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Luciene Carvalho
A escritora é corumbaense, vive em Cuiabá, no Estado de Mato Grosso/BRASIL - desde 1974 - tendo já recebido o título de cidadã cuiabana. É membro da Academia Mato-Grossense de Letras/AML. Entre as obras poéticas publicadas, citamos: Aquelarre (2007); Insânia (2009); Ladra de Flores (2012)  e Dona (2018).

GENEALOGIA BRUTA

 

Nasci na janela do mundo

Meio que de lado

meio que de esguelha

Última filha do meu pai

Única filha da minha mãe

Sem irmãos, só meios-irmãos...

Casar? No papel, uma só vez,

No mais, casei todas as vezes que pude.

Cedo fui órfã de pai,

Não fiz filhos, nem abortos,

Neta de devota de São Benedito,

Bisneta de parteira,

Filha de Virgínia Conceição,

Fiz versos, virei poeta

Moro em Cuiabá, no Porto

E Porto é meu coração.

(Ladra de Flores, 2012, p. 19)

 

 

FORMA ORIGINAL

 

Faço verso

porque disseram

que é pra isso que presto,

Não sei

se levo isso

como elogio,

como desclassificação

como recado.

Faço verso

porque quando não dou conta

do resto das coisas do mundo

dou conta

de – com minhas mãos –

ir arranjando as palavras

assim, de forma original.

E tudo e matéria-prima

e as palavras contam,

através de minhas mãos,

imagens e rimas.

Me reforço no verso feito.

Me ressignifico!

Construo algo maior

que passa a existir no mundo

e o mundo então

fica mais rico.

Faço verso

porque é meu melhor produto, porque não tenho escolha,

porque não tem motivo.

(Ladra de Flores, 2012, p. 24)

 

 

VÉSPERA

 

Todo dia é dia de morrer.

À noite, após a solidão instalada,

arrumo minha casa

como se no dia seguinte

fosse de velório.

Como se fosse receber

a visita de todos os amigos

em última revista.

Deixo todas as coisas

em seus devidos lugares,

todas as palavras ditas,

contas pagas,

afetos manifestos.

Todo dia é réquiem do outro,

sem que haja

uma gota sequer de morbidez.

Todo dia

posto meus olhos

na plenitude do possível.

(Ladra de flores, p. 54)

 

 

DO QUE É DE CADA

 

Não gosto de suores

dos sonhos alheios

respingados em mim.

Sonhos são assim:

Cada um que sue os seus.

(Ladra de Flores, 2012, p. 80)

 

 

REPASTO

 

Deitada, na manhã,

constatei a feminina umidade

fruto da memória da saudade

do havido.

Não há ouvido tapado

que impeça

a voz da lembrança.

(Sumo de Lascívia, 2007, p. 21)

 

 

CANÔNICA

 

Santos são aqueles que nos salvam

quando resvalamos

por estados de tristezas profundas.

Santos são aqueles que nos salvam

quando incorremos em blasfêmia.

Santos são aqueles

que nos coletam fragmentos,

no exato instante da última esperança;

São o sarã no barranco

do esfalfado da sorte.

São a sombra do meio-dia,

toldo estreito na tempestade.

Se santo não houvera,

a sagrada e fêmea fé

os criaria.

Mesmo que fosse

para vale do degredo.

Ah! Santo desabafo

ao pé do nicho em segredo,

ou prece feita em ofício,

com pedido inscrito.

Santo: carteiro do sonho menino,

currier entre o humano e o divino,

corrimão no medo

sopro do destino.

(Aquelarre ou Livro de Madalena, 2007, p. 42)

 

 

FEBRIL

 

Fez frio nesses dias,

recolhida às cobertas

tive febre

e algum tempo pra pensar

que a nós mulheres

à liberdade fere.

Soltas e atônitas

experimentamos a dor da escolha.

Ninguém virá

com proibições e limites?

Ninguém trará

o chicote a mão pesada,

as obrigações conjugais?

Que de liberdade

também faz-se o medo.

Ainda olhamos, receosas,

à soleira da porta

à espreita do senhor

e tememos que ele venha,

e tememos que ele não venha...

O frio foi rápido;

a febre já dura há mais tempo.

 

(Aquelarre, 2007, p. 43)

 

 

CANÇÃO DA INICIAÇÃO

 

O mestre que me iniciou

chegou e partiu,

pois é feminino

a nutrição as sementes.

