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Luiz Renato de Souza Pinto 
Em 1998 lancei meu primeiro romance, “Matrinchã do Teles Pires”, agora em segunda edição. Nele trato da colonização do norte de Mato Grosso por colonos do sul do país, ao longo da ditadura militar. Em 2014 publiquei um segundo volume sob o mesmo tema, intitulado “Flor do Ingá”, desdobrando a aventura e apresentando o cotidiano de um casal que se conhece em Londrina, Paraná e vem para cá também. “Xibio”, de 2018 completa a trilogia amazônica, destacando a vinda de nordestinos para garimpos de diamante em Mato Grosso e Goiás. Publiquei “Duplo Sentido” (crônicas), em 2016, em parceria com o poeta pernambucano Carlos Barros e no ano seguinte fui contemplado com o Prêmio Mato Grosso de Literatura na categoria poesia, com o livro “Gênero, Número, Graal”.

ÁRVORE DA VIDA

Março de 2020 – a realidade se transforma brutalmente em nossas vidas, digo nossas, mas me refiro às de quem mora no Mato Grosso, pois foi nesse mês que as coisas começaram a ficar estranhas por aqui; em São Paulo, em fevereiro, na Europa e Estados Unidos, em janeiro; na China em dezembro. Março de 2019 – recebo em Cuiabá a escritora Gisele Mirabai para o lançamento de “Machamba” e uma palestra sobre Escrita Criativa, na Casa Cuiabana. Gisele palestrou também para meus alunos do ensino médio no IFMT e até hoje os ecos de sua passagem repercutem por cá, quero dizer, por aqui.


Gisele está de livro novo: “Ana de Corona”. A primeira citação que destaco é a que vai ao encontro do que penso e digo, reiteradamente: “Então, nem tudo nasce do amor. De fato, a forma como o homem construiu a sociedade parece ter surgido de uma espécie de desamor”. (MIRABAI, 2020, p. 16). O contrário do amor não é o ódio, como muitos pensam, mas o desamor. Vivemos um tempo de muitos contágios, dos quais o corona vírus é apenas mais um. Mas como assim, apenas? O inimigo invisível espreita a todos, nunca se sabe de onde poderá vir.


Nessa mesma hora, o vizinho de cima que sempre teve hábitos estranhos e escatológicos, vai até a janela e espirra feito um dragão. Milhões de gotículas se espalham no ar e caem dois metros à frente, no jardim do prédio. Algumas partículas mais leves, no formato de aerossóis, flutuam na fina flor do ar que Ana inspira e vão parar dentro do seu apartamento. Mais precisamente em seu sistema respiratório. Nesse exato momento, Ana se contamina... (MIRABAI, 2020, P. 18).

Gisele tem sérias preocupações ecológicas e seu ambientalismo encontra espaço para se alargar na literatura. Guerreira de Gaia, em “Machamba” leva a passear pelo mundo, como quem anda de bicicleta, esse espírito inquieto que observa o meio, para compreender os fins.  Gisele tem dois filhos pequenos e talvez por isso se preocupe com o que deixará para eles como legado. Sabe que


Bebês humanos inspiram e expiram bem com seus diafragmas, mas quando crescem e acumulam problemas, passam a respirar pior, até se tornarem adultos ofegantes, que comem salgadinho correndo com uma pasta na mão, enquanto falam ao telefone em uma grande avenida. (MIRABAI, 2020, p. 22).

A vida na cidade grande tem sido difícil; tenho a impressão de que só bate panela quem mora em apartamento, os que vivem em prédios, apartados mais de perto do que acontece nas ruas. Nesse conglomerado inter-étnico da qual São Paulo é refém, não é difícil imaginar que


O chinês do mercado contaminou seus pares, que contaminaram seus pares, que contaminaram seus pares. Ana, sem saber, segue em direção a mais pessoas, Fred irá em direção a outras e assim por diante, espalhando material virótico que, junto com nitrogênio, oxigênio e uma carga venenosa de dióxido de carbono, será disseminado pelos ares. (MIRABAI, 2020, p. 24).

De A (Ana) a Z (Zé qualquer), preocupa-me a despreocupação da maioria com o contágio crescente da virose. Desde que o fio narrativo da humanidade começou a tecer relações que se impregna no outro a continuação do ser.


Ana lê para Eva um livro sobre A Velha a Fiar, baseado na canção popular em que uma velha está fiando na roca, vem a mosca lhe fazer mal, depois a aranha na mosca, o rato na aranha... até a morte. Ana não conta essa história por acaso, aproveita as ideias para O Fio do Novelo de Lã de sua pesquisa ambiental. Mas Fred não se importa, ele não tem mais paciência para ouvir as ideias de Ana e tudo que quer agora é dar logo um beijo nas duas e jogar seu videogame. No mundo paralelo dos jogos digitais, ele manifesta da melhor forma a sua anestesia ao fenômeno da realidade. (MIRABAI, 2020, p. 40).

O tal mundo paralelo, bem observa Gisele, não é aquele do “joga fora”, pois o fora também está dentro. Ana ama o marido, mas tem um amante. O amor parece não dar conta das necessidades básicas do corpo que carece de atenção. “Ana ainda não percebe que paixões são reações químicas que atuam no corpo da mesma forma que o estresse, e, portanto, não são feitas para durar”. (MIRABAI, 2020, p. 52). Ana se relaciona com Pepe, um argentino. Ana tem mãe idosa, sogro e sogra. Sua filha deve evitar o contato com eles por conta da pandemia. 


