© 2019 - Revista Literária Pixé.

  • Facebook

Marcos Blau

Nascido em Sinop - MT. 24 anos, estuda Direito (UNIC), toca guitarra na Banda Distrito 835, está escrevendo seu primeiro livro e tem um blog: https://sapientiaaboveblog.wordpress.com/

A ASCENSÃO E QUEDA DE UM COPRÓFILO

O bebê nasceu saudável e, após extremo esforço obstétrico, no exato momento em que o menino foi expelido, o parto foi coroado com uma inconfundível flatula. A parturiente, claro, ruborizada ficou. Ao invés do primeiro choro como fato inicial de sua vida, foi a primeira evacuação, no jaleco do bondoso médico, que anunciou a biografia que ali se iniciava. 


Meses depois, o infante esboçou sua primeira palavra. Havia, como em qualquer pai, uma certa ansiedade sobre qual seria a escolhida. De repente, em uma tarde ensolarada de um domingo em que a família estava reunida, ele finalmente balbuciou o que foi interpretado como, em virtude do apelido do pai ser esse, “popô”. Pois enganada a família foi, já que a exordial unidade de sílabas tinha, na verdade, suas consoantes compostas pela letra “c” ao invés de “p”.


Em sua infância, a cada dia o menino tornava-se mais peralta, desenvolvendo um grande prazer por brincar no pátio de casa. Costumeiramente, se emporcalhava de barro e, aos olhos desconhecidos, não se entendia o cheiro que tal brincadeira proporcionava, mais tarde, ao guri. Porém, nem tudo aquilo que era marrom era terra. Sim, é preciso que se diga: o menino brincava, de modo particularmente desenvolto, com suas produções corpóreas. Por isso, nas más línguas dos colegas de bairro passou a ser chamado de Rola-Bosta.


Já na adolescência, havia chegado o momento de escolher um ofício: era o vestibular. Inicialmente, tentou ingressar nos cursos de biológicas para, enfim, estudar os excrementos que tanto admirava. Contudo, os avaliadores, em seu teste de admissão, detectaram que o jovem possuía “muita massa marrom e pouca massa cinzenta”, não estando apto, portanto, ao ingresso na área almejada. Enquanto o jovem, revoltado, não entendia o porquê de tal característica não ser aquela esperada daqueles que estudavam bosta, os examinadores não anteviram que estariam fazendo um grande favor a toda coletividade ao aprovar o curumim no respectivo curso, mesmo que fosse para ele ser um profissional de merda.


Frente ao infortúnio, o jovem decidiu canalizar sua inconformidade para a carreira da “Ordem, Hierarquia & Disciplinada”. A bem da verdade, ele nunca foi afeito a nenhum desses três pilares mas, também a bem da verdade, o momento histórico no qual estava inserido quando do seu ingresso fazia com que tal lema fosse igualmente relevado.


O novato já vestia o verde-oliva quando passou a admirar, além dos exercícios em que os praças se sujavam de barro simulando um ambiente de guerrilha, aqueles que, aplicando suplícios intermináveis a não-indivíduos indefesos, faziam estes defecar por todo canto. Embora apreciasse tais ações, uma tristeza sempre o abatia quando lembrava que não queria apenas admirá-los, mas participar de tais sujos atos.


Após curta carreira, foi expelido do corpo fardado tal como uma diarreia fosse. Tinha, para isso, feito caca. Teve, então, que se reposicionar no mercado para, como um verdadeiro homem trabalhador, sustentar sua família. Olhando a sessão de classificados, ele viu que necessitavam de um jornalista. Por exatos dez segundos considerou enviar o seu currículo mas, lembrando que não tinha grande apreço pela profissão, exceto aqueles profissionais relacionados a chamada imprensa marrom, recuou.


Estava confuso. Passou algumas semanas sem fazer, diga-se, merda alguma até que, de repente, assistindo um popular jornal foi informado pelo âncora sobre uma pesquisa que falava quais profissões eram as mais desprestigiadas pelos residentes de sua nação. A pior, segundo a reportagem, era a de ser político. Entretanto, o que aguçou sua mente para tal carreira foi a fala de uma transeunte que, questionada sobre a atividade em questão, disse, não sem antes ser censurada pelo famoso pi televisivo, “serem todos uns m*****!”. 


Descontente em cagar apenas em sua vida, ele decidiu assim agir em nome dos demais. Em termos corporativos, sua carreira política foi o que chamam de case de sucesso. Pulou de cargo em cargo até alcançar o ápice da representação popular. Auxiliou, assim, para a ágora moderna ser o sinônimo de esgoto e, sobretudo, de seus respectivos coliformes fecais.


Certo dia, no entanto, surpreendeu todos quando, ao invés de expor de forma privada suas ideias relativas a tal massa alimentar expelida, o fez em um palanque. Até mesmo em seus iguais causou constrangimento. Porém, o burburinho foi maior entre as privadas do palácio presidencial. Estas lembraram que, talvez, a análise daqueles avaliadores em relação a sabedoria daquele adolescente tivesse algum respaldo na realidade. Elas, enfim, decidiram fazer algo.


Sabendo que, dia sim-dia não, o mandatário comparecia a essa localidade, tramaram um coup d’état contra ele. Posteriormente, uma das patentes rebeladas confidenciou que não aguentavam mais ver os objetos de seu ofício cotidianamente submetidos a tal humilhação.


No fatídico dia, a autoridade adentrou no local, arriou as calças e sentou na retrete. Enquanto liberava suas essências, falava ao telefone. De repente disse que, dali em diante, iria “acabar com o cocô” do país em questão. Foi a gota d’água para aquela latrina que já havia recebido os mais famosos cus da república decidir tomar providências. 


Imbuída de um verdadeiro sentimento patriótico, deu a maior descarga que, em sua longa vida, havia dado. O soberano, com o forte estremecimento, acabou capturado pela forte sucção. Inicialmente, tentou lutar para não ser levado mas, percebendo que estava indo para o lugar onde rejeitos como ele sempre almejaram estar, cessou o entrevero. 


Sua última palavra em vida foi a mesma de sua primeira. Nasceu expelido e, por fim, morreu sugado. Sorte mesmo foi a da Sociedade que, por ter esgoto tratado, não teve que pisar no merda a céu aberto e, para o terror das crianças, vê-lo passar pelos canos sob seus pés.​​