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Maria Firmina dos Reis (1822 – 1917) 
Nasceu em São Luís do Maranhão. Pioneira, aos 22 anos, tornou-se a primeira professora concursada do estado, com uma cadeira de instrução primária. É de sua autoria o que é considerado o primeiro romance abolicionista brasileiro, Úrsula (1859). A obra também é a inaugural quando se trata da escrita de mulheres negras. Maria ainda escreveu poemas e artigos críticos, além de algumas composições musicais. Outros livros relevantes da autora são Parnaso Maranhense (1861), Cantos à beira-mar (1871) e A escrava (1887).

TRECHO DO ROMANCE 'ÚRSULA' (1859)

Estavam já feitos os aprestos da viagem, e Túlio, entanto no meio da sua felicidade parecia às vezes tocado por viva melancolia, que se lhe debuxava no rosto, onde uma lágrima recente ha­via deixado profundo sulco. Era por sem dúvida a saudade da separação, essa dor, que aflige a todo o coração sensível, que assim o consumia. Ia dei­xar a casa de sua senhora, onde senão ledos, pelo menos não muito amargos tinha ele passado seus primeiros anos. O negro sentia saudades.
E aí havia uma mulher escrava, e negra como ele; mas boa, e compassiva, que lhe serviu de mãe enquanto lhe sorriu essa idade lisonjeira e feliz, única na vida do homem que se grava no coração com caracteres de amor – única, cuja recordação nos apraz, e em que ....*
Susana, chama-se ela; trajava uma saia de grosseiro tecido de algodão preto, cuja orla chega­va-lhe ao meio das pernas magras e descarnadas como todo o seu corpo: na cabeça tinha cingido um lenço encarnado e amarelo, que mal lhe ocul­tava as alvíssirnas cãs.
Túlio estava ante ela com os braços cruza­dos sobre o peito. Em seu semblante transparecia um quê de dor mal reprimida, que denuciava o seu profundo pesar.
A velha deixou o fuso em que fiava, ergueu-se sem olhá-lo, tomou o cachimbo, encheu-o de tabaco, acendeu-o, tirou dele algumas baforadas de fumo, e de novo sentou-se: mas desta vez não pegou no fuso.
Fitou então os olhos em Túlio, e disse-lhe:
– Onde vais, Túlio?
– Acompanhar o senhor Tancredo de *** – respondeu o interpelado.
– Acompanhar o senhor Tancredo! – conti­nuou a velha com acento repreensivo – Sabes tu o que fazes? Túlio, Túlio!
Depois de pausa, ajuntou:
– Não sentes saudades desta casa, ingrato?!
– Não, mãe Susana, não me alcunheis de ingrato. Quantas saudades levo eu de vós! Oh só Deus sabe quanto me pesam elas!
– Tu!? – exclamou ela, procurando ler-lhe no fundo do coração os sentimentos que o anima­vam. – Tu não levas saudades algumas. Túlio; se as levasses, quem te obrigaria a deixar-nos?
– A gratidão – respondeu ele com presteza.
– A gratidão!? E não a deves à senhora, que para ti tem sido quase que uma mãe? Não a deves à menina? e por que as deixas? É que não sentes saudades delas.
– Oh! Sinto-as, sinto-as, e muitas, mãe Susana!
– Então não procures ir com esse homem, que apenas conheces! Olha, ainda há pouco vi uma lágrima pender dos olhos dessa boa menina, essa lágrima, creio que lhe arrancou do coração a notícia da tua partida... e tu vais-te! Quando voltarás aqui?
– A nossa separação, disse-me o senhor Tancredo, será por pouco tempo. Volto para junto de vós, mãe Susana, e a senhora não reclamará em vão os meus serviços.
– A senhora! – Replicou a velha com má­goa – essa, meu filho, jamais reclamará os teus serviços; ou eu me engano, ou tu vais dizer-lhe o último adeus!
– Túlio, – continuou – não sabes quanto sofro quando recordo-me de que a nossa querida menina vai tão breve ficar só no mundo! Só, Túlio! Quem a acompanhará? Quem poderá consolá-la! Eu? Não. Pouco poderei demorar-me neste mundo. Meu filho, acho bom que não te vás. Que te adianta trocares um cativeiro por outro! E sabes tu se aí o encontrarás melhor? Olha, chamar-te-ão, talvez, ingrato, e eu não terei uma palavra para defender-te.
