Michel Yakini 
É escritor e artista-educador. Cofundador do Coletivo Literário Sarau Elo da Corrente do movimento de literatura das periferias de SP. Publicou Desencontros (contos, 2007), Acorde um verso (poesia, 2012), Crônicas de um peladeiro (crônicas, 2014) e Amanhã quero ser vento (romance, 2018). Site: <www.michelyakini.com>.

CHOCOLATE MOSCOW

 “Apesar dos males que existem na Periferia, 
Periferia também tem seu lado bom…” 
Consciência Humana 
Periferia tem seu lado bom


Ando um tanto desacreditado com a falta de humanidade dentro do trem, onde a cena diária é ver a moçada do batente fazendo da marmita seu escudo pra conseguir um lugar pra sentar, da Estação da Luz até alguma beirada qualquer. É triste pela treta, mas, ao mesmo tempo, é digno querer voltar do trabalho sentado, nénão?


Algumas pessoas não sorriem nem com a graça dos Marreta no Shopping Trem “olha o chocolate importado de Moscow, moscô o guarda levou”, “open the bolso, speak to marreta, compre e aprenda a falar inglês, water for the cold, two real”, “é só chamar, patrão, a entrega é delivery e o frete é grátis na região”, e pensar que direto essa labuta é tomada por ser tirada de ilegal. Como ainda conseguem fazer a gente rir?


Como pode alguém arrumar criaca com esse mangueio, chamando pra sair na mão na próxima estação? Ainda bem que de vez em quando o vento sopra a favor, pra desbaratinar as neuroses. E hoje foi graças a Ela. Não sei se Ela veio de Jundiaí, Morato, Franco da Rocha, de Caeiras talvez, mas de onde Ela veio o respiro deve ser mais arejado, certeza. Ganhei o dia por entrar no mesmo vagão que Ela esta manhã.


Hoje Ela me fez esquecer, por um momento, dos desacertos, bem naquela hora em que chamou a atenção de uma criança, no colo de uma senhora, e fez chamego, brincou, arrancou gargalhada, comprou chocolate e fez todo o vagão sorrir com a traquinagem daquele miúdo mandando beijocas pra Ela. Sem pretensão, Ela me fez sorrir também.


Um dia antes, naquele mesmo vagão, horário e banco, três pessoas fizeram um escândalo, porque todo mundo que tava sentado meteu o loko e não cedeu lugar pra uma senhora com uma criança de colo. Na hora virou assembleia, a maioria se indignou, mas também foi um descarrego de ódio reprimido que só vendo. Nessas horas, a gente fica perto torcendo pra acabar logo, pro destino chegar e recuperar a nossa respiração capenga. Mas hoje, a atitude Dela me fez desejar que o trem fosse pra Cubatão, até Santos talvez.


Quem sabe a gente saberia o nome Dela e poderia agradecer por Ela ter feito a nossa manhã melhor. Pena que quando chegamos na estação terminal da Luz, mal a porta se abriu e Ela se foi num andando-correndo à la São Paulo que nem deu tempo de ninguém perguntar nada. Talvez que Ela nem quisesse sair assim, mas ou é isso ou a metrópole passa por cima, sem dó. Ainda descemos juntos no destino do metrô, pensei em pedir um abraço, dar um aperto de mão, um bilhete de agradecimento quem sabe e contemplar mais um pouco daquela alegria, mas a seta Dela apontou pro Jabaquara e a minha pro Tucuruvi.


Sorte de quem foi com Ela naquele vagão. Quem sabe por lá Ela encontrou outra criança, um Marreta com o Chocolate Moscow e mais um monte de gente com vontade de sorrir. Sorte de quem foi rumo à Zona Sul naquela manhã, certeza que o dia por lá foi melhor, que o pôr do sol brilhou como nunca e abriu alas pra Lua, a mais bonita de todas, aquela que o poeta Fuzzil tanto fala que só se vê por lá. Talvez o sorriso e a alegria dela irradiou e fez o brilho dessa noite acontecer.