Ana se preocupa com isso. Fred tem seu videogame. Fred quase não conversa. Fred é pai de Eva e, mesmo assim, às vezes se esquece de beijar a filha. Ele é um guerreiro do game. Ela, Ana, se relaciona com poucas conhecidas que também têm avós bacanas, considera legais, “que se sentam para brincar com os filhos / netos e fazer bagunça. Grande parte das avós estão ocupadas demais sendo as mulheres que elas não conseguiram ser a vida inteira, por conta do pai, maridos, filhos. (MIRABAI, 2020, p. 58).


A geração seguinte à de sua filha talvez já nasça com “wifi nos olhos, abrirão a mão e um tele de jogos surgirá na palma”. (MIRABAI, 2020, p. 101). O mundo sofre mutações cada vez mais rápidas. Ana está doente e “seu corpo luta pela cura, enquanto ela aproveita a youtuber como babá”. (MIRABAI, 2020, p. 101).


Ana e Pepe estão em crise; Fred se ausenta, mesmo estando em casa. Sente falta de suas ondas, do mar. Ana sabe que “o coração da gente é terra livre e o amor é um circuito energético que flui, feito água em um leito de rio”. (MIRABAI, 2020, p. 108). Pepe anda sumido, envia quando muito mensagens monossilábicas; tem mãe idosa na Argentina. Viaja para vê-los. Brasil e Argentina agem de modo diferente no combata à pandemia. 


No Brasil, um auxílio emergencial a ser pago mensalmente é autorizado para profissionais autônomos, microempresários e população de baixa renda. A quantia demora a chegar na mão das pessoas por um motivo simples. Para ele, o mercado, nem sequer em seus piores sonhos, poderia imaginar colocar dinheiro vivo nas mãos de quem precisa, sem ganhar nada em troca. (MIRABAI, 2020, p. 124).

Pouco sabemos sobre o novo corona vírus. Fake news se incumbem de transformar informações em vulgarismo. “Ana ainda acha que foi Pepe que trouxe o vírus da Argentina”. (MIRABAI, 2020, p. 135). Ana tem a vida revirada e desse caleidoscópio retira imagens fragmentadas da realidade estilhaçada da rua para fora de casa. “: para onde vai a paixão quando termina? O vírus se espalha pelo prédio de Ana e ninguém sabe a origem”. (MIRABAI, 2020, p. 136). 


Conectadas, as pessoas perdem contato com o que está mais próximo e aproximam o que está distante. Ana, ou seria o narrador da obra (?) “Percebe que as redes sociais exploram o trabalho do sonho das pessoas, para que trabalhem para elas, usando cada vez mais suas plataformas”. (MIRABAI, 2020, p. 142). O tempo parece outro, “talvez, a palavra mais expressiva da pandemia seja essa mesma, desac e l e r a ç ã o...”. (MIRABAI, 2020, p. 144).


Colo algumas reflexões sobrepondo-as para o leitor pressentir alguma coisa: “, relações são náufragos à procura de boias”. (MIRABAI, 2020, p. 151). “, é ela, Eva, o fio do seu Novelo de Lã, a filha que viverá em um mundo pós-pandemia que ainda ninguém conhece. (MIRABAI, 2020, p. 163). “, em meio a pedações de bolo e panelas de tambores, com as pernas para cima do sofá”. (MIRABAI, 2020, p. 182).


Pedaços de bolo é a ração depois que os supermercados fecham; panelas de tambores são as batidas de panela dos apartamentos, em grande maioria de bairros classe média, média alta, e alguns condomínios populares; as pernas para cima somos nós, “adjojados” em casa, no home office, despreparados para tanta virtualidade; o sofá é o Brasil, sobre o qual colocamos as pernas para cima, para nos igualar a ele. A cabeça está virada. O mau cheiro da política “entrou pelas narinas de ateus e religiosos, pelos grande narizes de homens poderosos, onde encontrou egos inflados e amedrontados”. (MIRABAI, 2020, p. 187).
Ana e Fred se reencontram, após a crise; a morte de seu pai, a recuperação da mãe. Pepe sumiu, depois de escanteado ao publicar um emoji que imitava um broto vegetal no último post de Ana, em seu blogue. Ana e Fred reatam, encontram o fio da meada. “Ana diz que sim, claro, Fred então fecha os olhos, puxa os lençóis e dá uns espirros antes de dormir. Ana espera que seja apenas um resfriado”. (MIRABAI, 2020, p. 189). Espantados os fantasmas, Ana recuperada, “Fred morde a maçã enquanto observa absorto o grande caule da árvore”. (MIRABAI, 2020, p. 194).


Sei pelas redes sociais dos passeios de Gisele pela floresta amazônica. Talvez de lá tenha saltado esta última citação, de “Um epílogo possível”, como a anterior: “O guia diz que agora continuarão a andar até ver a Samaúma, uma árvore milenar, a maior da Amazônia, que pode chegar a 90 metros de altura”. (MIRABAI, 2020, p. 195). Essa árvore da vida tem para todos os povos indígenas da Amazônia uma importância sublime. “A samaumeira tem a função / De mãe das grandes árvores / De cura e proteção / E pelo indígena é cultuada / Essa gigante, mãe amada / Na dança nativa / dos povos irmãos /”. (KAMBEBA, 2018, p. 32).

 

REFERÊNCIAS
KAMBEBA, Márcia. Ay Kakyri Tama (Eu moro na cidade). São Paulo: Pólen, 2018. 
MIRABAI, Gisele. Ana de Corona. São Paulo: Ciao Ciao, Editorial, 2020. 

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