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Marli Walker

Doutora em Literatura e Práticas Sociais - UnB

POSSE

Sou de Mato Grosso – digo
ando pelo mundo a falar e
espalhar a poesia do lugar
nele transpiro e envelheço 
há algumas dúzias de anos

 

Mas você é pau-rodado – dizem
(ser e estar nesta terra 
criar, aprender, agregar
não parece o suficiente)
há sempre alguém que se arvora
pra lembrar que sou de fora
que trago mate nas veias
e sotaque esbranquiçado

 

Ora, que triste coaxaria!
trago em mim tantas cantigas
de além-mar (em outra língua) 
pagos do sul trago ainda
uma barriga bem verde
lá de Santa Catarina 
 
Eu trago (mais do que tudo)
árvores mortas e vivas
poeira de muita estrada
a passarada das matas
o olhar da onça pintada
não sou jacaré ao sol
em veredas pantaneiras
nem assento meu traseiro
em fortunas passageiras

 

Escavo há trezentos anos
um lugar por paradeiro
(uns versos e algum trapo)
só não me finco em lameiras
não coaxo como sapo

 

Esta terra é meu sertão
é meu pão e meu sapato
é de meu filho o torrão
e de meus netos o prato
é o texto que escrevo
é onde deito o esqueleto
em cada letra que traço
quem não gostar desta trova
diga que sou pau-rodado
mas coaxar, não coaxo!