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Luiz Renato de Souza Pinto 
Em 1998 lancei meu primeiro romance, “Matrinchã do Teles Pires”, agora em segunda edição. Nele trato da colonização do norte de Mato Grosso por colonos do sul do país, ao longo da ditadura militar. Em 2014 publiquei um segundo volume sob o mesmo tema, intitulado “Flor do Ingá”, desdobrando a aventura e apresentando o cotidiano de um casal que se conhece em Londrina, Paraná e vem para cá também. “Xibio”, de 2018 completa a trilogia amazônica, destacando a vinda de nordestinos para garimpos de diamante em Mato Grosso e Goiás. Publiquei “Duplo Sentido” (crônicas), em 2016, em parceria com o poeta pernambucano Carlos Barros e no ano seguinte fui contemplado com o Prêmio Mato Grosso de Literatura na categoria poesia, com o livro “Gênero, Número, Graal”.

MAS, E A MORTE? 

Lembro-me de Marília Beatriz como Coordenadora de Cultura da UFMT quando, em 1982, cursando Engenharia Florestal, me aproximava do underground cuiabano. Comecei a me inteirar da cultura que se avizinhava à universidade. O Teatro Universitário veio a ser um templo de produção e reprodução de eventos em nossa cidade. 


Em 1984, antes mesmo de ler George Orwell, conheci o Caximir e me integrei ao grupo após a noite mágica que incendiou o Bar Candeias, ali na Rua 1, em frente ao bosque. Não havia grades no entorno. Marília, Chico Amorim, Sérgio Dalate e um sem número de figurinhas ausentes desse álbum se encontram na memória daqueles bons tempos. 


Antes de a Janina comprar o acervo da Livraria Litudo, que ficava atrás das Lojas Marisa, da 13 de Junho, adquiri um exemplar que considero raro de um livro de Marília: O mágico e o olho que vê. Ainda tive tempo de pedir a ela que me autografasse essa raridade do ano de 1983, ano em que abandonei as aulas de Cálculo I, muito desinteressantes para meu olhar que só queria saber de poesia. Fiz um poema que foi meu ganha-pão em viagens pelo Brasil, e que faz parte de meu Cardápio Poético, de 1993.

 

AULAS DE CÁLCULO

Assistindo a aulas de cálculo, me perco em meus limites, ao ver os limites de uma função. Ora essa, não sei sequer a minha função, quanto mais os meus limites. Limito-me a dizer que não sei.
Derivando os meus sentimentos, eu vejo que a soma das derivadas não me leva a nada. Mesmo assim, lá vem o professor com a sua nomenclatura:
- Pôrra! De que me adianta saber da vizinhança de um ponto se sequer tenho um ponto em comum com meus vizinhos?
O gráfico da minha vida realmente não é uma reta, mas passa pela origem. Talvez seja uma parábola, meio torta, mas com valores possíveis para o X da questão, como também para o tão falado Y. 
Diga-me, meu amigo: - De que me adianta saber o que é seno, cosseno, e que a razão do primeiro pelo segundo è igual à tangente se o meu destino está tangenciado por um ângulo de noventa graus, o chamado reto?
- Diga-me, meu amigo: - De que me adianta saber o que é uma secante, se minha boca vive seca, louca por um copo de cerveja?
Acontece que a poesia despe a ortografia, rasgas o verbo, rompe a fala, torce o rabo e dobra a língua. (1993, p. 24-25).

 

Depois disso tentei a História, quando fui aluno de Maurília Valderez, musa de nossa filosofia. Durou menos que um semestre, abandonei para seguir com o Caximir pelos palcos alternativos de Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais e Paraná. Só fui concluir o curso de Letras em 2001, quando me reencontrei com os estudos e com a docência, que passou a ser o ganha-pão. 


O prefácio é do centenário João Antonio Neto que, em um dezesseis qualquer do ano de 1982 vaticinava: “Marília julga-as confessionais – mas, toda poesia é confessional - porque o poeta é, ele mesmo, matéria da sua poesia – sangue e plasma – através do qual o espírito da Arte escoa, decantado pela emoção criadora”. (NETO, 1983, p.7). Estrategicamente colocado na antessala de seus poemas, Rômulo Neto também deixa seu recado no livro: “sei que tu estarás sempre ao lado de cada um de nós” (1983, p. 15). Pois agora, juntos, olham para nós que aguardamos pela barca de Caronte.


