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Luiz Renato de Souza Pinto

Em 1998 lancei meu primeiro romance, “Matrinchã do Teles Pires”, agora em segunda edição. Nele trato da colonização do norte de Mato Grosso por colonos do sul do país, ao longo da ditadura militar. Em 2014 publiquei um segundo volume sob o mesmo tema, intitulado “Flor do Ingá”, desdobrando a aventura e apresentando o cotidiano de um casal que se conhece em Londrina, Paraná e vem para cá também. “Xibio”, de 2018 completa a trilogia amazônica, destacando a vinda de nordestinos para garimpos de diamante em Mato Grosso e Goiás. Publiquei “Duplo Sentido” (crônicas), em 2016, em parceria com o poeta pernambucano Carlos Barros e no ano seguinte fui contemplado com o Prêmio Mato Grosso de Literatura na categoria poesia, com o livro “Gênero, Número, Graal”.

DE TODAS AS HORAS

Assistimos hoje ao novo fim do jornalismo investigativo. Mais um. A imprensa amordaçada é assunto em pauta novamente. Nunca esteve tão atual o romance de Balzac “As ilusões perdidas”, que traça um firme retrato do jornalista na França revolucionária dos tempos do enciclopedismo. Das cabeças rolantes pela guilhotina. De papel picado para comemorações de caráter popular.


As mortes de Paulo Henrique Amorim e Ricardo Boechat, os incidentes envolvendo profissionais da Rede Globo e um sem número de situações que transformam em estrelas figurinhas carimbadas da televisão têm acentuado esse ponto fora da curva de uma mídia encarcerada em procedimentos de exceção.


Ainda vejo dificuldade em lidar com alguns extremos. Li o clássico de Hobsbawn há algum tempo e já nem me lembro mais o gosto que tem. Sua escrita, quero dizer.  Era de contrários, de oposições, farta de binarismos tacanhos. Revolução e golpe, por exemplo, dicotomia clássica em tempos de diluição de fronteiras, barbárie contornando a busca do conhecimento. Messianismos de qualquer espécie, fanatismos a granel, fundamentalismos capitalistas.


Vencedor do Prêmio SESC de Literatura de 2017, na categoria romance, José Almeida Júnior recupera o contexto histórico da morte do “estadista” Getúlio Vargas. Não vejo exagero nessa classificação do baixinho poderoso, mas sim um reconhecimento em torno do historicismo que cerca a biografia do ex-governante. Não creio que haja um dos mais de cinco mil municípios brasileiros em que não exista uma rua, avenida, prédio público ou qualquer logradouro que não tenha por batismo seu nome.


A fim de construir um romance de proximidade em torno do presidente, “Última Hora” espelha-se na relação existente entre o periódico de Samuel Wainer e a sombria atuação política de Vargas, com destaque ao entorno de seus opositores, dentre eles Chateubriand e Roberto Marinho, que comandavam a mídia oposicionista ao Bonaparte republicano das bandas de cá. A presença de um personagem que, sendo antagonista de Wainer se apresenta como um jornalista militante que, faz às vezes e as vozes do contraste. Homem solitário, uma vez que “a verdade era que um revolucionário não podia se dar ao luxo de constituir família” (ALMEIDA, 2018, p. 19). 


O livro é costurado por informações curiosas que se mesclam à fabulação. Para nós, que de Cuiabá saltamos para pensar o Brasil que nos cerca, qualquer informação acerca de nossos vultos históricos passa a ser interessante. “Durante o governo Dutra, cerca de um bilhão de cruzeiros saiu do país através de brechas legais. Minha equipe está preparando um decreto limitando a remessa de juros, lucros e dividendos ao exterior. O que se ganha no Brasil aqui deve ser gasto (idem, p. 66)”. Essas palavras são extraídas da boca do presidente, segundo pesquisas do autor para a construção do objeto. O tempo passa e o filme parece estar sempre em cartaz. Ou retornando para nova temporada. 


Talvez se o presidente conseguisse cumprir suas promessas de campanha, impondo restrições à festa que o capital estrangeiro havia feito no governo Dutra, criando empresas públicas para explorar as riquezas nacionais e ampliando os direitos trabalhistas, eu me rendesse de vez a esse governo paliativo de Vargas (idem, p. 82).


Durante a Era Vargas abandonou-se a malha ferroviária, pactuou-se com a indústria do frete a construção das BRs, longitudinais, transversais e diagonais, para aderir ao modismo do império da borracha e do petróleo, dando prosseguimento ao descontrole ambiental que hoje assassina diariamente nas rodovias de todo o país inocentes que transitam em meio a caminhões carregados que aumentam o PIB nacional, mas espalham corpos pelas estradas de norte a sul e leste a oeste, em nome do capital. 


O pai dos pobres, segundo reza a lenda, mas talvez a mãe dos ricos, que atende pelo nome de Getúlio Vargas, abriu as portas para o que vivemos hoje, amordaçando a estrutura sindical, em nome de um trabalhismo que ora se vê afundado em contradições. Por trás daquele binarismo entre PSD e UDN escondeu-se o que virou ARENA e MDB, antecedentes da trágica estrutura partidária cancerosa que reina em todo o território nacional.


Meu pai foi um comunista que não seguiu a luta armada, optando pela família, já com dois filhos pequenos. Mas cresci sentindo a movimentação de reuniões em minha casa, ouvia nomes que depois soube mortos e desaparecidos, alguns deles talvez tenham me pego em seu colo, como quem reconhece o que da boca para fora todos diziam ser o futuro do país. Future-se você também!


A maioria dos camaradas com quem havia convivido abandonou seus ideais para criar seus filhos num ambiente de segurança e sem rupturas. Nunca desenvolvi esse instinto paterno e protetor. Preferia apostar na revolução promovida pelos trabalhadores, ainda que pusesse em risco a estabilidade da minha família (idem, p. 156).


Ler o livro de José Almeida Júnior me trouxe um pouco desse cabedal à mente. Cresci com esse folclore me chamando à razão e confesso-me bastante desacreditado de tudo o que ouvi. De nada tem a ver a bandeira nacional com o que ouvíamos na escola. O maior símbolo de respeito a uma nação deve ser a sua língua, deixando o hino e a bandeira para um segundo plano. Não acredito nos vultos que escolheram para nós. Na história perpetuada pelo IHGB, a mando de D. Pedro II, aquela criança mimada que chegou ao trono aos cinco anos de idade.


Tenho dificuldades de acreditar no que aconteceu naquele vinte e quatro de agosto de 1954, quando, segundo alguns historiadores de base marxista, deveria ter acontecido o golpe de 1964, dez anos antes, adiado por um descuido que promoveu um dos grandes fatos (mal explicados) da história recente deste país. “Havia chegado poucos minutos após o disparo e não vi nenhuma carta deixada pelo presidente, também não escutei nenhum comentário a respeito dela pelos presentes” (idem, p. 337).


Almeida volta ao cenário literário com o lançamento de seu já destacado “O homem que odiava Machado de Assis”. Este defensor público que se estende ao fazer literário é um escritor que acrescenta ao Brasil a voz de uma justiça que, se não sai do papel, ao menos traz para ele um recorte diferenciado do que se encontra no periodismo viciado de todo o território nacional.

REFERÊNCIA
ALMEIDA JR. José. Última Hora. Rio de Janeiro: Record, 2017.