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Michel Pinheiro 
Tem dois romances publicados (Vinte e poucos anos e Duzentos dias). Ele acredita que uma boa história deve chegar às pessoas, e nenhum lugar rende bons personagens e surpresas como Cuiabá, nossa Cidade Verde. Todos os seus livros se passam na cidade, e é com esta marca registrada que ele quer que os leitores cuiabanos se reconheçam nas histórias que leem.

CORAÇÃO

Tem coisas das quais o coração nunca desiste. Samuca era sócio de organizada, com carteirinha e tudo. Antes de cada jogo, ouvia sempre da mãe:


― Leva um casaco, filho. Vai esfriar hoje.


Sugestão absurda. Cobrir o manto sagrado? Jamais, pensava Samuca. Munido de seu habitual bandeirão, estava paramentado para apoiar seu time no estádio. Que nunca ganhava nada. Nem experiência.


Estava desempregado há mais de um ano. Tinha mais passagens pela polícia por agressões durante os jogos do que empregos anteriores no currículo. Faltava-lhe apenas oportunidade, atalhava a mãe e seu olhar pesaroso ao falar dele. Garoto inteligente, aprende rápido as coisas, dedicado, filho zeloso, ajudava com as contas da casa...


Seu time, por outro lado, só lhe rendia um agridoce orgulho. Glórias passadas que perderam o fôlego para acompanhar o presente. Bandeiras tremulando solitárias e resignadas pelos estádios. Mas era, como atalhava nas conversas, questão de trocar a diretoria, o juiz, a escalação, o técnico, a delegação por trás do preparo da equipe, de pelo menos o canal de tevê parar de ajudar o time adversário nas cotas de patrocínio...


Ver o time dando uma alegria que não fosse de algo que já foi se entabuizara tanto no coração de torcedor dele que, durante os jogos, mesmo os que via pela tevê, não conseguia mais assistir aos lances de perigo que seu time criava. Seus olhos não aguentavam a emoção. Levantava-se pra ir ao banheiro, comprar mais cerveja, ou simplesmente ficar de costas. Como aquele dia que estava em casa.


Coração é como árvore: finca raízes em apenas um lugar e aprende a amar com a resignação que aprende com as intempéries pelas quais passa. É debaixo da mangueira do quintal de sua casa, o braço apoiado debaixo do tronco, que Samuca olha compulsivamente para uma bola dente-de-leite que o vizinho deixara cair em casa. Sua frio, rói as unhas, numa bizarra penitência dominical que passava ao largo das missas e dos cultos da região. De repente, ouve fogos de artifícios. Gritos das casas vizinhas. Era gol. De seu time. Só podia ser. Volta gritando pra dentro de casa, novamente com coragem para comemorar, antes que o replay termine, aos berros:


― Eu já sabia!


Ainda está desempregado, ainda mora com a mãe, a ex-mulher e o filhinho ainda não voltaram pra ele, mas por aquele breve instante, o grito de gol atenuava a vergonha de ver seu coração se alegrar e o medo de se decepcionar mais uma vez. Era feliz novamente. Por uma fração de segundo, amava como coração de mãe. Incondicional. Com entrega. Monovalente. Encontrando nos defeitos e percalços do time do coração mais motivos e méritos para merecer aquela discreta alegria. Mas a alegria duraria pouco: a outra equipe empataria a partida dois minutos depois.