O mestre que me iniciou

é como o fogo:

chegou e partiu

pois cabe ao feminino

gestar o futuro das gentes.

(Aquelarre ou Livro de Madalena, 2007, p.37)

 

 

GUARDIÃS

 

As damas da minha corte

Possuem mãos e bocas,

aguardam um gesto

que novamente puxe

o fio do novelo.

Que se desenrole

o próximo capítulo

da longa novela.

As damas da minha corte

sabem sortilégios

de trancar princesa em torres,

de adormecer sereias em atóis,

de reter iaras no fundo das locas;

Minhas damas

são guardiãs do corpo

que minh’alma habita.

Cuidam das flores

cuidam das velas

- para que se mantenham acesas –

cuidam dos cereais e hortaliças.

São vestais e fazem de mim

a pérola mais recôndita.

E cantam canções de ninar,

ensinam bordados,

 inventam passeios de acordar sorrisos.

No alto das horas,

saciam desejos de qualquer origem,

só ouço sim,

desde que mantenha

a corte na torre.

(Sumo de Lascívia, 2007, p. 25)

 

 

LUNARES

 

As mulheres rezam

porque conhecem a força da vida

dentro de si.

As mulheres oram

por conhecerem a dor da espera

e a recompensa da esperança.

As mulheres oram

porque amam em vão

e tocam espelhos com as mãos

ao pensar em seus amados.

As mulheres rezam

porque é de sua natureza

murmúrios súplices.

As mulheres crêem no sagrado

e captam o transcendente

e se comprazem em sua Natureza.

As mulheres carregam pagãs

em suas preces cristãs,

banham-se com frutos e flores,

acompanham as fases da lua

as mulheres são luas

as mulheres são fé.

(Aquelarre ou Livro de Madalena, 2007, p. 38)

 

 

FÊMEAS FORMAS

 

Abauladas, seios, ancas.

Baús, potes, cabaças

côncavos, úteros, curveios

ovais, conchinhas e taças.

(Aquelarre ou Livro de Madalena, 2007, p. 24)

 

 

COLO

 

O colo que hoje busco

- corpo e abrigo –

não é o de perfume

de aconchego.

Não!

Não quero o colo

de me esconder do medo,

Não quero o colo

que tira minhas pernas do chão,

não!

O colo que anseio

não é o da proteção empoderada

que me faria títere,

refém.

O colo que aspiro

é cúmplice como um biombo,

excitante como uma gangorra.

E me sentar nele, será

como se fosse num cavalo,

para ir além...

Percorrendo e percorrida.

O colo, sem pudicícia,

abusará do fato

de eu estar de saias

e brincará com minhas partes

incentivando meu riso,

descortinando o lúdico

do meu prazer.

O colo com que sonho

- Isis sem véu –

vai me mostrar à vida

no encanto arte

que há no carrossel.

(Sumo de Lascívia, 2007, p.28)

 

 

CARNE VIVA

 

O pote que saliva

o meu viés,

quer mais,

deseja muito.

Porém, não apresenta rigidez visível.

Meu querer é silente e úmido

e pode passear pela sala de visitas

sem que dele se apercebam.

O calor contagia entranhas,

como forno à espera.

A fera só sabe a si

e, talvez, a presa

que, por vezes, participa indefesa

como conviva e iguaria,

como carne viva

num raro festim.

(Sumo de Lascívia, 2007, p. 45)

 

 

CANETA- TINTEIRO

 

Sou entrega

pra mão de abuso

sou fêmea de uso.

Sou corpo recluso.

Os pássaros cantam

na manhã que vivo,

o sol laranja,

depois vem lilás.

Meus sonhos são repouso

de entrega plena,

faço novena

na primeira luz

Meu dia é fraude

pra quem vê de longe

e finge entender

o que parece ser.

Portões, “bom-dia”,

incenso, almoço,

passo de uma à outra,

sigo mistério

sem fazer alarde.

Meu jeito sério

não revela o inteiro

do mar que sou,

caneta-tinteiro.

(Sumo de Lascívia, 2007, p. 16)

 

 

CRISÁLIDA

 

Silêncio! Estou em mim.

