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Marília Beatriz de Figueiredo Leite 
Professora fundadora da UFMT, adjunta nível IV; mestre em Comunicação e Semiótica, pela PUC-SP. Ocupou a cadeira nº 2 da Academia Mato-grossense de Letras. Publicou O mágico e o olho que vê (Edufmt, 1982) e De(Sign)Ação: arquigrafia do prazer (Annablume, 1993) e Viver de Véspera (Carlini e Caniato, 2018).

Verdade estrangeira
A morte não é nada
Muitas vezes é sorte grande
Porque o mundo está repleto
de
Gente que morre porque ama
Ou de povo que mata por amor!

 

Não desejo viver de antes ou de véspera
Pois assim é a vida do morto

E na pontualidade de minha finitude 
Os falecidos e eu agarramos pactos mudos
Com a implícita promessa de eu estar morta por
completo,
Não desses que amedrontados da visão depois do
estreito,
Atrasam passos e, falecidos, não concebem
Que a perda os abrace em completude.
Existe uma complexa tensão 
Entre o fim da vida e o desistir de viver
Assim floresce em meu ser 
O desvanecer da noite longa e acolhedora
Que os viciados de ruído nomeiam morte.
Ah, os horizontes que me aguardam,
A maioridade dos frutos preparados
Para acalmar minha sede

 

Tempo chegou com um gosto de enfermaria
Veio com um sabor de ajuste
Veio com um gosto de estática
Trouxe um sabor pelas bruxas
Chegou com um toque de ogro
Lançou um sabor por crimes
E o gesto por todas as matérias
Passando do tempo sem tempo
Para abraçar outro tempo, tempo “nossa revolução”
Tempo tortura, zonas, empilhação à saciedade
Tempo de usar sua amoralidade 
Tempo do tempo cansaço observado
Tempo resolvido para uma destruição.

 

Não teve soluço
Nem participou da doença 
Simplesmente “se mandou”
Pois detestava o começo da descrença...

© 2019 - Revista Literária Pixé.

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