8.png

Marcos Morasck
É professor e escritor, tendo publicado obras voltadas para o público juvenil desde 2007, dentre elas “O diário das eras” e “Pedras da meia-noite”.

NO PRINCÍPIO

— Mandou chamar, senhor?
— Sim. Queria uns conselhos, pois estou com outra ideia para uma criação. 
— O senhor anda muito criativo nesses últimos dias, não é mesmo?
— De fato, mas algo ainda me incomoda. É como se a criação ainda não tivesse sido terminada. Falta algo. Acho que esse cenário precisa de um personagem. Alguém que dê ação para que eu escreva uma história bem interessante.
— E qual é a ideia?
— Criarei um homem forte, belo, cheio de habilidades... 
— Desculpe interromper, mas não acho boa ideia, senhor. 
— Por que não? 
— Dirão que o senhor criou um homem idealizado. Que o homem comum, de verdade, não é assim tão perfeito. 
— Mas eu queria criar um homem primoroso. 
— Apenas advirto-lhe que haverá muitos julgamentos a essa imagem. Podem dizer que o senhor é machista e que esse homem não se adequa a padrões reais.  
— Um homem comum, normal, seria melhor?
— Outro conselho: procure evitar a palavra normal. Podem processá-lo por causa disso. 
— É sério isso?
— Temo que sim. Mas por que o senhor não cria um homem e uma mulher juntos?
— Por quê?
— Para evitar questionamentos...
— Ó céus! Mas alguém não terá que aparecer primeiro?
— Bem, devo admitir que o senhor tem razão. 
— Isso complica o meu trabalho. Escrever já foi mais fácil...
— O futuro não será fácil, senhor. 
— O que sugere então?
— Quem sabe simplesmente uma pessoa, um ser. O que acha? 
— Pessoa, isso, vou descrever minha criação como sendo apenas uma pessoa. Ela terá a cor...
— Devo alertá-lo que quando se trata de cores e etnias a coisa se complica ainda mais. 
— Assim é impossível criar! O que há de errado com a cor das pessoas? Não posso criar uma pessoa sem cor, posso? 
— Não, senhor. 
— Pois é. E afinal quero que elas cresçam, se multipliquem e se misturem. 
— E farão isso, senhor, não tenha dúvidas. 
— E ainda assim eu posso ser mal compreendido pela descrição que usar? 
— Lamento dizer que sim. 
— Juro que não entendo.
— Confesso que eu tampouco. 
— E uma criança? Posso inventar uma criança. Sem dizer o gênero e nem a cor, obviamente. Uma criança pequenina, gordinha... 
— Talvez esses adjetivos também não caiam bem, senhor. 
— Os adjetivos? As pessoas terão alguma alergia a adjetivo no futuro? Como escreverão as histórias sem adjetivos? Sem dizer feio e bonito, forte e fraco. A sociedade será inodora, insípida, sem cores, sem formas e texturas por acaso?
— Não estou certo, senhor. 
— Eu só queria escrever uma história, mas você me diz que tudo pode gerar problemas. 
— São as críticas, senhor... 
— Então não há solução para isso?
— Use metáforas...
— E não vão me crucificar pelo que eu disser? 
— Vão inventar um monte de explicações, mas garanto que ninguém chegará a qualquer consenso. Jamais passarão perto da verdade se o senhor não contar.  
— Certo, boa ideia. Então escreverei: “No princípio era nada. E não houve nada”.

© 2019 - Revista Literária Pixé.

  • Facebook