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Mário Cézar Silva Leite 
É professor titular da Universidade Federal de Mato Grosso. Atua na Graduação em Letras/Literatura (IL) e no Programa de Pós-Graduação em Estudos de Cultura Contemporânea (ECCO-FAC). Fundou e coordena o Grupo de Estudos em Cultura e Literatura de Mato Grosso-RG DICKE (CNPq/UFMT). Doutor em Comunicação e Semiótica, é crítico literário e escritor. Dentre suas publicações destacam-se: Recuerdos de Mi Abuela & Outros Estilhaços em Charla (Cathedral Publicações/Carlini e Caniato Editorial, 2020);  Memorial [IN?]Descritivo: auto-ópera-biográfica-burlesca para professores titulares em literatura (Cathedral Publicações/Carlini e Caniato Editorial, 2017); Literatura, Vanguardas e Identidades: as Brenhas do Regionalismo (Cathedral Publicações/Carlini e Caniato Editorial, 2015)   

DESEJO E REPULSA: CORPO-ARTE – ATRAENTE-DISSIDENTE

...E ficam tristes e no rasto da tristeza chegam à crueldade.
Toda a expressão deles mora nos olhos -
e perde-se a um simples baixar de cílios, a uma sombra.
Nada nos pelos, nos extremos de inconcebível fragilidade, e como neles há pouca montanha, e que secura e que reentrâncias e que impossibilidade de se organizarem em formas calmas, permanentes e necessárias.
Têm, talvez, certa graça melancólica (um minuto) e com isto se fazem
perdoar a agitação incômoda e o translúcido vazio interior que os torna tão pobres e carecidos de emitir sons absurdos e agônicos: desejo, amor, ciúme
(que sabemos nós), sons que se despedaçam e tombam no campo
como pedras aflitas e queimam a erva e a água,
e difícil, depois disto, é ruminarmos nossa verdade.

(Um boi vê os homens – Carlos D. de Andrade)


O corpo. Matéria de composição-decomposição, de estar, ser, ocupar, inteirar, agir, interagir e de se integrar no e com o mundo. Ser, todo início e todo fim. Tudo começa e termina nele. O corpo. O que se passa pelo e como belo. O que se passa pelo e como o feio. Pureza, limpeza, impurezas, sujeiras. O corpo completo que, no mais das vezes, atrai-nos. O corpo incompleto que, no mais das vezes, repudiamos. Seus desenhos, seus tornos e contornos, sua força, sua fragilidade sempre no enfrentamento do e com o mundo. Formas de ser e existir individualmente, formas de ser e existir coletivamente. A PIXÉ, Revista Literária, Edição 31, Ano 4, julho/2022 coloca em primeiro plano o corpo, a corporeidade humana, pelas incríveis imagens, fotos-performances-outdoors, do artista Sandro Giordano. O romano, nascido em 1972, além de cenógrafo, de ator e engenheiro de luz para teatro desde outubro de 2013, se dedica ao projeto fotográfico “IN EXTREMIS (corpos sem arrependimento)”. Parte desse projeto se expõe nessa PIXÉ. 
Já desde algum tempo sabe-se que o corpo, ou sua designação – sua corporeidade, seu modo químico e físico de ser e estar –, traduz de imediato um fato do imaginário social. De uma sociedade para a outra, a caracterização da relação do homem com o corpo e a definição dos constituintes da carne do individuo são dados culturais cuja variabilidade é infinita (LE BRETON, 2012, p. 30). Desse modo, estabelece-se que no fundamento de qualquer prática social, como mediador privilegiado e pivô da presença humana, o corpo está no cruzamento de todas as instancias da cultura, ponto de atribuição por excelência do campo simbólico (LE BRETON, 2012, p. 31). Na perspectiva das Ciências Sociais, isso interessa muito aqui, o corpo não existe em estado natural, sempre está compreendido na trama social de sentidos, mesmo em suas manifestações aparentes de insurreição, quando provisoriamente uma ruptura se instala na transparência da relação física com o mundo /.../ (Op. Cit, p. 32).  Então, convencionados de que o corpo é uma convenção-definição-conceituação sociocultural – inclusive naquilo que se pode dizer que é “em sua natureza” –, devo aqui estar antes atento ao seu processo de “trânsito” em e para os percalços da arte. Toda arte, antes de ser arte precisa ser, deve ser, uma convenção de ficção, de ficcionalidade, fabulação, imaginação.  Entretanto, nos termos aqui postos, toda “realidade” está em direto tom com a ficcionalidade e vice-versa. Não há “pureza” nem em uma nem em outra. Realidade e arte compõem-se basicamente nas subjetividades, nas impressões, que, por sua vez, compõem-se de padrões e convenções socioculturais. Daí que as percepções, sensações, funções, interpretações e representações do corpo são variáveis e múltiplas conformes a variabilidade e multiplicidade das sociedades e culturas. Para a arte é possível dizer, de certo modo, o mesmo. O fundamental aqui é notar que sociedades e culturas nessa engrenagem também definem o “aceitável” e o “inaceitável” para o ser e estar dos corpos e das artes. O que nossa sociedade e cultura cultua do corpo e no corpo pode ser o que outras sociedades e culturas abominam. E tanto no repertório do “admissível” quanto do “inadmissível” corporal as dissidências se postam, alargam e diluem as fronteiras. Tensões entre o erótico e o pornô; entre o desejo e a repulsa; entre o prazer e a dor; entre o sadismo e o masoquismo; entre o constrangimento e o riso.
Em cores fortes, num diálogo mix possível com a pop art e o hiper-realismo, o projeto-obra, a arte, de Sandro Giordano, IN EXTREMIS: corpos sem arrependimentos, o artefato artístico, fotos-performances-outdoors, põe em questão, por inusitadamente belo e constrangedor ao mesmo tempo, as relações do corpo, da corporeidade ocidental, com as múltiplas formas de vê-lo, senti-lo, percebê-lo e interpretá-lo nas dimensões e limites do estético, do lúdico, do cognitivo, e do catártico.  Corpos em queda. Queda dos corpos in extremis, Sandro Giordano, sem arrependimentos, na PIXÉ desse mês.        

  

Referências:
LE BRETON, David. A Sociologia do Corpo ; trad. Sonia Fuhrmann. 6ª.ed. – Petrópolis, RJ : Vozes, 2012.