Amanhã vou pegar o trem no mesmo vagão e no mesmo horário, na esperança que Ela volte, e que no vagão tenha outra criança sorridente, que a barra teja limpa pros Marreta, e que tenha chocolate moscow sem guardinha, aula de inglês, que tenha sorriso e um monte de gente a fim de sorrir e que esse brilho nos acompanhe pelos trilhos da centopeia de aço de Jundiaí a Morato, de Morato a Pirituba, de Pirituba a Santo André e por onde mais for, todos os dias, que assim seja!

JÁ OUVIU FALAR EM CANETA?

O maior culpado por eu ter iniciado a escrever foi um cara chamado Hugo. Nos conhecemos na rua, trampando pelas quebradas na Zona Sul. Hugo era oficial de linha telefônica. Sabe esses caras que ficam pendurados no poste instalando cabos? Então, ele é o Hugo.


Hugo era um pernambucano que estava em São Paulo há mais de vinte anos, morador da Vila Joaniza e me contava sobre sua vida na hora do almoço. Era o primeiro a colocar água na bandeja, acender o botijão e pedir licença pra pegar a marmita nas mochilas, seu ritual diário do meio-dia. Aí Hugo deixava a cara séria de lado, abandonava escada, capacete e cinturão e sorria pra prosear e tirar sarro na carroceria do caminhão. Falava com orgulho do filho no colegial, por ter vencido o alcoolismo e pela chegada da aposentadoria. Do contrário era um cara sério, que não relaxava no trabalho e dava bronca quando o serviço não saía como o previsto.


Eu era seu ajudante e tomei muitas broncas dele. Trabalhamos juntos durante um ano e por pouco Hugo não me lapidou em um oficial de linha. Cheguei a me aventurar em cima dos postes, quando os outros oficiais faltavam, mas minha função era mesmo colocar arame na máquina, lombar escada de poste a poste e levar as ferramentas que o oficial precisasse.


Hugo se admirava que eu, com dezoito anos e segundo grau completo, estava trabalhando no mesmo lugar que ele, mas ganhando menos e ficava curioso porque na hora do cochilo em vez de deitar debaixo do caminhão eu teimava em ficar lendo. Num dia de calor forte, auge do verão, eu tava mais cansado do que o habitual. Nessa de me entregar pra abstração, levei um alicate no poste do Hugo e fiquei no pé da escada pensando na morte da bezerra, como diria minha vó.


Tirei o capacete, enxuguei o suor do rosto e quando coloquei de novo senti uma pancada na cabeça, olhei pra cima e o Hugo fingiu que não fez nada, mas no chão vi o alicate que havia acabado de entregar pra ele. O cabra tinha jogado o alicate na minha cabeça! Fiquei xingando sem parar e questionando porque ele tinha feito isso. Hugo falou que tinha me chamado e como eu tava no mundo da lua, resolveu jogar pra ver se eu acordava.


Discutimos feio e pra não ficar ouvindo meus insultos ele disse assim: – Olhe Michel, já ouviu falar em caneta? Pois então pense nisso, porque aqui num é lugar pra você. Na hora, achei que ele tava me tirando, menosprezando meu trabalho de ajudante, fiquei com meu ego de pião ferido, mas pensando bem, com o passar dos dias, percebi que Hugo tinha me dado um ensinamento.


Meses depois fui pra pista, procurei emprego em escritório, peguei a primeira vez num computador, passei muita vergonha catando milho no teclado na frente de chefe apressado, mas passei a trabalhar menos e escrever mais, deu no que deu. Acabei dispensado porque em vez de atender os clientes eu ficava abrindo a tela pra revisar meus escritos.


Tudo culpa do Hugo, que me provocou pra eu deixar o pé da escada e praticar minhas abstrações. Detalhe: Em uma das nossas conversas na hora do almoço, Hugo acordou mais cedo do cochilo, me viu lendo, se aproximou e disse:


– Se tem uma coisa que nunca aprendi foi fazê leitura e escrevinhá, mas também não faço conta. Sei escrevê meu nome e isso pra mim já tá bom demais!

© 2019 - Revista Literária Pixé.

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