Lucilene Machado 
É Doutora em Teoria da literatura pela Unesp - São José do Rio Preto e Universidad Complutense de Madrid/Espanha. Mestra em Literatura pela UFMS e Membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras. Possui obras publicadas no Brasil, Portugal, Espanha e Itália. Recebeu, entre outros, o II Prêmio Internacional “Gaetano Scardocchia” na Itália, em 2009 e o Prêmio Nacional Guavira em 2014. Professora Adjunta no Curso de Letras da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul-UFMS/CPAN e no Programa de Mestrado Estudos Fronteiriços.

OLHOS DE PEIXES SECOS

Em meio ao silêncio, a água desafina os tons do outono. Os camalotes assistem a cheia a partir da margem. Gosto de olhar para esse rio e para esse céu de um azul quase alegre. Um mundo aberto em todas as direções, onde a natureza e a paixão se mesclam no mesmo pólen para fecundar nossas cavidades líricas. Gosto das reflexões produzidas aqui, embora nenhum rio explique como o amor se afoga na pouca água da nossa boca. Não há teoria que dê conta de justificar a dor que isso causa. O amor morre. Complexo é que morre lentamente. Não há liturgia, nem exorcismo que consiga acelerar essa morte. Ela é lentíssima como o movimento dos homens que pescam a pouca distância de mim. Vejo os implacáveis anzóis rasgando os olhos dos peixes. Os peixes são tão simbólicos, lembram-me o poema de Eugenio de Andrade que aprendi de memória: “Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes e eu acreditava. Acreditava, porque ao teu lado todas as coisas eram possíveis. Mas isso era no tempo dos segredos, no tempo em que o teu corpo era um aquário, no tempo em que os meus olhos eram peixes verdes. Hoje são apenas os meus olhos. É pouco, mas é verdade, uns olhos como todos os outros.” Depois das palavras gastas, já não conseguimos ver peixes nos olhos, já não vemos absolutamente nada. Depois das palavras rasgarem os nossos olhos com seus anzóis, voltamos cegos para a casa, tateando portas, tateando paredes. Não adianta enfiar a mão na algibeira porque ela estará vazia. Tudo estará vazio. Porque o amor é este poema oco que não comporta mais nada, é essa narrativa marcada pelos nossos erros e por alguma grandiosidade feita de hiatos e de coisas que não dissemos. Aprendi com a literatura que as verdades sempre são outras, nunca são as que parecem ser. A verdade é tão subjetiva que muitas vezes os protagonistas das histórias não se dão conta dela. 


A maioria não se dá conta. Querem viver uma vida amorosa sem percalços, sem a intromissão de verdades incômodas, só o desejo de viver selvagemente e ter orgasmos de vários níveis de intensidade. Já ninguém quer elucubrar, brincar de esconde-esconde nas dobras do corpo do outro ouvindo Concierto de Aranjuez. Não conheço ninguém que goste de ouvir essa música. Talvez por isso ela esteja tão condicionada à minha solidão. Uma peça musical que questiona Deus, uma oração elaborada sem palavras e que produz uma catarse espiritual. A trilha sonora perfeita para os dias em que precisamos pensar onde foi que estivemos, onde foi que nos perdemos e por que seguem desfilando, em procissão, os sonhos despedaçados. Algum dia extrairemos uma lição disso tudo, mas permaneceremos calados e com olhos de peixes secos. Ficará presa na mandíbula uma antiga pergunta sem resposta: o que teria sido se...? E a vida seguirá sempre como a velha flor de Drummond, com o dom de furar asfaltos, furar tédios, furar angústias e florescer ainda que sozinha no meio do nada.

© 2019 - Revista Literária Pixé.

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