Meimei Bastos
É escritora e poeta, publicou Um verso e mei, pela Editora Malê, em 2017. Nascida em 1991, em Ceilândia, é formada em Artes Cênicas, pela  Universidade de Brasília (UnB).  É professora, atriz e coordenadora do Slam Q’BRADA.  Atua  em diversos  movimentos sociais, promovendo saraus, slams, oficinas, debates, cineclubes e rodas de conversa, especialmente direcionados à população negra e periférica. Premiada em 2019, pela Secretaria de  Estado e Cultura do Distrito Federal com o prêmio de Cultura e Cidadania, na categoria Equidade de Gênero.  Participou de importantes eventos literários nacionais e internacionais, como a Flip, em  Paraty e, a FILVEN, Feira Literária da Venezuela - FILVEN.  Colaborou na  publicação   da antologia Mulher Quebrada,  que reúne escritos de diversas mulheres  das periferias do DF e Entorno.

CORAGEM DÁ EM PÉ DE QUERER

tristeza na periferia é o que se alegra. aos seus olhos, quando parecer triste, duvide, receie. que para quem em carne sentiu, há de haver a maior alegria. possas crer! imagine você, que nuns anos destes, veio aqui em casa, um amigo de um amigo meu, dizendo de um caso que tinha passado o familiar de um conhecido. era dessas coisas absurdas, não por causa do que fizeram, também por isso, mas era por causa de uma espécie de coragem tão profunda, feito essa gente que ateia fogo ao próprio corpo em praça pública, feito corpos que param tanques de guerra, por uma coisa maior que si. de tão absurdo, de tanto de sonho que era, bonito foi. verdade. passeia pelas ruas, uma gente, na quebrada, braba, que não tem medo é de nada, nem de coisa nenhuma. tem essa estória do menino que não tinha nada, tinha, mas era só o querer. que querendo, foi se enfiar numa dessas festas de gente quarada, sem ter sido convidado. penetra. dizem que era curiosidade de saber como é pr’aquelas bandas grã-finas, dizem que era por causa de um irmão que ficou aguado por conta de uma comida que tinha visto num cartaz. parece que o irmão, queria tanto a comida, que sentia o gosto, sem nunca ter provado. queria tanto que não conseguia comer mais coisa alguma. ficou aguado, de verdade. de tal modo, que começou a amofinar. passava o dia salivando. era tanta saliva que foi ficando desidratado, magro. antes, traquino e espoleta, ficou parecendo uma caveira, coitado. dizem que a mãe tomou ciência da condição do filho, e que era quebranto e, só com simpatia desfazia. a mãe, tinha de pedir um punhado de comida em sete casas diferentes, juntar tudo e dar para a criança comer até se fartar. só a criança aguada podia comer dessa comida, é a simpatia. dizem que a mulher, passou o dia pedindo, de casa em casa, mais de sete, já que nem todo mundo tinha comida assim sobrando. rodou foi muito, mas conseguiu. chegou em casa, com um tanto de comida que apanhou, estendeu num pano e mandou trazer o coitado. dizem que de tão fraco, quem o trouxe nos braços foi o menino. a mãe, ofereceu a comida, dizendo que era toda só para ele, que podia comer tudo sozinho. cheia de esperança, crente que o menino ia se fartar e melhorar. ficaram assim: estáticos, esperando para ver a reação do menino. parecia com aquele segundo antes do gol, que a torcida toda silencia e reza. o pobrezinho, olhou, olhou e, vendo aquele tanto de comida, procurou, suspirou e deitou no ombro do menino. a casa toda virou silêncio, parecia que a fome do mundo tinha devorado seus corações. o menino, vendo a situação, entendeu que se não fosse a comida que o irmão queria, não teria jeito e, não tendo jeito o fim já se sabe. dizem. de um dia pro outro, danou a perguntar sobre uns lugares que só tinha visto na TV. ouviu toda gente. uns diziam que este lugar existia, mas que era tão longe, que pra chegar lá a pessoa tinha que pegar o primeiro ônibus que passava, depois, descer e pegar mais um. disseram que lá