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Mel Duarte 
É uma comunicadora com propósito, revolucionária do cotidiano que acredita nas palavras como ferramenta de transformação social para dias de paz e de luta. Escritora, poeta e slammer, forjada na cidade de São Paulo, encontrou na poesia um aparato de sobrevivência em meio ao concreto para não perder a ternura.Há mais de 10 anos planta sementes de fala, colheu cinco livros de poesia sendo o mais recente Colmeia- poemas reunidos (2021 Ed. Philos), dois infantis (Itaú leia para uma criança) e o álbum musical Mormaço- Entre outras formas de calor, além de diversas apresentações no Brasil e pelo mundo afora. Mel honra um compromisso ancestral de manter a palavra em movimento e escreve para ser insilenciável.

QUEREM NOS CALAR

 

Aqui estamos nós, donas de nossas próprias palavras, revolucionárias do cotidiano, regando a terra outrora batida por nossas antepassadas,

firmando nossas pegadas, sabendo que hoje, cada vez que nossa fala se propaga, equivale a dez que antes foram silenciadas.

 

Mulheres de uma geração atrevida, filhas dos saraus e das batalhas de poesia,

alquimistas, libertárias, propagandistas da oralidade,

compartilhando nossas travessias,

bradando nossa realidade!

 

Sempre semeando essa terra verbo fértil,

perpetuando nossa existência através de versos,

escrevendo quantos poemas manifestos forem necessários por dia

pra cada vida interrompida ter mais valia.

 

Não mais invisíveis, não mais mercadoria.

 

Se querem nos privar, ocuparemos espaços!

Se querem nos apagar, escreveremos livros!

Se querem nos calar, vamos falar mais alto!

 

(Livro “Colmeia- Poemas Reunidos” (2021)

Capítulo Favo, pg 115

Editora Philos)

 

 

BEM-VINDA

 

Eram faíscas suas palavras que me queimavam em doses homeopáticas

durante todas as noites…

Foram longos anos, dia após dia perdendo um pouco mais minha autoestima,

abrindo mão das roupas que gostava, dos estudos, do trabalho e das amigas,

fazendo de tudo pra evitar brigas,

mas ele sempre dizia que a culpa era minha.

 

Até que um dia, me empurrou, me acuou

como se eu pudesse caber em qualquer fresta, encurralada,

me mandou ficar calada e, com medo, obedeci.

 

Eu pedia desculpa toda vez depois de falar

como se fosse um defeito de nascença querer me colocar.

A minha casa se tornou um ambiente tão hostil e eu, prisioneira das minhas próprias ideias,

acreditando que o amor era isso, esse abismo, onde só um fala e o outro, fica omisso.

 

Precisei tirar forças de lugares sagrados

pra me afastar e reagir, recolher meus pedaços.

Meus olhos encheram de mar, eu desaguei,

decidi não mais me calar, denunciei!

 

E depois do silêncio quebrado, meus pensamentos em guerra cessaram,

recuperei o fôlego e ouvi meu coração sendo grato.

Encontrei em mim um porto seguro, entendi que meu corpo é meu lar

e, no caminho até ele, escolho quem anda comigo e quem convido pra entrar.

 

Hoje, quando olho pra dentro, vejo uma nova mulher renascendo,

eu celebro sua chegada e contemplo essa nova vida.

Sem medo, abro a janela de casa

e, com olhar de quem a tanto tempo esperava,

te pego pela mão e digo:

Seja bem-vinda!

 

(Livro: “Colmeia- Poemas Reunidos” (2021)

Capítulo: Néctar, pg 139

Editora Philos)

 

 

 

 

 

CORAÇÃO DE MÃE

(Dedicado aos meninos da Fundação Casa)

 

Frestas invadem janelas

ruídos, sistemas, celas.

Risadas? Amarelas.

Um reflexo, uma luz, que não reverbera.

Fardas são singelas e a mente não oxigena

faltam palavras, trocas, telas, poemas...

 

Existem almas sinceras que clamam por atenção!

Existem almas que precisam dar e receber perdão.

Uma pausa do mundo, seres confusos, exclusos

sentimentos, sentir medo, sentimos tudo.

Ações e reações por impulso

resgatar, mentes em desuso

 

Meninos Labirintos

menores em idade

maiores descaminhos

 

Querer seguir adiante,

mas como ultrapassar o abismo?

Na falta de conhecimento, improviso.

Na sobra de tantos conselhos, corra o risco!

O estudo é arma de tiro certo,

mas a ignorância faz seu trabalho desde cedo

veja bem, não querer bancar o esperto,

vai lhe manter mais perto, de quem te guarda dentro do peito.

 

Deixe que as palavras pétalas que saem de mim,

sirvam de semente rascunho para o teu jardim.

Observe e absorva tudo que lhe rodeia

e lembre-se:

Coração de mãe é grande sim,

mas não cabe na cadeia.

 

(Livro “Colmeia- Poemas Reunidos” (2021)

Capítulo Pólen, pg 88

Editora Philos).