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Maristela Carneiro
Maristela Carneiro é Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Estudos de Cultura Contemporânea – PPGECCO/UFMT. Docente da Faculdade de Comunicação e Artes – FCA/UFMT, é Mestre em Ciências Sociais e Doutora em História. Co-Líder do Grupo de Pesquisa ContemporArte. Dentre seus interesses, destaque para Estudos de Gênero, Feminismos, Artes e Cultura Visual, Pensamento Decolonial e Epistemologias do Sul.

DO CONTEMPORÂNEO
GATILHOS DE ALEGRIA

A alegria não desfruta de boa reputação no mundo das artes. Seja qual for a linguagem artística em questão, diversão é sempre tabu. Artes feitas com prazer, que proporcionem conforto ou que induzam ao riso são frequentemente descartadas como rasas e descomprometidas, incapazes de alcançar a complexidade do sensível. Essa visão, ao menos em parte, encontra sua justificativa no grande número de obras baseadas em narrativas preconceituosas, que exploram, perpetuam e difundem em nossa sociedade as mais grotescas caricaturas de mulher, de negro, de pobre e de LGBTQIA+.

Dito isso, a “alta arte” poderia ser odiosa? Não há inegável misoginia nos filmes de Woody Allen e nas pinturas de Picasso? Não há fetichização da violência nas pinturas de Jacques-Louis David e nas peças musicais de Richard Wagner? Não há um elogio desmedido ao poder abusivo de príncipes, duques e bispos em incontáveis obras renascentistas? Nada garante que um trabalho artístico “mais sério” guarde melhores intenções. Ademais, as melhores intenções garantem alguma coisa? Não está o inferno cheio delas?

E, no entanto, fazemos inúmeras concessões à dita “boa arte”: perdoamos todas as suas faltas, enquanto reservamos as mais duras críticas à arte que promove leveza, riso, fuga. A última fase da obra de Matisse e seus recortes de papel é frequentemente deixada de fora das retrospectivas de sua obra, porque é tida como uma fase menor, menos densa em termos de elaboração teórica, talvez até mesmo boba.

De modo geral, a música popular dedicada à dança, à celebração, à folia, é também tida como menor que a música de câmara, à qual canais e publicações especializadas dedicam amplo espaço, isso sem mencionar os currículos escolares, que por sua vez replicam os currículos das faculdades e cursos “superiores” de música, por vezes desprezando ou apagando alternativas ainda não consolidadas nos castelinhos curriculares.

Chegamos então ao silêncio. O silêncio é uma forma de depreciação tão eloquente quanto o insulto, e a arte que não é mencionada sofre até mais que aquela que é degradada em voz alta, perdendo até mesmo a chance de lembrada com desprezo. Não é lembrada, ponto.

Por quê? Certamente, a alegria é algo que, no nível pessoal, ao menos, todos buscamos, de alguma forma. No reino da alta erudita dos corredores universitários, salas de concerto e galerias, todavia, ela se converte em sinônimo de simplismo, conformidade burra, alienação. Novamente, não é algo de todo injustificado. Não faltam artes no mundo que apelam ao cômico e ao sentimental de forma barata e deliberadamente irrefletida e alienante. Dito isso, a potência reflexiva de uma obra não repousa, ao menos parcialmente, em sua capacidade de tecer uma relação subjetiva com o apreciador? A seriedade de uma composição profunda e bem pensada não poderia servir como um enclausuramento de si? Uma armadura de seriedade que afasta não apenas a alegria, mas também o significado, os afetos, a curiosidade, o interesse, a capacidade de interpretação.

Não seria em certos casos a leveza um recurso mais válido para atingir o afeto e a fruição?

Este é o ponto em que a obra de Tilde Grynnerup salta aos olhos. Tendo trabalhado como letrista e estilista, a dinamarquesa entalhou seu caminho nas artes visuais buscando novas formas de expressão e assentando-se no trabalho com madeira. Assimilando a técnica de seu pai, carpinteiro, Grynnerup se debruça sobre a madeira para criar composições abstratas que se caracterizam pelo ritmo visual e pelas cores vívidas, obras que, mesmo estáticas, carregam um movimento construído pela concatenação de formas e espaços.

As artes visuais, desde sempre, construíram-se sobre ilusões. A superfície plana da pintura e do relevo se esforçaram para conter o espaço tridimensional com suas nuances de profundidade. A perspectiva e o escorço foram formulados com a finalidade de reforçar o ilusionismo da criação bidimensional. Mesmo com a relativa libertação da representação figurativa proporcionada pela abstração, alguma necessidade de ilusão permanece: o movimento que não é movimento, o ritmo e sua constância apaixonante.

Os painéis de Tilde exploram magistralmente a paixão do olhar pela ilusão. Suas formas angulosas e coloridas se sobrepõem, se seguem e se interrompem com fluidez, criando uma dança que remete aos trabalhos finais de Piet Mondrian, todavia com muito mais ímpeto, dadas a ousadia dos recortes e a variedade das cores. A potência dinâmica dessas imagens aproxima-se muito, com efeito, das preferências visuais dos construtivistas russos, com suas linhas ousadas, semelhantes a escadarias conceituais que levam de qualquer lugar para lugar nenhum. Melhor que um lugar comum.

Aos olhos de gerações contemporâneas, na verdade, que já não olham mais para algo com as características do conjunto da obra de Grynnerup como apenas um exercício formal, mas como peças que dialogam com décadas de ironia, super-estimulação visual, pixel art e paixões tanto minimalista quanto camp e kitsch, o apelo destes painéis é sua redundância e sua diversão. Para nossos olhos exaustos, mas sempre sedentos por mais imagens, a repetição intensa e bailante desses trabalhos é bem-vinda. O movimento implícito é encorajador, excitante, irrefreável, como queremos que a existência seja.

O energético. O leve. O divertido. Voltamos ao início? Como conciliar aquilo que todos queremos, a elevação do espírito, com as igualmente altas expectativas das esferas cerradas de nossa cultura, o aspiracional, o drama, o perpétuo aborrecimento vital vendido como profundidade? O trabalho de Grynnerup nos convida a examinar uma arte carregada de referências, de vida, de potência expressiva e, apesar disso (ou talvez justamente por isso), de pulsante alegria.