Mariana Freitas 
É doutora em Comunicação Intercultural pela Universidade Fudan, em Xangai. Natural de Brasília, morou do Norte ao Sul do Brasil e também nos Estados Unidos, China e, atualmente, França. Aliando curiosidade, interesse social e paixão por culturas diferentes, trabalhou como jornalista, professora e pesquisadora acadêmica. Em 2010 mudou-se para a China e, graças a esta experiência e ao seu olhar apurado sobre cultura milenar chinesa, Mariana trouxe na bagagem o romance “Que o Oriente me oriente”, publicado em 2018, pela Editora Letramento. 

A TECELÃ

O ritmo das mãos da tecelã tramando o fio de algodão é quase sincronizado com o barulho da chuva que molha a terra do seu campo mágico. Aquelas mãos que abrigam loucura e lucidez. E que tecem estórias e encontros. E que cultivam plantas, amores, gatos, paz, dor e poesia. Que alimentam almas, agregam e empoderam mulheres, atraem passarinhos livres que rapidamente decidem voar.


As mãos habilidosas de mulher aranha, emaranhando, costurando e construindo seu destino. As mesmas mãos que plantam o algodão, o fruto e sua própria lua no chão, também vermelho, do cerrado. Lá onde corre o sangue Kalunga, lá onde casulos se rompem, onde a água fria abre os poros da pele e onde o céu é sempre estrelado e o poente alaranjado. 


Ah, mulher das estrelas, guardiã da sabedoria ancestral. Cíclica, intensa, intuitiva e inconstante. Doce e amarga, louca e serena. Ela é contradição e evolução, por isso, não cabe em rótulos ou convenções. Por isso ela intimida. 


Cuidado, moço, porque a aranha é também loba e sacerdotisa. É dona dos fios que tecem sua própria vida. Seu manto tem poder e sua existência já é um ato de resistência aos que não suportam liberdade. Porque ela é selvagem. 


Porque o que não falta na tecelã é coragem para assumir suas verdades, mesmo quando ela tem medo. E ela tem medo. Mas segue seu caminho assim mesmo, escutando o vento, tocando no algodão, sentindo aroma de planta e chá, gozando. Ela goza. É pele, cheiro, instinto, é conexão, troca, olhar, alma. E apenas os habilitados a enxergarem sua essência são convidados a entrar na sua trama.   

© 2019 - Revista Literária Pixé.

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