Marcella Gaioto 
É de Rondonópolis, tem 22 anos, é escrevente de poesia, e se aventura na prosa, por vezes. Tem um livro de poesias a espera de publicação e uma série de prosa poética em processo para ser publicada numa Antologia. Atualmente cursa Letras /Literatura na UFMT de Cuiabá.

I.
não escrevo mais
digo isso porque lembro que um dia eu quis escrever muitas coisas
e escrevi
ficou tão simples quanto os parques que jorram água no meio do lago
parques sempre têm dessas coisas
mas eu não escrevo mais
porque hoje em dia eu quero dizer tantas coisas
que não escrevo mais,
elas estão ali.
e não é tão simples como um parque com fontes.
é mais complicado que tudo.
refaz o inseguro com palavras
quase mortas.
mortas porque não são ditas,
apenas acham o seu destino final nas
folhas de caviúna [ou papel sulfite].
não escrevo,
porque tenho fome
só não sei mais do quê
já teve fome e não sabia do quê?
de comida é claro há a fome voraz e inquieta
como os pássaros no chão imaginando voo
mas a fome do fogo
como se houvesse as tripas do cachorro na sua frente
e você,
sem parâmetros para o pudor,
quisesse comer as tripas do cachorro.
crua e seus lipídios
o acre insalubre.
as orelhas muito geladas
e você comeria as tripas do cachorro,
o cachorro,
o chão em que tudo estivesse debruçado
e fosse incansável
obviamente tudo muito inalcançável
até que te restasse apenas a fome
só a fome lhe era o toque possível
de toda a liberdade imóvel,
de toda a beleza inviável,
que não se segura nem com dentes de palavras,
nem com a mesa toda farta.

II.
o cavalo o hipopótamo o cachorro magro a lebre gorda três patos formigas terreno infestado besourinhos no cancro modelos de antenas com escapulários de folhas terrenos baldios os caramujos africanos entendendo o sol os pedaços de unhas roídas numa noite enrugada pedaços de chapéu abandonado placas sem diagramação versos sem intenção canônica a pobreza do lugar o gato parindo os pássaros dormindo o sonho se diluindo na praia a lua fosca pisoteada saturada de olhos o cheiro constante de orvalho o vento carbônico a lata nova a lata velha o som do carro
o vento no som
o medo incompleto a atitude sem coragem o voo sem o pulo  o impulso livre de qualquer garantia a maçã no escuro tudo no escuro os olhos que veem nítido a vertigem de existir vida que aponta sem cabimento o sonho do poeta o sonho da menina as escalas do sol a matemática dos homens de maestria o amor inconfundível que contém em todas as escolhas um simples grito que jorra o olho como se fosse uma pedra de granito que farofeia no ar e te faz coçar os olhos te faz coçar tanto os olhos que teu corpo agora vira o corpo tentando passar por outro corpo, o corpo de todas as frestas.
Um corpo que dança todas as festas.
 
III.
Seu riso é um guiso
Você, quando ri, é toda serpente
Não se sabe se só passa
Ou me engole quente.

© 2019 - Revista Literária Pixé.

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