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Marta Cocco

É natural de Pinhal Grande-RS, formada em Letras, doutora em Letras e Linguística, professora de Literaturas da Língua Portuguesa na graduação e na pós-graduação da UNEMAT-MT. Faz parte do grupo de pesquisa LER: Leitura, literatura e ensino – UNEMAT/CNPq. Ganhadora de vários prêmios literários, já publicou cinco livros de poemas (Divisas, Partido, Meios, Sete Dias e Sábado ou Cantos para um dia só), dois de crítica literária (Regionalismo e identidades: o ensino da literatura produzida em Mato Grosso, Mitocrítica e poesia), um de contos (Não presta pra nada) e, com este, três infantis (Lé e o elefante de lata, Doce de formiga e SaBichões).

UM NARRADOR SOB O DISFARCE DO TEMPO EM 'VOVÔ MORRERÁ HOJE' DE LUCINDA PERSONA

Quando o editor da Pixé me “intimou” a escrever uma resenha sobre a produção literária de Lucinda Persona, fiquei pensando se teria algo novo a dizer depois de artigos, capítulos de livros, uma tese e livro já publicados sobre a obra dessa autora. Pensei se teria algo novo a dizer, sem me repetir. Nesse momento,  dei-me conta de que justamente a repetição (de mitemas, de mitologema e de dicção estilística) foi uma das questões que me impulsionaram à pesquisa. Assim, dentre as publicações feitas, quase todas sobre os poemas da autora, optei por repetir, com algumas alterações, uma análise sobre um dos contos: Vovô morrerá hoje, publicado em Cuiabá na coletânea A margem esquerda do rio – contos de fim de século (2002). A análise foi publicada como capítulo do livro Literatura e contexto (2011), organizado pela profa. Luzia Oliva dos Santos (Unemat/Sinop).


O conto, desde a primeira leitura, surpreende pela constituição de, pelo menos, dois elementos: o tempo e o narrador (voz e perspectiva), sobre os quais recaiu esta investigação. 


Antes de me deter na análise propriamente dita, convém lembrar alguns conceitos caros a Genette. Para ele, a narrativa é a “representação de um acontecimento ou de uma série de acontecimentos reais ou fictícios, por meio da linguagem e mais particularmente da linguagem escrita” (Genette, 1974, p. 255). Ao dizer isso, de forma aparentemente simples, Genette não deixa de advertir para o risco de se considerar evidente esse conceito e não levar em conta aquilo que constitui “problema e dificuldade” e que é o ser mesmo da narrativa. Pois é justamente desse ponto que parti para desvendar, no conto em questão, o que está além da falsa obviedade da morte de uma personagem relatada por outra. 


É importante mencionar que Gérard Genette retoma, em seu estudo sobre a narrativa, os primeiros tratados a respeito do assunto elaborados por Platão e Aristóteles e, partindo do que escapou aos filósofos, restitui ao gênero narrativo o seu lugar de importância na literatura. Platão distinguiu a imitação propriamente dita (mimesis) da simples narrativa (diegesis), considerando esta última de qualidade inferior em relação ao drama. Já Aristóteles postulou que a narrativa (diegesis) é um dos dois modos da imitação poética (mimesis). O outro modo seria a representação direta dos acontecimentos por meio de atores, ou seja, distingue poesia narrativa e poesia dramática.  Para Genette, os dois filósofos concordavam com o essencial: a distinção entre o modo dramático e o narrativo, dando ao primeiro um status privilegiado. Nas palavras do teórico:


Enquanto que constituída por falas, discursos emitidos por personagens (é evidente que em uma obra narrativa a parte de imitação reduz-se a isso), ela não é rigorosamente falando representativa, pois que se limita a reproduzir tal e qual um discurso real ou fictício (GENETTE, 1974, p. 259).


Trazidos à cena alguns desses postulados, parto para a análise propriamente dita do conto com as devidas referências à teoria, quando a mesma se fizer oportuna. A história é contada por um menino que observa minuciosamente o ambiente em que o vovô se encontra (deitado numa rede no quintal da casa), além da mãe e do pai e suas respectivas ações no momento em que o vovô morre e um médico é chamado. O menino narra o fato antes de acontecer. Uma barata faz parte da história, à primeira vista, sem maiores relevâncias para a trama.


O título já nos surpreende com o anúncio da narrativa sobre um fato futuro: ‘Vovô morrerá hoje’. A forma verbal no futuro do presente e a declaração inicial do narrador suscitam nossa curiosidade sobre ele: como pode ter tal poder/visão?


