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Matheus Guménin Barreto 
(1992- ) é poeta e tradutor mato-grossense. É autor dos livros de poemas A máquina de carregar nadas (7Letras, 2017) e Poemas em torno do chão & Primeiros poemas (Carlini & Caniato, 2018). Doutorando da Universidade de São Paulo (USP) na área de Língua e Literatura Alemãs - subárea tradução -, estudou também na Universidade de Heidelberg e na Universidade de Leipzig. Encontram-se poemas seus no Brasil, na Espanha e em Portugal (Revista Cult, Escamandro, plaquete “Vozes, Versos”, Gueto, Palavra Comum e Diário de Cuiabá; entre outros), e integrou o Printemps Littéraire Brésilien 2018 na França e na Bélgica a convite da Universidade Sorbonne.

LUCINDA NOGUEIRA PERSONA: CONVIDADA DISCRETA NOS COQUETÉIS DO HOJE

Pego-me tentando encontrar o fio contínuo da obra de Lucinda Nogueira Persona (1947- ), o fio de Ariadne que a autora talvez tenha segurado ao atravessar seus 25 anos de publicação de poesia. E como não é este texto uma resenha, um artigo ou coisa que o valha, permito-me expor – francamente e em primeira pessoa – meus esforços ao leitor. Leio e releio Por imenso gosto (Massao Ohno, 1995; Carlini & Caniato, 2018), Ser cotidiano (7Letras, 1998), Sopa escaldante (7Letras, 2001), Leito de Acaso (7Letras, 2004), Tempo comum (7Letras, 2009), Entre uma noite e outra (Entrelinhas Editora, 2014) e O passo do instante (Entrelinhas Editora, 2019) em busca desse fio de Ariadne.


Que Persona talhou quase em silêncio e longe dos holofotes uma das obras mais discretamente originais da recente poesia brasileira, isso já sabemos. Há muitos que ainda não a conhecem, mas há poucos que, em a conhecendo, desconsiderem sua potência. 


Que Persona pareceu não aderir a nenhum dos muitos agrupamentos literários que a rodearam, antes pareceu beber de muitos deles e aproveitar o que em cada um lhe poderia fortalecer a poesia, isso também sabemos. A poesia de Persona é, como o é a autora, convidada discreta nos coquetéis do hoje: presente e retirada, atenta e distante. Cruza os grupos, troca palavras, mas volta cedo para casa.


Que a poesia de Persona parece não coincidir com aquela poesia participante ou abertamente política (‘abertamente’, já que de um modo ou de outro toda obra de arte é política) que tem recepção mais favorável nas capitais da sesmaria – São Paulo e Rio de Janeiro –, também sabemos nós. Sua força política estaria talvez emaranhada nos versos, abaixo do solo, mas ainda assim presente.


Se sabemos disso tudo, o que liga os pontos da obra personiana? Há algo que os ligue? A resposta sempre frágil, sempre incompleta para essa pergunta parece estar na palavra que vem rodeando e atravessando meu texto: o silêncio.


Talvez no silêncio possamos conjugar os frutos lavados e cortados há 25 anos, os passeios à volta da mesa de jantar há 25 anos, a atenção curiosa aos pequenos insetos e aos pequenos acontecimentos há 25 anos. Talvez no silêncio possamos conjugar os ecos todos dessa poesia escrita e transcorrida entre as quatro paredes de uma casa – porque a poesia de Persona é acima de tudo doméstica, mesmo quando (ou principalmente) se passa em outras paisagens, em quartos de hotel, em torno da linguagem. Não haveria nisso um retrato ferozmente preciso de nossa sociedade brasileira, estruturalmente patriarcal? Um retrato que, ao mesmo tempo em que dá a ver, subverte a lógica dominante: as pequenas epifanias domésticas (claricianas) se tornam – na mão do Eu do poema – sua grande e silenciosa resistência, seu segredo de esfinge que se recusa a propor seu enigma. E que o saboreia, vitoriosa.
Terminando este texto com as palavras de quem já disse mais e melhor, reproduzo abaixo o poema “Em nossa nudez” (do livro Entre uma noite e outra), um dos grandes poemas brasileiros da última década, um daqueles que – para lembrar aqui os versos de Drummond – nos expõem a “essa nudez, enfim, além dos corpos”. A essa mudez além dos corpos.