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Luiz Renato de Souza Pinto

Em 1998 lancei meu primeiro romance, “Matrinchã do Teles Pires”, agora em segunda edição. Nele trato da colonização do norte de Mato Grosso por colonos do sul do país, ao longo da ditadura militar. Em 2014 publiquei um segundo volume sob o mesmo tema, intitulado “Flor do Ingá”, desdobrando a aventura e apresentando o cotidiano de um casal que se conhece em Londrina, Paraná e vem para cá também. “Xibio”, de 2018 completa a trilogia amazônica, destacando a vinda de nordestinos para garimpos de diamante em Mato Grosso e Goiás. Publiquei “Duplo Sentido” (crônicas), em 2016, em parceria com o poeta pernambucano Carlos Barros e no ano seguinte fui contemplado com o Prêmio Mato Grosso de Literatura na categoria poesia, com o livro “Gênero, Número, Graal”.

À MEIA LUZ

À MEIA LUZ

O projeto Arte da Palavra, do Serviço Social do Comércio (SESC) tem apresentado ao público cuiabano alguns dos artistas da palavra mais atuantes do momento. Desde o primeiro ano do projeto, 2017, já recebemos a visita de muitos, dentre os quais Cézar Tridapalli, Carol Bensimon, Cida Pedrosa, Adri Aleixo, Joca Terron, Marcelo Maluf, Maurício de Almeida, Jacques Fux, Cidinha da Silva, Daniel Galera, Melanie Peters, Ivana Arruda Leite, Fabrício Marques, Luís Geisler e Tércia Montenegro, dentre muitos, mas muitos outros.


A cearense Tércia Montenegro esteve com a gente no Instituto Federal de Mato Grosso e também na UFMT, em fala com alunos de graduação, mestrado e doutorado do PPGEL, contactados pela professora (e escritora) Divanize Carbonieri. Na oportunidade falamos bastante sobre seu livro “Turismo para cegos”, publicado pela Companhia das Letras e que foi fruto de muita observação e empirismo por parte da pesquisadora. Tércia é professora da Universidade Federal do Ceará (UFC), onde patrocina balbúrdias linguísticas para dar conta de suas atividades acadêmicas.


Quero falar de seu novo livro, “em plena luz”, também pela editora paulistana da qual integra o plantel. Penso que nessa obra a cearense toca em questões profícuas da contemporaneidade, quer seja o falso binarismo amor/sofrimento, o cotidiano parisiense à margem dos atentados políticos e ou terroristas. Destaco também a luminosidade da capital cearense, tão próxima à linha do Equador, não fosse pela distância, semelhanças climáticas com a nossa Cuiabá. Há ainda espaço para algumas subjetividades. Começo pelo dualismo sugerido - AMAR OU SOFRER? - do qual destaco uma citação:

Parece que o sofrimento é uma espécie de animal preparando o salto. Ele ainda me ronda, está aqui e lá, como uma reverberação, e se deixar ele cresce, cresce até virar um tumulto, barulho de pratos, louça espatifando-se, motores ligados, sirenes, explosões. O sofrimento é essa trouxa sonora que desaba se me aquieto. É preciso se proteger (MONTENEGRO, 2019, p. 17).

Gostei dessa imagem da trouxa sonora. Fico a imaginar um pano grande dobrado, cheio de utensílios que produzem sons e ruídos em conformidade com a harmonia dos sentidos em orquestração linguística a que daria ritmo. E tudo isso em Paris, essa cidade luz, e que já FOI FESTA UM DIA: 

A repercussão dos atentados amanheceu forte. Em Liège, cidade de velhos, a polícia se postou em duplas nas esquinas. Mas em Bruxelas seria pior – desde que se cogitou que Salah Abdeslam ali se escondia, o Molenbeek virou território de espionagem, com o pânico se ampliando para outros bairros. Mas essas são notícias recentes, que me influenciam sobre o passado, fazem com que eu perceba detalhes que invento (idem, p.42).

Luz, cidade luz, faróis que iluminaram a liberdade, ainda que tardia, do novo mundo. Mas que agora requer luz própria, sob a égide de uma decolonialidade atroz. Talvez venha daí a força de um CEARÁ como luzerna: “Fortaleza tem uma luz incomparável, dura e branca, chapando as figuras, que reverberam entre as sete da manhã e as quatro da tarde” (idem, p. 46). E desse meio ardente, pictórico e panegírico percebo que o romance traçado nas entrelinhas destaca certa “iluminação [que] preenchia o espaço com esse dourado fosco, o mesmo de que é feito o meu vibrador” (idem, p. 60). Pareço ouvir com meus próprios olhos o discurso interior da personagem: NÃO SEI SE AMO, OU CAIO:

Caio não estava ali para me entrevistar sobre um relacionamento passado, e sim para ver o que eu fazia em matéria de arte – mas finjamos que ele é um amigo, não somente um jornalista, mas um jornalista-e-algo mais. Caio parece adivinhar minhas pretensões. Agora que entramos, senta-se na única poltrona que existe na sala, enquanto me acomodo na banqueta em frente à pia da cozinha (idem, p. 80).

O ser de luz que atenta contra a sombra de seu vulto. ATENTADO: “E se a memória existe, Caio não é somente um modo de fazer ficção, eu direi que ainda pareço viajar. As vitrines deste café onde estamos me levam de volta a um restaurante em Liège” (idem, p. 134). O ser e a ficção do próprio ser; ou não ser. “Aquela presença persistiria como uma silhueta sobre o chão. Mas por enquanto Caio continuou fazendo círculos. Eu via o seu sorriso em plena luz, às três da tarde” (idem, p. 153).


Depois da cegueira do turismo agora, às claras, com a revelação de um atentado à própria escrita no corpo insano que viaja no tempo. Tércia Montenegro, com sua diegese milimétrica, brinca de minimalismo com palavras sérias. Parece um quebra-cabeça com a própria língua. Mil e uma peças de artilharia e um público alvo imenso, para não desperdiçar munição alguma.


Mãos para o alto. Pegue o livro rapidamente. Assim, com as duas mãos. Não olhe para trás. Fixe o olhar ao que as palavras dizem. Atentamente. Vire as páginas bem devagar, acomodando os advérbios em seu tempo presente. Saboreie cada enunciado. Isso. Devagar. Sua vida deve estar por um fio. Assim. Isso mesmo. Um fuso e sua roca. Cuidado com os dedos. Penélope não costuma dar ponto sem que haja nós. 

REFERÊNCIA
MONTENEGRO, Tércia. em plena luz. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.