Pois lhe conto. São quatro horas da tarde. É espantoso sim, mas vovô morrerá hoje. Mais espantoso ainda é que ele estará morto antes mesmo de morrer de fato. Com oitenta e dois anos, apesar de forte e saudável, vovô morrerá hoje. E será no início da noite. E atrapalhará o jantar. Este é meu jeito estranho de recordar o que ainda vai acontecer. Como não pode ser de outro modo, acompanho os antecedentes do atropelo (PERSONA, 2002, p.93)


Observo imediatamente a incidência de índices temporais que me levam a elaborar a hipótese de uma deliberada intenção do narrador em chamar a atenção do leitor para aspecto temporal: “são quatro horas [...] morrerá [...] estará morto [...] oitenta e dois anos [...] morrerá hoje [...] será no início da noite [...] jantar [...] recordar [...] acontecer [...] antecedentes”. Para identificar esse narrador, busquei em Genette algumas de suas valiosas considerações sobre a narrativa.


De acordo com o teórico, a voz (assunção das condições de enunciação pela instância narrativa) designa, ao mesmo tempo, as relações entre narração e narrativa e entre narração e história, com três possibilidades de narrador: autodiegético, homodiegético e heterodiegético. No conto em questão, o narrador em primeira pessoa, dá-nos a impressão de ser autodiegético pois, no limite, é quem seleciona os fatos e narra-os como convém, registrando suas impressões. Entretanto, comporta-se como homodiegético (e a esse comportamento caberá um comentário posterior), pois conta a história de outro personagem, o avô no dia de sua morte. Destaco o modo como ele se concentra na presença de uma barata na sala da casa:


Neste momento, apressada e atônita, uma barata avança bem rente ao rodapé da parede de adobe. Ela avança por partes, de vinte em vinte centímetros. Percorre uma distância total de cerca de dois metros, pára, gira rapidamente entreabrindo as grandes asas, volta pelo mesmo caminho, dá outra parada e se ajeita para atravessar a sala. Estou seguro de que vai atravessar a sala (PERSONA, 2002, p.93).


A barata é um elemento da ambientação que, aparentemente, não tem nenhuma função no enredo, mas, como sabemos que em uma narrativa nada pode ser desconsiderado, ao avançarmos na interpretação dos elementos constitutivos do conto, atribuiremos sentidos a sua presença. 


Prosseguindo na tarefa de decifrar o tão hábil narrador, dirijo-me às pistas do texto. Ao confessar que volta da escola, imagino um menino, com idade difícil de precisar. Ora, mas um menino teria essas qualidades/habilidades identificadas como as de um narrador? Teria, especialmente, tal sofisticação linguística para registrar suas impressões? A pergunta, que poderia sugerir um caso de inverossimilhança, reforça a tese genettiana de que todos os elementos precisam ser compreendidos na relação que estabelecem entre si na diegese. Assim, procedo à investigação sugerida inicialmente: a relação entre o narrador e o tempo.
Dentro da instância narrativa, é fundamental situar a posição do tempo. Para Genette (1979), a narrativa é uma “sequência duas vezes temporal”: o tempo da coisa contada e o tempo em que a coisa é contada. Para ele, “cambiar um tempo num outro tempo é a função da narrativa”. Eis a chave para entender o conto em questão:


Estudar a ordem temporal de uma narrativa é confirmar a ordem de disposição dos acontecimentos ou segmentos temporais no discurso narrativo com a ordem de sucessão desses mesmos acontecimentos ou segmentos temporais na história, na medida em que é indicada explicitamente pela própria narrativa ou pode ser inferida deste ou daquele indício indireto (GENETTE, 1979, p. 33).
O próprio conto de Persona nos acena para a existência de anacronia na história e para o disfarce que o narrador preparou para intrigar o leitor: 


Este é o meu jeito estranho de recordar o que ainda vai acontecer. Como não pode ser de outro modo, acompanho os antecedentes do atropelo.(...) É engraçado, o número de horas que gasto sem fazer nada está acima da cota de tempo que me foi dada. Difícil este cálculo. Meu ócio é mais duradouro do que minha própria vida. Por conta disso, engano o tempo (PERSONA, 2002, p 94).


Há, portanto, a confissão do narrador de que engana o tempo. Cabe-nos descobrir como. O tempo predominante em toda a narrativa, nas formais verbais, é o do presente do indicativo. Apenas no primeiro parágrafo existe a presença do futuro do presente, indicando justamente a intenção de contar o futuro. No último parágrafo, temos o pretérito perfeito a partir do momento em que a mãe “acendeu” a vela, tempo verbal utilizado para marcar ações que ocorrem num tempo definido. Nesse sentido, o uso desse tempo pode indicar a confirmação da morte do avô.


