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Mateus Elias 
É graduando em engenharia civil, influencer, youtuber, faixa preta de karatê, tocador de viola de cocho e escritor. No canal “Xomano do Saber” fala de literatura e de cultura mato-grossense. Publica seus textos no blog “Memórias do Xomano” e é autor do livro de poesias “Cada Memória Vivida”. É autor de letras de canções em Portugal pela Rausstuna. Nasceu e mora em Cuiabá.

NOSSO SENHOR

Quando as tropas invasoras chegaram, a tensão era absurda. Os da frente vinham em cavalos. Tinham elmos, armaduras, escudos e espadas bem cuidadas, soldados bem treinados para destruir e colonizar. Nós tínhamos os pedaços de aço corroídos dos nossos avós veteranos. O primeiro ataque veio avassalando, antes de tudo, nossa esperança de vitória. Atrás da cavalaria, veio a infantaria cuja fama ecoa como o grito das almas no inferno em danação eterna.
O ser humano só luta pela vitória quando a derrota é certa. Quando não lhe resta a opção de fugir, quando o inimigo não lhe oferece nem a servidão, quando a morte é o único resultado, o homem se torna um animal e, em troca da mínima chance de um milagre, queima em poucas horas toda energia que Deus lhe cedeu para viver 50 anos.
Lutei bravamente para servir de mártir após a minha morte certa. Meu gládio rodopiava no ar, bloqueando instintivamente as ofensivas de meus oponentes. O que me dava forças era a certeza de que meu exemplo era a única razão para que meus homens continuassem lutando por suas próprias vidas.
Minuto a minuto, os combatentes se escasseavam. Na planície verde por onde caminhavam almas vivas, via-se vermelho e cadáveres de cavalos e homens que ainda se acostumavam com a morte. Nesse cenário, com serenidade aterradora de quem vê na autodestruição humana apenas uma engrenagem da perversa máquina da natureza, um cavaleiro galopava suavemente sobre os pedaços avulsos de carne produzindo espadanas de sangue com o passo do cavalo que montava. Estava no epicentro da batalha, onde o exército invasor era maioria, mas, estranhamente, todos em seu entorno o ignoravam. Posso lhe dizer que imaginei ser a morte vindo me avisar que morri sem perceber, pois o metal de sua armadura reluzia como se o sol a iluminasse com exclusividade e trazia uma capa preta que o vento baloiçava com peculiar interesse, conferindo-lhe uma medonha beleza.
Ele passou uma perna sobre o cavalo e apeou.
Como se coreografado fosse, no instante em que sua queda terminou e o choque de seus pés com a relva sangrenta se dissipou pelo corpo e no chacoalhar da armadura, o cavalo galopou para longe do turbilhão. Com a mesma serenidade, desembainhou seu gládio e, quando segurou seu cabo com as duas mãos, expandiu-se pela planície um estrondo sônico que me fez estremecer e fez levantar os pássaros das árvores. Repentinamente, os invasores voltaram-se todos contra ele.
O primeiro lhe arremessou uma lança contra o peito, o que teria levado qualquer homem a conversar com Deus, mas não foi o caso. O cavaleiro segurou no ar a pesada arma, manobrou-a agilmente e devolveu contra o ofensor um golpe que o atravessou deixando um buraco no ventre, pois a lança continuou seu trajeto por dezenas de metros até ser cravada inteiramente na terra, tamanha a força.
Vieram os outros. O cavaleiro bloqueava com sua espada e retribuía com um golpe único que punha fim à vida do oponente. Desviava com destreza assustadora por baixo da lâmina inimiga e voltava à postura com um golpe ascendente rasgando os bofes do contendor. Chegou um momento que dispensou a própria espada para inutilizar seus adversários no punho.
Silêncio.
Sozinho, derrotou um exército indestrutível. Ao longe, virou-se para mim. Petrifiquei de joelhos. Caminhou em minha direção sem consideração pelos corpos derrubados. Com um movimento brusco para o lado, retirou o excesso de sangue da espada para, em seguida, apoiá-la com a lateral da lâmina na minha têmpora.
- Aquele povo que crer em mim não perderá batalha. Aquele homem que for à guerra consciente da morte é o maior guerreiro. Aquele líder que leva meu símbolo encarna em si o meu poder e o incita em todos os seus comandados. Eu sou o Vosso Senhor. Foste o escolhido. Toma esta insígnia e guia teu povo.
Assim, Nosso Senhor me escolheu para vos guiar. Hoje, quando fordes à guerra, não temais, pois eu, eleito do nosso eterno comandante, o cavaleiro preto, estou convosco, e a insígnia que ele me deu é a mesma que vós levais sobre o peitoral de metal da armadura e que comprastes no meu templo por um preço módico, levando na promoção um retalho da capa que ele vestia.