando comprou, achava pouco. Parece que se enganou.


O quarto, que era sempre primavera, agora é tomado pelo inverno antecipado. As flores começaram a cair, os beija-flores, há tempo não os via, ficaram os pardais, com as sobras. E a lembrança daquela noite em que a chuva, o vento, o cheiro da terra molhada, a ausência dos barulhos das árvores e o corpo pedindo ele; os seios eriçados de vontade da boca doce. Em delírio. Sentia-se como uma lebre apanhada pelo pescoço. 


Ele na cama, a cabeça encostada na parede esperando por ela, com cara de moleque pidão. Despia-se para ele, escravizada pelo seu olhar. A mais oferecida das flores, embriagando o beija-flor com seu néctar. O encontro, na cama, a boca abrigando ele, preenchendo a fome. Entre a calcinha, ele, com a mão bruta embevecida por ela. 


Dizia sentir falta dele. Sentia as dores nos ombros que há tempo não sentia. Sentia a falta do moleque pidão de doce de Ambrosia no quarto que era sempre primavera.


Chegaram os ventos, fortes, naquele almoço de domingo, ao som de hip-hop e vinho. Ele não conteve o impulso, olhou as mensagens do celular que estava ao descuido, enquanto ela, entusiasmada, preparava o bacalhau. Mensagens que em outros tempos lembravam os dois:


“Olá, tudo bem! ” Foi como começou tudo entre eles. Mas agora era ela com outra pessoa.


Sentia-se como vilã em filmes de seriados.

A Pele queimava em devaneio pedindo:
Ah! Moleque faminto!

Não conseguia segurar os impulsos, invadia o anseio de adolescente quando lembrava dele.

Infindáveis eram as mensagens direcionadas a ele. E há meses, desde aquele domingo do bacalhau regado ao azeite no forno e o tilintar das taças de cristais, ela não havia mais trocado mensagens com aquele homem. O amante da rede!

De tanta insistência, numa tarde, quando o vento anunciava o outono, trouxe consigo uma poesia dele:
deixe a manada destruir o comboio
deixe que se separe o joio
deixe tudo!

que o peixe
suba as ribanceiras do rio
que o choro se confunda com o trigo

e a vida por um fio
caia na rede
água matando a sede

eu rio
que amar
não tá pra peixe

deixe, sim,
os peixes
no aquário

a era
de sagitário
na balança

pegue o touro pelo chifre
antes do próximo chiste
o imperativo

capricórnio
o hiperativo
com as patinhas de fora

sorrisos
gêmeos
e fora do siso

o juízo desfeito
é fato
não de direito!

Pensava que não deveria estar lendo suas publicações. Alimentando a alma que pedia por ele.


O projeto para a feira cultural estava prosperando, a viagem de trabalho para a América Latina remarcada e as reuniões para um novo projeto acontecendo. Em momentos de folga ainda pensava muito nele. Assistia aos programas de televisão sem saber se tinha alguém com ela. A cada dia buscava amparo em si mesma, mas um lado da cama denunciava a espera...


As mensagens eram constantes, apesar do ritmo menor. Eram. Uma noite, quando a nudez das árvores denunciou o fim do outono, chega mensagem dele:


– Olá!

No inverno, as roupas já estavam lá, no varal. As camisas quase secas, a camisola de seda pronta pra guardar e a jaqueta que ele mais estima à espera do sol chegar...

© 2019 - Revista Literária Pixé.

  • Facebook