Por essas observações, o ímpeto inicial foi o de afirmar que estávamos diante de um caso de prolepse, não muito comum, segundo Genette (1979, p. 65): “A antecipação, ou prolepse temporal, é manifestamente menos frequente que a figura inversa (analepse), pelo menos na tradição narrativa ocidental”. Para o teórico, diante de uma prolepse, a narrativa em primeira pessoa é a mais apropriada, pelo seu “caráter retrospectivo, que autoriza o narrador a alusões ao futuro e, particularmente, à situação presente” (GENETTE, 1979, p. 66). É exatamente isso o que observamos no conto de Persona: um narrador que anuncia o futuro, mas se refere aos antecedentes do evento principal (a morte do avô), fazendo, portanto, um movimento retrospectivo e, depois, apontando os fatos numa sequência linear, com formas verbais no presente, mudando para o pretérito perfeito apenas no final.


Todas as tardes, entrincheirado em algum lugar, faço-me atento aos movimentos da casa que bem pouco se mexe. Papai está sentado num jirau. [...] Nas sombras da varanda, alheio aos bens terrenos, vovô está na rede – seu lugar cativo. 
Diante dos meus olhos, afasta-se o dia, assim: a pacífica luz do entardecer sai de mansinho de dentro de casa. Ergue-se do chão da varanda e deixa vovô na penumbra. Ela, a luz pacífica, sobe no velho telhado para entrar nos olhos do gato. Enquanto eu for pequeno, isso me acalma (PERSONA, 2002, p.94).


Nesse último período está uma das pistas, justamente num advérbio de tempo e num adjetivo que também indica tempo: enquanto e pequeno. Vejamos outra dica: 


A barata continua imóvel. Um leque marrom aquelas asas semi-abertas. Volto àquilo que se vai. Meu peito dói ao frio perfume. Uma sombra, maior do que a casa está dentro dela. Quero correr e não consigo (PERSONA, 2002, p. 94).


Querendo abarcar tudo o que está à volta do evento da morte do avô, o narrador se concentra na barata, mas em seguida “volta ao que se vai”, ao que está em andamento, a morte e o seu ato de contar. Estaria este episódio gravado em sua memória? Então é necessário registrá-lo, antes que se vá. Por que não consegue correr? Por que a imobilidade? E poderia ser diferente no mundo da lembrança?


Portanto, se existe uma lembrança, há, enfim, um narrador que, tendo testemunhado um evento, decide contá-lo, anos mais tarde, com toda a sua experiência de vida e de linguagem que lhe permitem uma atenção minuciosa aos detalhes, com requintes de elaboração e de criatividade. Abro um parêntesis aqui para a hipótese de o uso das formas verbais no presente do indicativo ter dupla função: tanto a de organizar a sucessão dos fatos naquele passado, como a de sugerir comentários do narrador acerca da sua vida adulta, pois dizer, por exemplo que “o ócio é mais duradouro que a própria vida”, pode ser uma alusão ao seu estado presente e não pretérito.


Pois bem, voltar no tempo e contar, passo a passo, como vovô morrerá é restituir a si mesmo uma certa dignidade que não lhe foi conferida no passado, cujos motivos não são  possíveis de identificar. Nota-se como ocorre a participação dos outros personagens, a começar pelo pai e pelo médico:


Agora, vovô está roncando forte, numa seqüência de sons cada vez mais secos e obscuros. Papai se aproxima, desassossegado. Vovô transpira em bicas. Papai se alarma. Vovô não está nada bem. É preciso chamar o médico. O médico é vizinho, que bom, e vem no ato, e examina vovô, e pega aqui, e pega ali. Depois recua, chama papai num canto. Fala claro.


— Seu pai está morto — e papai, admirado, retruca.


— Mas como?! Ele respira, pude perceber. E o ronco? É de vivo. O médico, amigo, entre sério e abalado, mas muito convicto, repete:


— Estou dizendo, está morto. Vai lá, pega nele.


Papai, num átimo, vai e toca em vovô, empapado de suor. A seguir, volta tartamudo.


— Nossa! Ele está gelado, doutor. Tem uma água pegajosa no corpo. O que é isso? — e o médico, olhando o horizonte imediato, responde.


— É a morte, pode crer. Conheço-a muito bem. É ela (PERSONA, 2002, p. 95).