Fabrico ainda minhas cores

Estou em criação

Medito meus grafismos

Meus perfis

Sou projeto e já sou vida

Preciso do tempo

Sou crisálida

Já tive vida anterior

E realizo síntese

Voltei aos meus genes

Levando minhas vivências

Tenho nova etapa pela frente

Um futuro diferente

Portanto,

É preciso cuidado

Sou crisálida

Ainda frágil, sonho e voo

Recolhida em mim

Em busca e transformação.

(Devaneios poéticos, 1994)

 

 

MINHA DONA

 

O sagrado silêncio

conquistado.

O chá – camomila, erva-doce, anis.

O leito inteiro disponível.

A noite entra noutro nível.

O incenso Masala.

O banho morno. Ninguém em torno.

Esse é meu noturno cortejo,

à espera de receber o beijo

transparente da poesia.

Ela é minha dona,

me possui;

me emprenha de versos.

Ela é minha dona,

melhor porção do meu universo.

Sofro quando ela me abandona

e segue, frívola,

com outros poetas

ofertando cintilâncias

de rimas inéditas.

Sofro e sigo à espera:

“Quem sabe ela vem, já é primavera!”

Recorto camisetas

com imagens de santa,

minha ânsia é tanta

pelo encontro sagrado...

Entro em negação

versejante, que toma

o leme do que sou.

Ah! Poesia...

Ela é meu guia,

minha alegria,

meu escafandro;

me nutre de oxigênio

por onde ando.

Meu gênio da lâmpada,

minha marquise em noite de chuva,

minha voz,

meu algoz, minha segunda pele,

minha endoderme,

minha contaminação,

meu veículo,

minha formiga saúva,

minha farda de algodão.

minha poesia,

minha dona,

meu neon,

minha persona:

semáforo e contramão.

(Dona, 2018, p.  110)

 

 

LADRA DE FLORES I

 

Não mais amores.

A partir de hoje...

colherei flores...

Melhor, roubarei!

Seguirei atenta a gramados e jardins

pois, que para amores,

o tempo anda escasso,

Apressarei o passo,

ajustarei o compasso

e seguirei assim:

Ladra de Flores,

que se oferecem silentes

a carícia dos olhares,

a possibilidade do toque

a rapidez da mão.

À melhor provocação

praticarei o roubo,

o furto,

feito surto

na claridade vegetal do afeto,

infestarei a cidade

de boato, impunidade

e rumores.

Abraçarei a criminalidade

praticando assalto

no campo e no asfalto

me farei ladra de flores.

 

(Ladra de Flores, 2012, p. 15)

 

 

LADRA DE FLORES II

 

Nem errada, nem certa,

aceitei a oferta,

às vezes em forma de Margarida,

às vezes em forma de Narciso.

Outras vezes – quando foi preciso –

fui ladra de flores,

era urgente colorir meus dias...

sempre vivas, miosótis,

não plantei em potes,

presas a mim.

Usufrui – flores e amores –

no livre que pude

sabendo o risco desta atitude,

Toda ladra sabe o risco:

de adubo e chuva

nem sempre tem-se a medida exata.

Fui ladra de flores

que despertaram a cobiça

em meus olhos

e se achavam por ali – desocupadas –

não fiz nada que ofendesse a pétala.

Fui ladra de flores

por compulsão e desatino

usando para o roubo

de sedução e entrega.

Meu verso não nega,

até aqui, fui ladra de flores,

compro meu destino.

(Ladra de flores, 2012, p. 96)

 

 

PÁTINA

Disseram que na idade em que estou

as pessoas começam a envelhecer;

mas esse negócio de envelhecer

é novo para mim.

Ainda não me acostumei

com o status de senhora

que levarei comigo

pela vida afora.

Vou buscando me ajeitar no tempo,

Vivendo o agora

buscando algum armistício

com tudo o que sou;

atenta ao que passo,

não ao que passou.

 (Dona, 2018, p.20)

 

 

O TEMPO E O MEDO

Eles não saberão

das horas de medo

dos olhares prolongados

pro espelho

em segredo.

Eles nunca saberão

da chegada da vergonha

disfarçada de “nem ligo”.

Eu mesma não sabia

e não digo

da dor

frente a transformação

da face

da ruga

da marca de expressão.

Eles não saberão

dos pensamentos insanos

que enraízam pela mente.

No galopar dos anos

eles não saberão

da incômoda comparação

ao ver sobrinhas e filhas

com um colágeno

que já foi meu.