as pessoas usavam roupas novas e sapatos dentro de casa e, que comiam mais de uma vez no dia. dizem que o menino acreditou que era lá que tava a tal comida e em segredo inventou de ir. foi. sem nem saber bem pra onde. acompanhado de coragem. a lonjura nem bateu nas canelas do menino, nem nos olhos. não fez distinção da hora que saiu pra hora que chegou. era tanto caminho novo, que o menino nem viu o Sol trocando com a Lua. chegou num lugar. parecia na cabeça do menino com um tipo de festa. ele inocente, quis entrar na bendita. logo foi impedido por um parente de localidade, que na portaria do tal lugar, não vendo brancura na cara e nem na veste do menino, reconheceu-se. queria o ‘parente’ que esse desse um tal de convite, que tendo o menino, só tinha o querer. foi na querência de machucar, que o tal parente, botou o menino pra longe. pensava. ligeiro, de rato, acostumado a passar despercebível, que o menino nas ideias acreditou de pular a muralha, mais esta, que antes, era coisa de duas conduções pra ir, mais uma BR, mais duas estradas parque, um eixo e uma tesourinha, pra chegar. -tô falando que coragem nessa gente dá, e num é de repente, mesmo, dá é de nascença! obstinado com o querer de entrar, trepou na barra de ferro que dava bem na cerca de choque, pronta no querer de esturricar os meninos de coragem que dela queressem passar. fosse por sorte, vacilo da morte, erro humano, não se sabe. sabesse que o menino travessou num impulso a bicha mortal, parecesse treinamento de exército, passou espremido no meio das cercas e chegou no chão. -tenho pra mim, que é coisa de não saber, se soubesse o menino que o querer daquela cerca era por fim ni’preto, talvez, num tivesse travessado. talvez. coragem dá em pé de querer. disso eu sei e não é de teoria. já do outro lado, encantado, com tanta mesa com de comer. esfomeado. nem se deu conta da dor. na vista, só dava as pernas brancas e a fartura das mesas. num deu conta nem de dor, nem de presença. surpresa! questão de segundos, o menino foi tirado do sonho. suspendido, suspeito por querer. tava colado na guela do menino, o parente. vez dado conta da presença, veio a dor. na fissura de chegar, na travessia, tinha partido meia perna de menino. o que a cerca num esturricou, o chão quebrou. coisa do coisa ruim. que mal que tinha o menino querer? quem é que não quer? desde o ventre da mãe a gente já tem chance de querer. sem querer a gente não nasce! até pra vir ao mundo, passar o arrochado sinistro, a gente tem que querer. o querer nascer é o nosso primeiro querer. querendo ver que o menino não ficava de pé, quis o parente saber porquê. imagine que quando viu a causa, só pensou o parente em querer mais castigar. judiação. todo mundo vendo, mas sem querer ajudar o menino. querendo mesmo só ruindade. mé que pode um povo cheio de licença, de finuras, querer só ruindade pros pobres? quer ver essa gente virar, é nóis querer. querer é só pra eles. nóis existe só pra fazer o querer deles. pra eles. arrastado pelo tinhoso, com permissão, foi levado o menino, vermelho rubro, de pele e sangue. amarrado na grade, ficou soluçando o menino, querendo não sentir dor, não chorar. só querendo. até dar na espinha que ia morrer, tava na reta da morte. acreditou. tem um dizer por aqui, que diz que a morte usa farda. verdade. que eu já escapei dela. e olha que eu nem sou dessa gente toda de coragem, não. tava era vendo a morte o menino. ela vindo. querendo levar o menino. nem deu pio. quando chegou, de coturno, deu foi de querer revistar o menino. querendo que o coitado ficasse de pé sem poder. rumaram de levar o menino pra bura, algemado na perna quebrada. dava nem um pio, a cabeça erguida. que era pra num fazer querer de verme. subiu na bura, ninguém mais viu.

© 2019 - Revista Literária Pixé.

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