MORTE

A cruz é a sentença,
o verbo é presença
onde a morte?
O surto é periférico
o voo é atmosférico
onde a morte?
Se a cruz é o surto
o verbo e o voo
continuam.
O sorriso é o estádio
e a lembrança da promessa
é a pressa.
(BEATRIZ, 1983, p.119).


 A semiologia, de longa data ocupava os interesses da poeta. É de se reparar os três primeiros versos como condutores dos demais. “A cruz é a sentença” – a ambiguidade da sentença joga uma máxima instância de poder (jurídica) e ao mesmo tempo a projeta no plano da enunciação (gramática), pois que nesta, pressupõe a existência de verbo, que garante um estado ou ação: “o verbo é presença”. Mas e a morte, onde se encontra?


Nos três versos seguintes o paralelismo sintático prossegue e os dois primeiros versos são introduzidos pelo artigo definido masculino singular (o) em assertivas que ultrapassam o espaço (periférico) em direção à outra órbita (atmosférico). E a morte? A essa altura o poema está pela metade. Os próximos seis versos têm sobre seus ombros a responsabilidade de concluir a mensagem. 


O verso iniciado pelo elemento condicional (Se) retoma a cruz (do primeiro verso) e o surto (verso quatro); verbo e voo ligam outros dois versos (dois e cinco), estabelecendo vínculos de movimento (questões espaço-temporais). É importante que se observe o verso de número oito: “o verbo e o voo” – As figuras sonoras da aliteração (/v/) e de assonância (/o/) garantem o indicativo de velocidade (vrummmmm) e de circularidade (vida/morte) ao enunciado que enfeixa. 


O desfecho é inusitado e de outra ordem de significação. “O sorriso é o estádio / e a lembrança da promessa / é a pressa /” reforçam o poder da metáfora através do emprego discreto do verbo de ligação (ser), mas cria uma ideia de polissíndeto ao trazer a conjunção aditiva e, no penúltimo verso, como elemento argumentativo que reforça os pressupostos da experiência como estratégia de argumentação crítica. “Acredita-se, correntemente, sem prova ou razão, que a existência de qualquer coisa deva ter uma causa, mas a causalidade é, de fato, uma ideia problemática” (JÚNIOR, s/d, p. 21).


Com a ideia de que o sorriso é o estádio, se pode pensar em entretenimento, amontoado de gente, aglomeração; acrescido da existência de uma promessa, o poema parece sugerir uma expectativa junto à mensagem, sobre a qual se deposita certa pressa. Onde a morte, utilizada por duas vezes?  E segue “continuam”; depois, “a pressa”. 


Para que se possa unir essas leituras de maneira convincente, talvez o caminho necessário seja outro; pois vamos a ele. Ao invés de procurarmos na forma do poema as significações, vamos desconstruir o proposto pelo eu-lírico e colocá-lo sob a égide da estrutura gramatical. Temos quatro períodos que, dispostos em sequência seriam assim: “A cruz é a sentença, o verbo é presença onde a morte? / O surto é periférico o voo é atmosférico onde a morte? / Se a cruz é o surto o verbo e o voo continuam. / O sorriso é o estádio e a lembrança da promessa é a pressa./”. 


A cruz, O surto, Se a cruz é o surto, O sorriso; as iniciais maiúsculas dão essa pista. A cruz é o primeiro elemento forte, depois, surto, a seguir, um sendo o outro (metaforicamente) e, por último, um sorriso, associado à determinada pressa. Mas, e a morte? Marília nos deixou, sim; deixou um legado e a lembrança povoada de poesia, você não vê?

REFERÊNCIAS

BEATRIZ, Marília. O mágico e o Olho que vê. Cuiabá: Imprensa Universitária, 1983. 
JÚNIOR, Eduardo Neiva. Táticas do signo. Semiótica & Ideologia. Rio de Janeiro: Achiamé / Socii, S/d.

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