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Meimei Bastos 
É autora do livro Um verso e mei, educadora, atriz, coordenadora do Campeonato de Poesia Falada do DF & Entorno e do Slam Q’brada. Graduada em Artes Cênicas e mestranda em Culturas e Saberes, pela Universidade de Brasília. Atua em diversos movimentos sociais, promovendo saraus, slams, oficinas, debates, cineclubes e rodas de conversa, especialmente direcionados à população negra e periférica. Publicou seu primeiro livro, Um verso e mei, Editora Malê, em 2017. O livro está em diversas escolas públicas do DF e do MS, pelo projeto Mulheres Inspiradoras. Premiada pela Secretaria de Estado e Cultura do Distrito Federal em 2018 com o prêmio de Cultura e Cidadania, na categoria Equidade de Gênero e em 2020 com o prêmio Aldir Blanc, na categoria Literatura, Atualmente, a autora coordena no DF o espaço cultural “CARACAS, véi”.

AUXÍLIO EMERGENCIAL


escorreu as mãos no rosto
tirando o suor impregnado.
ajeitou as ferramentas certo
do dia seguinte.
bateu o ponto num inspiro
aliviado.
 

caminhou pelas ruas.
passou pela rodoviária.
viu no CONIC indiferentes
as moças, as travas,
as crianças com suas
máscaras de cola.
 

entrou em casa despercebido
pelo cachorro.
jogou-se no sofá murcho
de cansaço.
tragou impaciente
um Marlboro vermelho.
 

às 22h, desligou a TV amargurado,
não aguentando mais no ouvido
covid.
foi ter com a insônia uma noite lacerante.
 

despertou xucro,
resmungando, indignado:
não há lockdown
pra quem não mora no Lago.
trocou-se rápido para fugir do trânsito.
fumou desenfreado até a faixa vinte.
 

no primeiro ponto respirou forte;
no segundo já sentia o peito ardido;
no terceiro, foi quando todo o ar já tinha ido.
 

horas depois,
do auxílio emergencial
em análise, o status:
falecido.

 

 

 

 

 

CÁRCERE

 

dedico-me ultimamente

a infeliz função de

carcereira.

 

tornei-me Bangu:

presídio

de segurança máxima

para os meus poemas mais inconformados.

 

apesar de vacilante

tenho andado na linha,

seguindo rotinas,

contendo rebeliões.

 

às cinco da manhã

transfiro

os versos

à uma cela

cansada,

mal dormida.

se ali tentam fugir

advirto-os

do horário.

 

às seis e meia,

na mira de cinquenta e três corpos amontoados

na estrutura metálica

e fria apaziguo sua revolta lembrando-os

das dívidas.

 

às sete e meia: o ponto.

não há reboliço,

estão todos tecnicamente

contidos.

Control C

Control V.

 

se algum mais ousado

se manifesta,

delete.

 

meio-dia,

o Sol em Zênite.

enfileirados

os versos tostam a moleira

e descontentes

berram:

liberta-nos!

silencio-os,

considerando

o 13º.

 

quando trazem ideais

de sonho:

solitária.

em celas tão escuras

quanto os rostos cansados

no pau de arara.

 

às dezoito horas,

na volta,

prendo um e outro

mais agitado,

no punho daquela

senhora negra.

o céu de nuvens craqueladas

reflete o vermelho da sua revolta contida.

da soalheira das ventas infladas: o mormaço.

 

esta hora do dia é a de maior periculosidade.

do contrário de vencidos,

eles.

no lugar de quem se entrega,

eu.

assisto passiva minha redenção.

cativa, daquilo que

em mim reprimo.

estou refém,

de um subverso

expondo-me

a covardia.

 

 

 

 

AOS DE CORAGEM
 

o contorno de giz

do corpo sem vida

estendido no chão.

aquele corpo

também é

meu.

é meu o ferro no sangue

que se funde em grade.
 

anêmica,

quase

meio

sem vida,

perambulo

pelas vielas,

entre esgotos

e escombros.
 

minha derme

berra tua sede,

sente teus gritos,

enxerga tua dor,

enquanto enxugo
tuas lágrimas.
 

sua gente

clama por mim.

eu os desejo.

quero gerar teus filhos,

frutos,

e flores.
 

não demoro e atendo ao teu chamado.

virei e em seus lares me receberão.

feito as mães

me alimentarão

com o próprio sangue

e me darão um nome.
 

nos seus risos e punhos
farei morada

e quando do casulo das lutas florescer e partir as correntes que te aprisionam,

dançaremos juntos os sonhos das primaveras.

 

seus olhos nos meus.

um horizonte.

serei somente tua

e do teu povo

e não mais me apartarei de ti.