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Marcos Blau

Nascido em Sinop - MT. 24 anos, estuda Direito (UNIC), toca guitarra na Banda Distrito 835, está escrevendo seu primeiro livro e tem um blog: https://sapientiaaboveblog.wordpress.com/

RECONQUISTA

Andava José desatentamente no centro da cidade em que morava quando, de repente, o reluzir de uma arma recém polida chamou sua atenção no balcão da loja. Mas não era qualquer arma, falou o vendedor após José ingressar no recinto, era aquela que simbolizava da forma mais natural o anseio de liberdade que José sentia já não possuir. José, como todo brasileiro, queria ser livre e, se para isso precisava comprar uma arma, assim o faria, pois nada teria a perder a não ser os grilhões de sua pouco conhecida escravidão. 


Feliz pela aquisição, José saiu com um sorriso amarelo da loja. Não resistiu, sacou ela, carregou, respirou fundo e atirou para o alto. Estava muito contente, precisava extravasar. 50 metros adiante, um transeunte parou sua caminhada e olhou fixamente para José. Inicialmente muito sério, o homem estranhou. Porém, logo em seguida, abriu um sorriso sacou a arma que possuía na cintura e disse: somos livres! Imitando seu igual, disparou em direção às nuvens.


José pegou seu celular e solicitou um Uber. Vendo ele chegar e com medo de perder a viagem deu um novo tiro para o alto, de modo a chamar a atenção do motorista o mais rápido possível. Atento, o motorista parou para que José entrasse. No caminho, o trabalhador informou que também havia comprado uma arma pois, além de agora também ter alcançado a liberdade, “nunca se sabe, né?” 


Ao fim do trajeto, José disse que pagaria a corrida com cartão de crédito. Tentou pela primeira vez e o visor da máquina respondeu: senha inválida. Tentou a segunda vez e a resposta se repetiu. Já na terceira, o motorista sorriu e retirou sua 9mm do coldre, engatilhou-a e, olhando para José, disse: “nunca se sabe, né?” Após eternos dez segundos, a máquina de cartão respondeu confirmando o pagamento. Ambos sorriram e, espontaneamente, abriram as janelas do carro e deram, cada um, um tiro para o alto em celebração. Antes de sair do carro, José positivou o motorista em 5 estrelas e escreveu: ótimo senso de humor politicamente incorreto!


Chegando em casa, sua esposa recebeu-o com um largo sorriso no rosto. Muito feliz, José mostrou a recém aquisição. Para sua surpresa, além dela não o repreender, ela disse que também havia adquirido uma, esta sendo, porém, cor de rosa. Felizes que estavam, ambos se abraçaram, deram um rápido beijo e congratularam-se pela aquisição da liberdade dando um tiro para o alto cada.


Quando adentrou na cozinha, José viu uma cena que deixou-o pasmo, desnorteado: sua filha de 14 anos estava prestes a utilizar um dos aparelhos mais inseguros da história de toda a humanidade, conforme relatou um famoso homem público de seu tempo: um liquidificador. Pró ativo que era, José não deixou que sua herdeira ligasse o aparelho para fazer a vitamina de morango que pretendia. Não! Correu, empurrou sua filha com força e disparou 13 tiros seguidos contra o aparelho.


Com o apetrecho doméstico em pedaços, sua filha aos prantos e a esposa esboçando um sorriso catatônico no rosto, José discursou: acabei de lhe salvar das garras desse aparelho maligno, mocinha. Você precisa ter mais cuidado. A partir de semana que vem irá começar aulas de tiro para que possa se proteger de situações como essa, pois nem sempre estarei aqui para salvá-la. Vá para seu quarto. Por tal imprudência está de castigo.


Enquanto escutava o choro da primogênita o caos se completou: sua esposa gritou pedindo auxílio porque, ela percebeu, o seu trabalho de parto havia iniciado. José, cuja técnica de assistência médica de emergência baseava-se em filmes de qualidade duvidosa, tentou fazer o que podia falando: Inspira/Expira.


Tal ajuda, vangloriou-se, foi de suma importância para o nascimento do agora verdadeiro herdeiro. O filho nasceu forte e, mesmo José dando palmadas nada moderadas nas nádegas do recém-nascido, não chorou.


O auxílio no parto foi completado quando, para romper enfim a ligação física entre mãe e filho, José sacou sua pistola e deu um tiro no cordão umbilical. Era o batismo de sangue e pólvora que ali se consagrava. A mãe, deitada ao chão, após dar uma sucessão de disparos para comemorar o feito, chamou o esposo para tirar uma foto que posteriormente se tornou simbólica: pai e mãe com sorrisos largos empunhando cada um sua arma e, curiosamente como se percebeu mais tarde, o infante fazendo gesto análogo ao santo objeto com as mãos.


De forma apoteótica, ao ver a cena perante a tela do celular, José profetizou: nasceu livre dos grilhões e viverá livre dos grilhões.


Após compartilhar nos diferentes grupos de família, trabalho, futebol e igreja a respectiva foto, foi à geladeira, pegou uma cerveja, sentou em sua poltrona, ligou a TV no Jornal Nacional que acabara de começar e, em uma comemoração final ao excelente dia que teve, deu o derradeiro tiro do pente de sua arma apontando para o teto.


A bala, que era para ter parado seu movimento como se de confete fosse, ricocheteou três vezes antes de atingir o exato ponto mediano da testa de José. Antes que os demais percebessem, ali ele pereceu.


Entretanto, para que se faça jus às conquistas do homem que naquele momento singular nos deixou, é importante que se ressalte: morreu, sim, mas o fez como homem livre e sem grilhões.