– Oh! quanto a isso não, mãe Susana – ­tornou Túlio – A senhora Luísa B... foi para mim boa e carinhosa, o céu lhe pague o bem que me fez, que eu nunca me esquecerei de que poupou­-me os mais acerbos desgostos da escravidão, mas quanto ao jovem cavaleiro, é bem diverso o meu sentir; sim, bem diverso. Não troco cativeiro por cativeiro, oh não! Troco escravidão por liberdade, por ampla liberdade! Veja, mãe Susana, se devo ter limites à minha gratidão: veja se devo, ou não, acompanhá-lo, se devo, ou não provar-lhe até a morte o meu reconhecimento!...
– Tu! tu livre? ah não me iludas! – exclamou a velha africana abrindo uns grandes olhos. Meu filho, tu és já livre?..
– Iludi-la! – respondeu ele, rindo-se de feli­cidade – e para quê? Mãe Susana, graças à generosa alma deste mancebo sou hoje livre, livre como o pássaro, como as águas; livre como o éreis na vossa pátria.
Estas últimas palavras despertaram no cora­ção da velha escrava uma recordação dolorosa; soltou um gemido magoado, curvou a fronte para a terra. e com ambas as mãos cobriu os olhos.
Túlio olhou-a com interesse; começava a compreender-lhe os pensamentos.
– Não se aflija – disse – Para que essas lágrimas? Ah! perdoe-me, eu despertei-lhe uma ideia bem triste!
A africana limpou o rosto com as mãos, e um momento depois exclamou:
– Sim, para que estas lágrimas?!... Dizes bem! Elas são inúteis, meu Deus; mas é um tributo de saudade, que não posso deixar de render a tudo quanto me foi caro! Liberdade! Liberdade... ah! eu a gozei na minha mocidade! – continuou Susana com amargura – Túlio, meu filho, ninguém a go­zou mais ampla, não houve mulher alguma mais ditosa do que eu. Tranquila no seio da felicidade, via despontar o sol rutilante e ardente do meu país, e louca de prazer a essa hora matinal, em que tudo aí respira amor, eu corria às descarnadas e areno­sas praias, e aí com minhas jovens companheiras, brincando alegres, com o sorriso nos lábios, a paz no coração, divagávamos em busca das mil conchinhas, que bordam as brancas areias daque­las vastas praias. Ah! meu filho! Mais tarde deram­-me em matrimônio a um homem, que amei como a luz dos meus olhos, e como penhor dessa união veio uma filha querida, em quem me revia, em quem tinha depositado todo o amor da minha alma: – uma filha, que era a minha vida, as minhas am­bições, a minha suprema ventura, veio selar a nos­sa tão santa união. E esse país de minhas afeições, e esse esposo querido, essa filha tão extremamen­te amada, ah Túlio! Tudo me obrigaram os bárbaros a deixar! Oh! tudo, tudo até a própria liberdade!
Estava extenuada de aflição, a dor era-lhe viva, e assoberbava-lhe o coração.
– Ah! pelo céu! – exclamou o jovem negro enternecido – sim, pelo céu, para que essas re­cordações!?
– Não matam, meu filho. Se matassem, há muito que morrera, pois vivem comigo todas as horas.
Vou contar-te o meu cativeiro.
Tinha chegado o tempo da colheita, e o mi­lho e o inhame e o mendubim eram em abundân­cia nas nossas roças. Era um destes dias em que a natureza parece entregar-se toda a brandos folga­res, era uma manhã risonha, e bela, como o rosto de um infante, entretanto eu tinha um peso enor­me no coração. Sim, eu estava triste, e não sabia a que atribuir minha tristeza. Era a primeira vez que me afligia tão incompreensível pesar. Minha filha sorria-se para mim, era ela gentilzinha, e em sua inocência semelhava um anjo. Desgraçada de mim! Deixei-a nos braços de minha mãe, e fui-me à roça colher milho. Ah! nunca mais devia eu vê-la...


* Há a ausência dessa linha no original fac-similar. Consta que a família do ex-governador Nunes Freire extraviou o único exemplar da edição de 1859.