Em seguida, entra a participação da mãe: “Mamãe, já dentro do meu foco, com gestos suaves, acendeu uma vela” (PERSONA, 2002, p.95) e até dos pernilongos: “Uma névoa negra de pernilongos frenéticos, cantando fininho, vem chegando para o velório” (PERSONA, 2002, p.95). Entretanto, a presença do menino na família é assim descrita, com a ressalva de que é apresentada em primeira pessoa pelo próprio personagem, com todas as implicações que isso pode suscitar: “Ninguém se lembrou ainda de me procurar” (PERSONA, 2002, p.95). Pois bem, se na ocasião – no dia da morte do avô - não teve tanta importância, ele, o narrador, ironicamente, a conquista no momento em que conta a história, fazendo-a com uma clara consciência temporal que lhe permite o disfarce e que, provavelmente, à primeira vista, confundirá o leitor.


Enfim, este é um caso de prolepse na narrativa primeira que, numa camada mais profunda, revela uma analepse, baseada na memória do narrador. Cumpre-se, então, o que Genette considera o papel primordial da narrativa, já mencionado anteriormente: cambiar o tempo noutro tempo. Sobre o narrador, voltando à sua caracterização (em relação à história) como homodiegético, podemos acrescentar que se trata de uma classificação cuja variação neste conto, é difícil precisar, se levarmos em conta que:
Haverá, pois, pelo menos, que distinguir no interior do tipo homodiegético duas variedades: uma em que o narrador é o herói da sua narrativa e a outra em que não desempenha senão um papel secundário que acontece ser, por assim dizer sempre, um papel de observador e de testemunha.( GENETTE, 1979, p. 244).


Ora, se sua intenção  foi o resgate da própria dignidade e, fazê-la em primeira pessoa poderia soar suspeito, nada como colocar-se propositalmente como personagem secundário. Ora, sendo um observador, e não um mero observador, reuniu as condições para tornar, pela sua escrita, a morte do avô memorável (herói nesse sentido). Do ponto de vista do nível da narrativa, podemos identificar a mesma dubiedade: por um lado, temos um narrador que, por ter vivenciado o episódio da morte do avô e dominar a completude do evento, com ampla visão, pode contá-lo extemporaneamente, manipulando o tempo; de outro, um narrador que se coloca dentro da história (nível intradiegético) sem importância aparente. Desses comportamentos dúbios, chega-se à síntese do seu movimento que foi o de regressar no tempo e, a partir daí, contar, no presente, o que estava por acontecer.
A barata, uma das grandes metáforas do texto, pode significar a hesitação da própria memória ao retomar fatos do passado, e/ou a fragilidade humana diante da morte, o temor diante de um risco que pode nos arrebatar a qualquer momento, como sugere o parágrafo final do conto:


Nesse tempo todo em que estive esperando vovô morrer, perdi de vista a barata. Da última vez que lhe pus os olhos, estava hirta, incapaz de atravessar a sala. Deveria percorrer poucos metros até alcançar a cozinha, talvez, ou ali num lugar no meio da noite. Foi para criar coragem, com certeza, que ela se deteve. Coragem para armar os passos e se atirar sala afora, sem esbarrar na morte (PERSONA, 2002, p.95).


Esse parágrafo foi tomado como emblemático, mas, em todo o conto, se nossa atenção tivesse se concentrado na descrição do espaço, especialmente dos seres nele inseridos, verificaremos que todos se movimentam ou apresentam índices de movimento no tempo. Assim, tudo é simbólico, tudo expressa o caminho das coisas e dos seres para a finitude. Uma finitude assustadora, que requer cautela e, em alguns momentos, é apresentada como o limiar para a eternidade - vejo a eternidade que se aproxima. (Persona, 2002, p. 94), parecendo opor a uma visão trágica do destino, a concepção cíclica de tempo. Esse aspecto certamente contribuiria muito para uma análise mais abrangente da narrativa estudada, entretanto, ficará para uma próxima investigação. 
Voltando à barata e ao ponto central deste artigo, se a reconhecemos como metáfora e como tal, portadora de múltiplos sentidos, é possível que ela também queira chamar a atenção do leitor para o que possa passar despercebido: a relação entre o narrador e o tempo. Perder isso de vista, neste conto, é perder a oportunidade de atravessar a sala fascinante da história e estar, diante dela, vivo.

REFERÊNCIAS

GENETTE, G. Análise estrutural da narrativa – pesquisas semiológicas. Trad. Maria Zélia Barbosa Pinto. 2ª. ed. Petrópolis: Vozes, 1972. 
____________. Discurso da narrativa – ensaio de método. Lisboa-Portugal: Ed. Arcádia, 1979.
PERSONA, L. Vovô morrerá hoje. In: LEITE, M. C. S.; MORENO, J. (Orgs.). Na margem esquerda do rio: contos de fim de século. São Paulo: Via Lettera, 2002, p. 93 a 96.