Marília Beatriz de Figueiredo Leite

É professora fundadora da UFMT, adjunta nível IV; mestre em Comunicação e Semiótica, pela PUC-SP. Ocupa a cadeira nº 2 da Academia Mato-grossense de Letras. Publicou O mágico e o olho que vê (Edufmt, 1982) e De(Sign)Ação: arquigrafia do prazer (Annablume, 1993) e Viver de Véspera (Carlini e Caniato, 2018).

NO ACASO DO GOSTO A MEMÓRIA DE LUCINDA

 

Leito de Acaso, da poeta Lucinda Nogueira Persona, não é só um excelente repertório poemático, é um texto que liberta a palavra “memória” e, cada vez mais, prepara uma conjugação com aquilo que se foi, mas continua sendo dentro dela.
Por outro veio, os poemas se constroem como representações teatralizantes. A palavra é ator/atriz que faz o leitor/público se emocionar com o relato/atuação da autora. Os versos, os poemas são fatos representativos daquilo que o olhar/coração da autora captura. Lucinda quer reviver. É sempre mais a tentativa de compreender a angústia do ser humano e suas inquietações, reconstruindo-as.


Muitos deixam perceber o seu cotidiano em reminiscências; outros, em ações que se marcam como amplamente inovadoras na busca de algo que possa ser recente e desconhecido e muitas vezes com uma forma de dizer que perquira o organismo literário da escritura. A poesia não é uma magia, é um fazer, uma tarefa que se enfrenta com estilo e elegância para alguns ou, com força e concentração para outros. No caso de Lucinda, o estilo é seu registro e a elegância, mesmo no momento de fel, apresenta-se por inteiro. Sua força e sua concentração fluem no momento mesmo do olhar desvelador da poeta. Ao dizer dos cotidianos, ela exaure pontualmente a criticidade que existe no instante, no fato, porque o seu olhar é matéria concentrada que busca a nudez da coisa em si, do acontecendo, do acontecido. Críticas são: a sua força no apreender e a concentração do oculto naquilo que ela canta:

 

O caminho da vida é para baixo
é para baixo o caminho da vida
e já não me incomodo tanto

Os poemas da memória de Lucinda instauram em nós saberes e sabores de coisas muitas vezes esquecidas. Um trabalho dessa natureza possibilita tempos de lembrar e artes de esquecer. Como?


Quando as palavras formatam os versos é como se elas apontassem em nós quanto de esquecido se instalou no labiríntico de nossa humanidade. Os poemas afloram as possibilidades das lembranças. A passagem do sentido nocional para o sentido emocional perfaz o campo da conotação. Mas, em Lucinda algumas vezes, exatamente porque é instigante o esquecimento há um pouco do campo denotativo.


Não é provável que uma mixagem dessa ordem não crie no público-espectador-leitor um lugar de constante aprendizagem, que é bem verdade nasce às vezes do espanto, da surpresa. Aprender no caso da poética de Lucinda é saber reverenciar o apreender da dicção poética: aquilo que no simples tem de mistério.


Não troco
o movimento
das formigas
por qualquer outro de maior liberdade
A meta da procissão é bem clara
vai atrás do que precisa
a metros de distância
(lugar que em mim é um pouco mais longe)


E é nesse lugar que flui a fatura da criação poética e/ou a vida do dia-a-dia de Lucinda, é aí que frutifica a escritura criativa de Persona e é também nesse espaço que provavelmente correm as tramas versificadoras dos ramos da Nogueira.
Os ramos que indicam rumos de O lugar do amor satisfazem à parceria esclarecedora


Quero falar-te boca a boca
(palavras são estrelas
que se movem 
na abóbada palatina)


da poetisa com o leitor/espectador, uma vez que o leitor vê a atuação da boca na busca sutil do outro. Eis aí a cena teatral de um olhar mais esmiuçante, mais devorador por um lado e, por outro, de uma busca profunda da transparência individual e diária.
A luz que paira o tempo todo sobre o repertório de Leito de acaso parece originar-se de feixes de quem tem no conhecimento do mundo a tarefa não de dimensioná-lo, mas de compreendê-lo.


Assim, voltamos ao ponto central de nossa reflexão pensando que talvez as recordações de Persona estejam na ordem da inscrição de uma série de desejos que vivem no corpo do poema/poeta, da organicidade do texto que muitas vezes é construído com a investidura de uma pele.


