Luciene Carvalho

Escritora, poetisa e membro da Academia Mato-Grossense de Letras

PRETA ACORDADA

E eu te digo
Eu te digo
Eu te digo:
Seja tanto meu amante
Quanto meu amigo.
Faz-se urgente
Que a fortaleza 
Se levante
E nos proteja dos danos
Do cotidiano, 
Da ferrugem nefasta
Que corrói e afasta.
E eu te digo
Eu te digo:
Seja ternura
Mais que sócio,
Pois quando o amar 
Vira negócio,
Perde-se o ócio
- território essencial-
Onde, então, armar
Correntezas de desejo?
Prevejo temporal...
Menos importa
Buscar a roupa no varal,
Que o banho de chuva
E eu te digo:
Seja menos difusor 
E mais abrigo,
Porque é preciso 
O riso cúmplice
Mais que a sopa na panela.
Aquela música do Brow
Já dá a letra:
Dá trabalho
Ser amado de uma preta, 
Sabe ‘cumé’
Café
Massagem no pé...
Digo:
Preta acordada,
É luz e perigo.
Pra valer a pena
Seguir lado a lado,
Há que se ter boa cena
E olhar apaixonado,
Dedo desenhando a boca
Língua penetrando o umbigo.
Com o passar dos anos, 
Amar não é coisa pra humanos.
Amor é sadomasoquismo
Priapismo
Noite seca
Sigo, não sigo, 
Tempo e lugar onde sempre se peca;
Alguém tem que ser sede,
Alguém tem que ser caneca

© 2019 - Revista Literária Pixé.

  • Facebook