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Nathalia Campos
Mineira de Belo Horizonte. Escritora, doutora em Letras pela UFMG, professora e revisora. É autora de Desinifinito (Patuá, 2017) e O guru da Lopes Chaves (Nea-Edições, 2016), com publicações em antologias e periódicos, nacionais e internacionais. Está entre os doze novos poetas brasileiros contemplados na antologia bilíngue Inventar la felicidade – Muestra de la poesía brasileña reciente (Vallejo & Co., 2016), organizada por Fabrício Marques e Tarso de Melo. É colunista do site Homo Literatus (https://homoliteratus.com/).

ENTRE PENAS

Aos 33 anos, após um semiterminada tese de doutorado e uma coleção de desilusões, uma dor intermitente no pescoço se esquece de ir embora. Um exame de imagem revela minhas primeiras desairosas rugas interiores: protusões cervicais nos discos 5 e 6. “Antessala da hérnia”, me esclarecem, enquanto minha jukebox toca um tango argentino.
Não posso evitar pensar que o flagelo é resultado de um imperdoável descuido da minha parte: consumi toda a minha provisão de palavras (será um tipo catalogado de gula?), assim, já na metade do caminho. O corpo, sem alternativa, foi precocemente forçado a aprender a falar, digo, a berrar.
Minha personagem está desmoronando, e, sem ela, não há como chegar do lado de lá. Na falta de argamassa, resta doer e dançar, o que, no final das contas, deve ser a mesma coisa.
Começa a saga do tratamento. Não estou habituada a ter, que dirá a ser, um corpo. A dor é seca e tenaz; os dias se sucedem para frente e para trás. Nenhum sinal de sabedoria (ou, quem sabe, o seu contrário raiar): nada, além da dor e da raiva. “A dor é um elemento em branco”, ninguém a definiu tão bem quanto Emily Dickinson. Não creio na existência de um clímax no infinito, até que o milionésimo jaleco branco de um plantão ortopédico me sentencia nova graça: “ombro doloroso instável.” Mal contenho a vontade de dizer: “e o que é que vem antes, doutor? o doloroso ou o instável?” “se o suplício é só no ombro, por que será que todo o resto também dói?”
De repente, sinto a flecha envenenada da indústria farmacêutica me acertar em cheio: diclofenatos, profenos, zepans, tramadois. Minha inteireza é acaçapada naqueles meus dois ombrinhos franzinos, que pesam como os de Atlas. Já posso até ler meu epitáfio: “Aqui jaz aquela que, enfim, deu de ombros.” Ou talvez: “Enfim, a personagem desistiu.”
Aos familiares, amigos, vizinhos, conhecidos e desconhecidos, prefiro a versão concisa do meu mal, para não ceder ao Gardel obsessor: “Dói. Tudo. Pra. Caramba.”
A versão longa, reservada para as superfícies felpudas da escrevedura, é que, na vida, não sei dar de ombros, o que, em bom português, quer dizer “ligar o foda-se”. Sofro de ombrose, em meu próprio diagnóstico, mal de Quasímodo, uma síndrome cumulativa de penas e culpas bestiais, entre reais e imaginárias. Um excesso de carga que recua aos primeiro sinais de saturnismo na minha natureza, à primeira mochila pesada da escola, ao primeiro joelho ralado, à primeira nota baixa, à primeira morte chorada, à primeira certeza de que a vida era lenha. Tudinho sempre embalado pelo tango. O tango sempre foi a minha trilha (oxalá eu não seja a única). 
Mas o tango, que ironia, me leva a outras penas, as que são protagonistas do meu autodiagnóstico, que até começa bem poético: sou um pássaro privado de voar, obrigado a viver no chão, entre as galinhas. Não ter asas não dói; o que dói é tê-las e sofrer com o seu desuso.
Antes de mais nada, você há de concordar que, no quesito metáfora para o “gran-uno-ser-humano-superior-sábio-zen-zoroástrico-iluminado-ideal-espiritualizado”, a nobreza de águias, condores, cegonhas e gaivotas é indisputável, e por isso tão solicitada por retóricos e poetas.
Onde é que entram, então, as galinhas? O que é que pretendo ao evocar galinhas nessa página resmungona sobre degeneração discal & ombros pesados?
Você me perdoe a sabedoria, mas constato que só mesmo a dura intimidade com o chão pode preparar para o céu. Não, Deus não dá asas a quem não sabe voar. Só a rota circunscrita do quintal forma para a imensidão do infinito. E só enquanto cisca, em educativa prisão, a galinha aprende a grandificar cada grão.
Entre um pulo trôpego e outro, empoleirada entre outras desenxabidas rigorosamente iguais a ela, a galinha sabe cair porque aceita o chão. E a repetição dessa tentativa parece destinada a se tornar algo divertido e enternecedor.
Talvez por isso as galinhas despertem com tanta frequência a afeição encantada das crianças, afinal, o que são as galiformes senão aves infantis, no melhor sentido da palavra? A privação do voo não é um tormento; é um fato consumado, mas apenas temporário, na linha evolutiva. Imagino que cair se torne, no cotidiano galináceo, antissolene, assim como a presumível dor ou o incômodo da queda. As galinhas ensinam a ser leve e competente para a tarefa redundante da existência: cair e levantar. Isso sem falar que elas se deixam criar, condenadas à utilidade estrita de irem parar na mesa (antes ou depois do ovo).
Poderia assentar minha tese em dizer que as galinhas são dignas de nosso mais desavergonhado respeito. Mas acho que já entreguei que quero ir mais longe: preciso dizer que somos, todos – eu e você – galinhas. Sejamos convictas galinhas, portanto, até que, entre penas, façamos da terra o céu.