Muito faço por mim
quando me rendo
a certas alegrias.
Meus objetos
não são outra coisa
senão fontes de abundância.
Especialmente exemplares são os versos:
De proporções limitadas:
a vida
tão breve para tantas palavras
e suas infatigáveis variações normais
À memória (largo campo a perder-se)
pertence cada minuto
daquilo que posso dizer
e me sai tão precário
em gramática e mistério
mas não é só


Postula a autora o caráter dual de nossa humanidade de modo belamente conciso e especular ao mesmo tempo em que procura nas nervuras mesmo da palavra aquilo que ela funda de misterioso no campo lingüístico e metafórico.


As recordações são de uma ordem especialmente pontual, pois quando relembra algo de Paris é dessa forma que o faz: 


Mais tarde
é sempre uma página
para síntese e repouso.
Hoje, é mais tarde.
Dia em que desobedeço à sagrada fala:
“não olheis para fatos antigos”. Eu olho.


Portanto, eis como a dicção da poeta flagra essa memória que é incansável, que é perfurada por uma cadeia incomensurável de vitalidade, de incontáveis olhares. Um olhar perpassado pela magia de desencadear encantos, outro que perfura a atenção do leitor/espectador que quer descobrir aquele algo sutilmente prometido, finalmente olhares perturbadores porque desenvolvem probabilidades corporais, como se as palavras fossem investiduras sensórias, porém solitárias.


Não sei se é possível afirmações diante deste tipo de fazer literário, mas, creio que Lucinda domina o cotidiano do mesmo modo e com a mesma fortaleza que restaura a memória.


Os sintomas da percepção aguçados no cotidiano e o despertar da memória são na poesia da autora uma espécie de britadeira que perfura, para aprofundar em certo sentido a imagem inconsciente do real, do corpo, dos fatos e atos. Instaura-se um olhar que fisga a cada instante, de nossas experiências, emocionais ou nocionais, experiências mais profundas, exaustivamente vividas através de sensações eletivas, arcaicas ou atuais do nosso corpo-templo, uma emoção evocadora atual assinala a escolha inconsciente das associações emocionais. Em Lucinda há algo subjacente que ela permite que aflore para compartilhar num sentido ritualístico com o leitor/espectador.


Algumas vezes, são pequenas observações:


Stazione. Todos vão e voltam,
não há ninguém que não procure a si mesmo.
que se transformam em confidências poéticas, mas que de um modo ou de outro, ainda são da esfera da lembrança. E ela lembra com a força do “punhal de prata” de Cecília Meirelles, cortando a carne, a emoção, a razão, para desnudar em sua escrita um texto de chamamento àquilo que o homem tem de mais sagrado: a capacidade de estender o seu horizonte de recordações.
Lembrar-se de grandes feitos é fácil. Restaurar a memória das coisas pequenas, do mínimo, do ínfimo é que relaciona decerto o homem com a sua simplicidade humana.
Viver é atordoante.
A sombra eterna e trivial assusta.
Encerra o texto poético uma cadeia significativa de questões, de pulsões e imagens desejantes que produzem traços de energias que vão desde o caos até uma vontade prospectiva de ordem.


Lucinda desenreda o só, não como uma palavra isolada, mas como um nó que desenvolve uma relação de poder para “coisas” que por vezes têm vocação de menos. No texto de Persona a poesia não só é mutante como também fixa fatos e atos em grafias onde tudo é muito de fala, de desenho e onde existe e se sustenta à teoria, pontuando cada mensagem. Dita fatos tentando colocar bordas nos acontecimentos. Mas respostas, por onde havê-las? Boa escuta – pensa sempre – é boa resposta.


Mas enquanto escreve, acontece que relata o vivido, o partilhado e aqueles momentos em que solitariamente a poeta aprisiona as suas coisas nas mãos, nos olhos e no coração.


E ela parece perguntar se chegará a um termo. E ocorre, na textura toda produzida, a construção de um tempo e de um espaço do seu contar de vida, da sua estória de amor, como aparece em Agora vou cortar abóboras:


Aquilo que a vida diária
há de oferecer
e sem que seja
numa ordem fiel
eu posso contar ao mundo
(...)
Palavras são meios de vida
gestos também o são

A prospecção da palavra apreendida em Lucinda é tão afiada que ela pode ao mesmo tempo em que descasca o fruto, o desencarna e o tempera na sua boca de filósofa, de memorialista e poeta.


