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Ludmila Brandão  
Graduada em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal Fluminense e em História pela Universidade Federal de Mato Grosso, mestrado em Educação pela UFMT e doutorado em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. Pós-doutorado na Université d’Ottawa (Canada), na área de Crítica da Cultura. Atua no campo da Análise e da Crítica Cultural, da Crítica de Arte, no debate sobre a “contemporaneidade”, a colonialidade do saber e da arte, abordando especialmente os tópicos: arte, cidade, subjetividades, subalternidade e resistência, além das práticas de cópia e similares como práticas contemporâneas.

GERVANE DE PAULA E SUA ENCANTAÇÃO PELO RISO
Ride, ridentes!
Derride, derridentes!
Risonhai aos risos, rimente risandai!
Derride sorrimente!
Risos sobrerrisos – risadas de sorrideiros risores!
Hílare esrir, risos de sobrerridores riseiros!
Sorrisonhos, risonhos,
Sorride, ridiculai, risando, risantes,
Hilariando, riando,
Ride, ridentes!
Derride, derridentes!
 (Khlébnikov )

 

Tenho um vivo encantamento, de longa data, pela obra de Gervane de Paula. Ela, principalmente, provocou um sutil desvio em minha trajetória acadêmica, fazendo-me passar das discussões sobre a cultura para o campo da arte contemporânea, ou da arte praticada em tempos atuais. O estopim foi uma exposição intitulada Acerto de Contas , no Sesc-Arsenal de Cuiabá, em 2003. 


Por essa época, andava irritada com o epigonismo crescente das artes visuais nestas bandas, cujo “imperativo da natureza ” havia reduzido a alguns elementos os motivos que animavam os artistas da região, com algumas exceções, é claro. Mangas, cajus, onças, tuiuiús, pequis e violas-de-cocho, para citar alguns. Além das obras ditas “regionais”, o esgotamento dos motivos (em suas formas já restritas) alastrou-se nos espaços públicos (os orelhões em formas animais!), nas mídias e nos discursos e práticas do turismo, que repercutiam grotescamente o pior desse processo.


Foi com esse espírito, de total desânimo, que cheguei à exposição de Gervane, cujas primeiras impressões registrei em artigo de jornal local, republicado em 2005 no Jornal da Associação Brasileira de Críticos de Arte sob o título “Droga (!) de Arte”. 


À entrada da exposição, Gervane colocou a obra composta por um moedor de carne bastante enferrujado, com muitos pequenos tuiuiús (daqueles de loja do aeroporto) amontoados em sua boca e, abaixo, na saída do moedor, uma caixa contendo um pó branco. Desatei a rir descontroladamente. O artista falou-me ao fígado, de tal modo que, pela primeira vez, senti que precisava escrever sobre arte. 


Credito, também, a essa experiência, além do desvio para a arte (que se definiu na vida acadêmica, a partir de 2010), o gosto pela escrita crítico-ensaística com textos curtos que não ambicionam nenhuma crítica, apenas diálogo: uma conversa entre palavra e imagem. 


Com esse espírito, assinei vários textos em catálogos de exposições suas, individuais e coletivas. Nesta edição da Pixé, reencontro parte de sua obra e aqui tenho a alegria de uma nova conversa.


Acerto de Contas marca, para mim, um divisor de águas (a ver se o artista concorda comigo): a iconografia que antes visava a dizer a região com ares de sobriedade identitária, é usada contra ela, mas não apenas. É com ela que o artista bota a boca no trombone (ou na tela) para esculhambar o pior da cultura, da política e da própria arte. 


Em texto de 2016, para a primeira edição de seu maravilhoso “Mundo Animal”, escrevi assim:
(...)
Ri da dor.
Ri da morte, ri da guerra, ri da arte. 
Ri do falo, ri do sexo, ri do gozo.
Ri do pau, ri do cu, ri da buceta.
Ri do homem, ri do bicho, ri da grana.
Ri da bala, ri da mala, ri da mula, ri da droga, ri do vício.
Ri do mato, ri do medo, ri da forca, ri da força.
Ri do riso, ri do roubo, ri da cor.
Ri do preto, ri do branco, ri do preto&branco.
Ri de mim, ri de si, ri de você. 
Ri. 
(...)


O riso, já foi dito por muitos, é político. Seu riso de cor, em pelo menos três sentidos (adivinhem quais!), ativa nossas células amortecidas por esse mundo de horrores, acende pavios de revolta. 


Mas é óbvio que para isso não basta querer fazer rir. Há trabalho cotidiano, aprendizado, refinamento do olhar e muita reflexão. Se hoje Gervane retoma imagens de seu próprio baú iconográfico, ele não o faz por repetição pura e simples, ou por esgotamento: há nessas retomadas um movimento espiral em que nada é mais o mesmo, apesar de continuar, em certa perspectiva, sendo. É isso o que vemos na obra de 2018, com Adão e Eva no pantanal e muitas maçãs (maçãs?!!!), que é também uma espécie de “Almoço na Relva” em que a terceira pessoa é uma serpente, ela própria, velho personagem de seu baú.


Revólveres e buracos de bala são também personagens não-humanos. Os buracos, de modo especial, são sentidos como as feridas em que o pintor enfia o dedo para fazer doer mais, trazendo aqui dores negras: na cena de bang-bang, no estereótipo do homem negro que atrai a mulher loira com seu pau grande e, finalmente, no combate inglório (porque sabemos quem vence) entre artistas negros e curadores brancos, sobrepondo camadas de assujeitamento ao que já existe previamente no sistema oficial e colonizado das artes. 


Um contraponto é encontrado no elogio dos corpos negros que, por tabela, criticam os corpos da mídia e da moda. Nestas obras vemos com toda a força a paleta Gervane (à qual já me referi em outro texto ): As complementares vermelho e verde, as excludentes branco e preto. Passeiam entre elas o amarelo, o azul e o roxo. Os tons recorrentes dessas cores são como frases sonoras que reencontramos nas diversas telas. São afirmações do artista. São seus afetos prediletos. Por isso são reconhecíveis.


Para terminar, destaco a presença também aqui do tema da morte que Gervane trás consigo desde muito longe. Lembro-me da exposição Campo Minado , em que uma obra rende homenagem a Leonilson que, como ele, fez parte da conhecida Geração 80, morto prematuramente em 1993. A morte no artista é sempre morte provocada, morte ignorada, morte trágica. Aqui, a soja (e tudo o que há por trás do signo) é a causa no curso da estrada. Mas é também aquela declarada pela arte dita “contemporânea” sobre a morte da pintura. O artista reafirma a pintura com objetos-pintados reclamando sua existência. Sim, a pintura segue viva com Gervane de Paula.