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Marli Walker
É Doutora em Literatura (UnB). Leciona no IFMT e integra o Coletivo Maria Taquara - Mulherio das Letras/MT. Publicou os livros de poesia: Pó de serra (2006), Águas de encantação (2009) e Apesar do amor (2016), contemplado pelo edital do MEC para o PNLD (2018).

SANTO NEGRO​

perdoai-me, Benedito,
bem sei que sou negligente
(está difícil ser gente)
sei que tens muito a olhar
sei que tens tanto a entender
sei que és capaz de me ouvir
no alto da escadaria
dividindo com Maria
o átrio deste Rosário

desculpai-me, Benedito,
se me distraio da prece
mas observar vocês dois
me entristece por demais
(o mundo cão faz de conta
que um negro e uma branca
em toda parte são iguais)

é difícil compreender
a insensatez dos humanos
juntam o negro e a branca
(religião botando banca)
na entrada da igreja
mas na hora da defesa
de alguma cota que seja
dizem ser protecionismo
(não há dívida alguma – 
vociferam e esbravejam)

acendo a minha vela
peço-Te que entenda
peço a Ela que interceda
eu só desejo o mesmo
do que tive
do que tenho
a este, àquela, 
(a quem quer que seja)

pequena e envergonhada
me desmancho aos Teus pés
(toco da vela queimada)

© 2019 - Revista Literária Pixé.

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