Descasca:
Um pêssego fora da árvore
ao ter a morte à flor da pele
mantém intacta a potência luminosa.
O desencarnar:
Daí, a tragédia.
Quero o fruto (fruto de observação)


O tempero de filósofa, de memorialista e de poeta surge quando diz tudo sem envergonhar-se e sem críticas, apenas aceitando em certo sentido a forma sígnica e sensual de falar, aquele esforço desmedido e precioso que dá conta de um dizer amante/amado ao real da natureza:


não apenas para dar
um pouco de substância ao plasma
antes o quero
para o gozo de uma certa realidade
desconstrução não muito diversa daquela
de romper em qualquer ponto
o equilíbrio
provocar o estado diferente da matéria.

Libertar-me
do insuportável excesso de imagens
é deste único modo.”


A libertação de Lucinda é construída de duas maneiras: 


1) o recordar com recorte e,
2) com a combinação das imagens teatrais em seu palco poético.
E isto surge de forma esplendorosa em Delicada morte:
(a vida aqui na terra)
Não é a primeira vez
que estou a falar
de assunto que não entendo

À sorte sou entregue
a cada momento
talvez por isto eu seja 
tão viciadamente descritiva

O que tenho no horizonte
está bem posto
a tarde já caiu
nesta terra ocupada
por variáveis de abismo
No espelho
tenho a minha imagem
a partir da contribuição dos meus olhos
Ao repetir um modo
(que há muito vem acontecendo)
a tarde em queda livre
é programa que levo a sério
Esta delicada morte.


Na formatação rebuscada em que o cotidiano é revisitado, ela arquiteta desculpas para um fazer de poemas:
Meus poemas são, raríssimas vezes,
se é que jamais,
perfeitos em toda sua extensão.
A dimensão do rigor poético está em que ela resvala e vai revelando, ao desnudar, a carnadura da feição do dia-a-dia, disso que em nós às vezes se oculta por um comedimento social ou por uma máscara moral.
Saber que diz sobre coisas que afetam cria certos códigos que podem levar ao sentido dessas coisas. Daí, quando, por conseqüência, algum dizer das coisas pode produzir enorme bem-aventurança é porque consegue juntar pedacinhos.
Memória, finalmente, é a escolha, a amostragem de certo devotamento às recordações.
Fio sinuoso
o da mesma lembrança
a vida é isto
Prepara o recorte de rememorar não mais como encaixe das coisas cotidianas, mas como suporte das raízes familiares e finca o seu existir na qualificação da escritura sensível e escolhida:
A lembrança cresce no destino da família.
O futuro agora é um poema:
nele habitarão os famintos.
Assim, Memória torna-se um lugar, este lugar de falar, privilegiado!
Para falar das coisas é com Carlos Drummond de Andrade que ela se ritualiza:
neste mundo cada vez mais banal
e vasto também 
o’ Carlos
com muito amor 
na falta de outras palavras
para os fatos, digo:
as coisas continuam
do jeito que sempre foram
maciçamente presas
a um núcleo de ferro
Um pouco (ou tudo)
do que existe em mim
está em toda parte
em todos
(esteve em ti).


Quando fala sobre COISAS, ela percebe a pesada expressão escorregando ornamentos, pouca pedagogia substantiva lhe sustenta o corpo. E aí está o que para o leitor torna-se escritura que aos poucos vai deixando de ser contemplado como receptor pela palavra eró(s) = poé tica.


Lucinda vira criatura de outra esquina, solta como uma persona abstrata e resvala nisto que é luz:


Quem pode 
livrar-me de repetir
que grande mesmo 
é o que parece pequeno?


Em Néctar, a poeta parece arrebatar um toque personalíssimo e revelador e libertador da sua criação artística. Os possessivos apontam para uma dimensão mais profunda do gozo estético.


Mostrar a minha palavra
sempre tão pequena
inexata
rasteira?
Dizer do meu jeito
que é um jeito qualquer?
Pode ser, pode ser
Mas desejo mesmo
é escrever por dentro
como vai escrevendo a água
enclausurada nos ramos
ou no imo das folhas
Translúcida
tinta
de sustentação
que (um dia)
em néctar
aflora
o ideal sabor da fala.


E por fim, esta cena que jorra como uma forma de pontuação final, porém de uma verdade inacabada porque sempre:
a vida em verso
o verso em livro
Jamais recusa Deus as palavras
a quem delas precisa.


Por que o enunciado repetitivo do verso? Por que o descritivismo teatral de certas relações? Tantas questões para críticas.
Para mim, um resvalar em luzes, certo assombro diante da beleza, um desatino pelo revelado. Para mim, uma gratitude pela poesia de Lucinda Nogueira Persona! E mais não posso escrever por calar-me diante de um espaço tão belo!
E que você continue cantando em todos os leitos, Por Imenso Gosto!


Março, 2006.
 

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