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Ludmila Brandão  
Graduada em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal Fluminense e em História pela Universidade Federal de Mato Grosso, mestrado em Educação pela UFMT e doutorado em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. Pós-doutorado na Université d’Ottawa (Canada), na área de Crítica da Cultura. Atua no campo da Análise e da Crítica Cultural, da Crítica de Arte, no debate sobre a “contemporaneidade”, a colonialidade do saber e da arte, abordando especialmente os tópicos: arte, cidade, subjetividades, subalternidade e resistência, além das práticas de cópia e similares como práticas contemporâneas.

ON THE ROAD COM JONAS BARROS

Entre os que conhecem a obra do artista mato-grossense Jonas Barros, que se espalha generosamente nesta edição, provavelmente muito poucos sabem que além da atividade artística, duas outras preenchem seu tempo, suas preocupações e seus prazeres: a gestão rural (quando ele se intitula “peão”) e o ciclismo. 


Jonas vive em uma fazenda-ateliê em Nobres onde se divide entre a dura lida no campo e o trabalho artístico intenso, sempre envolvido com muitos projetos a explorar e executar. Entre um trabalho e outro, pega sua bicicleta e se põe na estrada. Desde que soube de sua atividade como ciclista, vejo em Jonas, o esguio personagem ciclista da animação de Sylvain Chomet, Les triplettes de Belleville, que é, sobretudo, uma crítica à sociedade de consumo e ao modo de vida das grandes metrópoles. Nos mais recentes trabalhos de Jonas, encontramos a mesma crítica, necessária e urgente.


Mas antes de tratar das obras desta edição, algo mais precisa ser dito sobre o artista. Sua produção sempre foi marcada por aquilo que o cerca. As paisagens, especialmente. Conhecemos a beleza dos riachos que pinta, a luz que refrata sob as águas claras revelando folhas, musgos e pedras polidas. Os peixes variados parecem pular de suas telas como em salto de piracema. Nessas obras conhecemos a raríssima habilidade do artista nas composições figurativas. Há algum tempo comentei com alguém, diante de uma obra sua, o quanto essa expertise poderia se transformar em cárcere para Jonas, tornando-o refém de sua própria performance. 


Felizmente, o inquieto artista não se satisfaz com repetir-se. Há sempre outros desafios a enfrentar.


Se nesses anos se dedicou a pintar o que via − lembrando que o cérebro do artista visual vê o que não vemos, o que para nós passa batido −, nos últimos, se dedicou principalmente a ver ainda mais, a especializar o olho, para salvar os frames efêmeros com sua máquina fotográfica. Um Jonas fotógrafo nasce e se consolida montado em sua bicicleta (às vezes em seu cavalo) que se põe na estrada realizando a conjunção única, rara e sensível entre o peão, o ciclista e o artista. 


Teria muita coisa a dizer sobre as obras fotográficas que compõem esta revista. No entanto, desde o primeiro momento em que vi essas imagens (em uma ótima conversa que tivemos em minha casa), uma conexão às avessas se estabeleceu para mim com a obra On the road de Jack Kerouac, o sagrado “rei dos beatniks” Sabemos que On the road é uma narrativa de “viagem sem destino” em que os protagonistas cruzam os Estados Unidos no emblemático 1949 Hudson Commodore (que hoje se encontra no pequeno Beat Museum em São Francisco). Ora, sabemos que a indústria automobilística nos Estados Unidos, mais do que em qualquer outro país, conseguiu a proeza de tornar o automóvel o objeto de desejo norte-americano e, mais do que isso, um símbolo daquilo que tomam por liberdade. O horizonte desde uma estrada e do interior de um automóvel é a paisagem desejada. 


E o que têm as fotografias de Jonas a ver com isso? É uma narrativa visual da contra-estrada, do preço pago, do que é deixado para trás, do que não é dito, do estrago, da destruição. O artista-ciclista escreve sua obra que não é uma ode à vida livre nas rodas de algum Commodore. É claro que, vez por outra, ele também captura as belezas às margens do asfalto, em fotos magníficas, em recortes de paisagem absolutamente únicos e inusitados.