Luz Ribeiro 
É poeta, slammer e produtora cultural. Autora dos livros (in)dependentes Eterno contínuo (2013) e Espanca-estanca (2017), é ganhadora dos campeonatos nacionais de poesia FLUPP BNDES (2015) e SLAM BR (2016) e vice-campeã na COUPÉ DU MONDE DE POÉSIE (FRA-2017). Também é dos coletivos Slam das Minas e Legítima Defesa. Luz Ribeiro, que prefere pousar em redes de balanços e afetos, tem alguns seguidores, mas sonha em ter sempre com quem seguir. Paulistana, nasceu antes de aquário pra presa não ficar. Luz é: mar-mãe de ben e filha-mar de odoya.

JE NE PARLE PAS BIEN

excuse moi, pardon
me ...
 
je ne parle pas bien français
je ne parle pas bien anglais non plus
je ne parle pas bien
je ne parle pas bien
je ne parle pas bien
je ne parle pas bien
... 
eu  tenho  uma língua solta
que não  me deixa esquecer
que cada palavra minha
é resquício da colonização
 
cada verbo que aprendi conjugar
foi  ensinado  com a missão
de me afastar de quem  veio  antes
 
nossas escolas não  nos ensinam
a dar voos, subentendem que nós retintos
ainda temos grilhões nos pés
 
esse meu português truncado
faz soar em meus ouvidos
o lançar dos chicotes
em costas de couros pretos
 nos terreiros de umbanda
evocam liberdade e entidade
com esse idioma que tentou  nos prender
 
cada sílaba separada
me faz relembrar
de como  fomos e somos segregados
 
nos encostaram nas margens
devido  a uma falsa abolição 
que nos transformou em bordas
 
me...
je ne parle pas bien
je ne parle pas bien
 
tiraram de nós o  acesso
a ascensão
 
e eis que na beira da beira, ressurgimos
reinvenção
 
nossa revolução  surge e urge
das nossas bocas
das falas aprendidas
que são ensinadas
e muitas não  compreendidas
salve, a cada gíria 
 
je ne parle pas bien
temos funk e blues
de baltimore a heliópolis
com todo  respeito edith piaf
não  é  você quem toca no  meu set list
eu tenho dançado ao som de “coller la petite”
 
je ne parle pas bien
o  que era pra ser arma de colonizador
está  virando  revide  de ex-colonizado
estamos aprendendo  as suas línguas
e descolonizando  os pensamento
estamos reescrevendo  o  futuro da história
 
não  me peçam pra falar bem
parce que je ne parle pas bien
je ne parle pas bien
je ne parle pas bien, rien
eu  não  falo  bem de nada
que vocês me ensinaram
 

MENIMELIMETROS

os menino passam liso pelos becos e vielas 
os menino passam liso pelos becos e vielas 
os menino passam liso pelos becos e vielas 

você que fala becos e vielas 
sabe quantos centímetros cabem em um menino? 
sabe de quantos metros ele despenca 
quando uma bala perdida o encontra? 
sabe quantos nãos ele já perdeu a conta? 

quando “ceis” citam quebrada nos seus tcc’s e teses
“ceis” citam as cores das paredes natural tijolo baiano? 
“ceis” citam os seis filhos que dormem juntos? 
“ceis” citam que geladinho é bom só por que custa R$ 1,00? 
“ceis” citam que quando vocês chegam pra fazer suas pesquisas 
seus vidros não se abaixam? 

num citam, num escutam só falam, falácia! 
é que “ceis” gostam mesmo do gourmet da quebradinha 
um sarau, um sambinha, uma coxinha 
mas entrar na casa dos menino que sofreram  abuso de dia 
não cabe nas suas linhas 

suas laudas não comportam 
os batuques dos peitos laje vista pro córrego 
seu corretor corrige a estrutura de madeirite 

quando eu me estreito no beco feito pros meninos “p” de (in)próprio
eu me perco e peco
por não saber nada
por não ser geógrafa
invejo tanto esses menino mapa

percebe, esses menino desfilam moda
havaiana número 35/40 e todos
que é tamanho exato pro seu pé número 38

esses menino tudo sem educação
que dão bom dia, abrem até portão
tão tudo fora das grades escolares
nunca tiveram reforço ---- de ninguém
mas reforçam a força e a tática
do tráfico mais um refém

esses  menino num sabem nem escrever
mas marcam os beco tudo com caquinhos de tijolo:
pcc! prucê vê, vê ... vê? num vê!
que esses meninos sem nem carinho
não tem carrinho no barbante
pensa que bonito se fosse peixinho fora d’água
a desbicar no céu
mas é réu na favela
lhe fizeram pensar voos altos
voa, voa, voa ... aviãozinho

e os menino corre, corre, corre
faz seus corres, corres, corres...

podia ser até adaga, flecha e lança
mas é lançado fora
vive sempre pelas margens

na quebrada do menino
num tem nem ônibus pro centro da capital
isso me parece um sinal
é tipo uma demarcação
de até onde ele pode chegar

e os menino malandrão faz toda a lição
acorda cedo e dorme tarde
é chamado de função
queria casa mas é fundação

tem prestigio, não tem respeito
é sempre o suspeito de qualquer situação

“ceis” já pararam pra ouvir alguma vez os sonhos dos menino?
é tudo coisa de centímetros:
um pirulito, um picolé
um pai, uma mãe
um chinelo que lhe caiba nos pés

um aviso: quanto mais retinto o menino
mais fácil de ser extinto
seus centímetros não suportam 9 milímetros
porque esses meninos
esses meninos sentem metros

© 2019 - Revista Literária Pixé.

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