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Maristela Carneiro
É Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Estudos de Cultura Contemporânea – PPGECCO/UFMT. Docente da Faculdade de Comunicação e Artes – FCA/UFMT, é Mestre em Ciências Sociais e Doutora em História. Co-Líder do Grupo de Pesquisa ContemporArte. Dentre seus interesses, destaque para Estudos de Gênero, Feminismos, Artes e Cultura Visual, Pensamento Decolonial e Epistemologias do Sul.

GRITO

Este é o primeiro som que emitimos ao nascer – para muitos também é a última de todas as despedidas. Inúmeras obras de arte tomam o grito como tema, ou ao menos como acessório crucial. As mais óbvias são certamente as pinturas e gravuras do artista plástico norueguês Edvard Munch. Mas o óbvio é exatamente o que é: o óbvio. Entretanto, para além do evidente, há quem diga que a célebre figura humana distorcida da obra de Munch não está gritando; o fato de estar tapando as orelhas com o rosto rasgado em uma expressão de desespero indicaria que a personagem está suportando um grito que vem de fora, de alguém logo ali, ou do próprio mundo. É intrigante, sem dúvidas, que a inscrição deixada por Munch na parte de trás da primeira obra da série não seja tão somente “O Grito”, mas “O Grito da Natureza”.
Com efeito, há muito de não-humano na natureza que grita. Para os animais o grito é algo tão natural que nada apresenta de especialmente alarmante ou não-ortodoxo - é uma função vital como qualquer outra. Chamaríamos tais sons de gritos? Para nós, claro, como todo o resto, o grito foi ritualizado: como na natureza é uma demonstração de beligerância, medo, desespero, mas também é algo a ser reprimido, evitado. Entre nós, o grito fez-se tabu, tanto quanto a nudez ou o ato de comer com as mãos. Várias mídias exploram esta potência para o estranhamento envolvida no ato de gritar: filmes de terror ou de suspense se debruçam com grande efetividade sobre o irromper da voz para frisar o horror de uma cena chocante, ou mesmo para incitar medo acerca do não visto, daquilo que se encontra fora da tela, mas que é apenas implícito ao espectador.
Nas pinturas do espanhol Francisco Goya o grito figura entre as mais recorrentes das expressões, e sempre como sintoma do pior a respeito do ser humano: a superstição, o medo do desconhecido, a ignorância, a incapacidade de lidar com o diferente, o pavor diante dos horrores da guerra e da incapacidade dos poderosos de demonstrar empatia com os pleitos dos mais afligidos por uma sociedade terrivelmente desigual e, em muitos sentidos, sustentada sobre as pernas do medo e da constante ameaça de uma lógica brutalmente punitiva.
Talvez por isso o grito seja de tamanho valor para a expressão artística, desde o canto em que a elevação da voz pode ser pensada como a apoteose do sentimento. Mesmo as artes plásticas, não tendo o privilégio do som, insinuam a abertura da boca, a projeção dos lábios, a contorção das feições. Nas artes dramáticas, de Shakespeare às novelas contemporâneas, o grito tem lugar privilegiado – como os gêneros cinematográficos mencionados. Quantas estrelas da teledramaturgia não são lembradas com muito mais carinho que as próprias tramas das novelas em que atuaram graças aos seus gritos? Narazé Tedesco que o diga. Ou grite, enquanto Maria do Carmo segue no limbo do esquecimento.
O grito é, para a maioria de nós, com frequência, essa demonstração crua de infantilidade e selvageria. No entanto, quem não sente o impulso de gritar? Sentimos esse desejo diante da esmagadora solidão que por vezes nos acomete, da cada vez mais restrita medida de compreensão recebida nos círculos sociais, das arbitrariedades da vida e das coincidências infelizes, das máquinas de que dependemos e constantemente se desfazem em nossas mãos ou das práticas capitalísticas que nos destroem para produzir consumo, dinheiro, audiência.
Gritamos, então, para nós mesmos. Gritamos para nossas entranhas, gritamos diante de nossas próprias imperfeições, gritamos com os monstros que somos encorajados a sentir que somos: porque nossos corpos não estão de acordo com as capas de revistas, porque não cumprimos nossas metas de ano novo, porque não lemos todos os livros que compramos, porque passamos dos trinta sem ter obtido todos os sucessos cobrados por uma sociedade de espetáculo, de performance e de cansaço. Talvez por isso o grito seja tão fundamental à expressão artística, ao mesmo tempo que nos amedronta e nos põe em alerta. Assim como a arte, gritar é sobreviver.