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Marta Cocco 
É natural de Pinhal Grande-RS, formada em Letras, doutora em Letras e Linguística, professora de Literaturas da Língua Portuguesa na graduação e na pós-graduação da UNEMAT-MT. Faz parte do grupo de pesquisa LER: Leitura, literatura e ensino – UNEMAT/CNPq. Ganhadora de vários prêmios literários, já publicou cinco livros de poemas (Divisas, Partido, Meios, Sete Dias e Sábado ou Cantos para um dia só), dois de crítica literária (Regionalismo e identidades: o ensino da literatura produzida em Mato Grosso, Mitocrítica e poesia), um de contos (Não presta pra nada) e, com este, três infantis (Lé e o elefante de lata, Doce de formiga e SaBichões).

PRESENTE

Quando ia chegando o dia de Natal
meu coraçãozinho já entrava em estado de júbilo.
Todo dia manhãzinha eu azucrinava a mãe.
­— É hoje que a gente vai montar o presépio?
Daí a mãe chamava o mano e mandava buscar barba de pau lá no mato.
­— Eu quero ir junto!
E ia.
A mãe mandava os maiores cortar galho de pinheiro.
Eu achava que era mais bonito cortar um pinheirinho pequeno porque era uma arvorezinha. O galho ficava meio torto, não era a mesma coisa. Mas o pai não deixava.
­— Depois quem vai dar pinhão pras ‘graias’ e pra gente?
Na hora de colocar os enfeites, a mãe chamava a irmã. Se ela estivesse longe, não ouvia, mesmo com aparelho, então eu corria chamar.
Ela é prestimosa, dizia a mãe.
Eu sabia que significava que ela tinha jeito pra deixar as coisas bonitas.
­— Mas o presépio quem arruma é eu.
Eu sabia o lugar:
primeiro, o menino Jesus.
Do lado direito a mãe,
do lado esquerdo o pai.
Mais prum lado a vaca, o burro e mais por fora as ovelhinhas e os pastores.
Eu amava os cordeirinhos, meu Deus, tão fofinhos! E o Jesuzinho com aqueles bracinhos abertos? Que amor era aquele? 
As bolinhas quem colocava era a irmã ou a mãe. Porque eu podia quebrar. O anjinho era lá em cima do galho ou pendurado de um jeito que parecesse que ele estava voando. Eu já queria por logo os 3 reis magos pro presépio ficar mais cheio, mas a mãe dizia:
­— só no dia 6.
Naquela época não tinha luzinha, nem energia elétrica. 
Eu esperava ansiosa a véspera do dia. Porque as irmãs mais velhas vinham com meus sobrinhos que eram praticamente da minha idade. E eu teria com quem brincar. E a irmã mais velha sempre trazia brinquedos que ela não iria vender no supermercado porque tinha alguma pecinha faltando, algum defeitinho. 
Uma hora muito boa era a de cantar ao redor do presépio. Todo mundo cantava com vozes diferentes. Eu gostava de “Oh vinde, adoremos!”
Teve uma vez, no dia seguinte, eu peguei os brinquedos que tinha ganhado e levei lá na casa da Fia e reparti com as crianças, porque a Dona Olga tinha ensinado que no Natal a gente tinha que fazer uma boa ação. Eu pensava que aquilo era boa ação.  Meu irmão ria, achava eu boba. 
Agora não tem mais graça.
O pai morreu.
A mãe morreu.
A irmã mais velha morreu.
A segunda mais velha está tão doente que nem fala direito.
Os outros estão longe, às vezes até no pensamento. 
A lonjura do pensamento de vez em quando dá briga.
Eu nem monto árvore de natal e presépio porque meu filho não é mais criança e quase não sobra tempo e o tempo dentro da cabeça tá ansioso com resultados de exames.
Presentes não faltam. Mas cada um já diz logo o que quer, então não tem muita graça. 
Tudo o que eu queria era voltar por algumas horas no tempo. 
Ou que meu filho fosse pequeno de novo. A mesma coisa diz o pai dele. 
Natal com criança em casa tem mais graça. Não sei. Parece que elas têm alguma coisa que lembra o Jesuzinho!

© 2019 - Revista Literária Pixé.

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