(Dona, 2018, p. 26)

 

 

IDADES

São duas idades

distintas,

distantes.

Você, recém-chegou aos trinta;

eu, já vejo as tintas dos cinquenta.

Entretanto, as divergências

têm dialogado

e vamos divergindo lado a lado,

construindo inéditas vivências.

(Dona, 2018, p. 33)

 

 

FRUTO DO FRUTO

 

Dona Josefa: minha avó.

Dona Conceição: minha mãe.

Matriarcas cuiabanas do rio acima

de quem herdo a tradição.

Herdo o corpo reumático,

a pele lisa,

o calcanhar rachado,

a voz imperativa.

Sou de uma raça

de mulher forte

do rio acima.

Eu, na verdade,

sou pantaneira,

onde a filha da fêmea do rio acima

cruzou com baiano;

eu sou a cria,

o fruto único.

Tenho olho de rebojo,

cabeça de bocaina,

ouvido de parteira

e pés de longidão;

um útero

que veio do útero de Josefa

trançado de taquara e fé.

Minha mãe tem no peito

um curral

cheio de vidas que cuidou.

Vou de onde vim;

é o rumo

escrito pra mim.

(Dona, 2018, p. 116)

 

 

ROSA E PRATA

Outro dia, me peguei

um pouco mais esperta

sabendo me calar,

me pondo a falar na hora certa.

E metade do mundo nem viu,

a outra metade nunca tinha visto.

Mas eu insisto em seguir mutante;

não é pelo mundo que eu sigo adiante,

é pra desvendar o inédito

em mim,

nas coisas,

nos lugares.

Tem uma cadeira de fio

rosa e prata

que, inimaginada,

habita em meu quarto.

Ela é a tradução exata

do inusitado

que a vida traz

em forma de coisa,

em forma de gente.

 (Dona, 2018,  p. 104)

 

 

 

CARTA ÀS BRUXAS

Irmãs, é chegado o Tempo:

acendam as velas nos altares,

acordem as manhãs com seu cântico.

Somos as filhas da Deusa,

Matrifocais.,

Irmãs, alinhem-se pela rosa dos ventos,

leiam os sinais.

Saúdem as quatro direções,

consagrem suas taças.

O aroma do incenso

já se espalhou.

 

Irmãs, vistam-se de arco-íris,

a cor certa a cada dia.

Munam-se de cristais e essências.

Trazemos as respostas dos mistérios.

Nosso ministério começou.

Estejamos prontas e reconheçamos.

Somos bruxas saídas das cinzas,

acordemos o tempo novo com nossos passos.

Sabemos a arte,

trazemos a arte feita com alegria.

Sabemos, irmãs, sabemos,

que duendes e santos

são parte do mesmo milagre,

que a felicidade

é projeto para vida eterna

e pode ser sorvida  hoje.

O   I Ching já disse:

“Nenhuma  culpa.

É  favorável atravessar a grande água”.

Já é possível compreendermos

as sephirotes da cabala.

Cala em sorriso o que for semente,

todas as gentes já podem nos saber.

É hora de viver à luz do dia.

(Aquelarre ou Livro de Madalena, 2007, p. 13)

 

IRINEIA DA JANELA

(Para Lucinda Persona)

 

Morava perto daquela estação de trem

Irineia –

15 anos e alguns dias.

Um dia acordou assim:

“Meu amado, meu amado,

É pelo trem que ele vem...”

Pôs vestido,

deixou solto o cabelo,

recostou-se na janela,

olhou os trilhos,

olhou para sua mãe

e perguntou para ela:

“Será que hoje ele vem?”.

Ouviu o apito do trem.

 Sua mãe, recém-viúva,

agasalhada no medo

respondeu: “Ainda é cedo...”

 

Irineia 17,

Todo dia

a mesma ideia

Com o apito do trem:

“Será que ele vem?

Será que ele vem?”

Fez trança

e da janela

perguntou para a mãe dela

Viúva e muito triste

“Será que ele vem?

Será que ele existe?”.

A mãe como num segredo,

Sussurrou: “Ainda é cedo”.

 

Irineia, 20 anos,

Todo dia

na janela em romaria

soltava um pequeno grito

quando escutava o apito:

“Ah! Meu amado!”

e imaginava:

Será que ele vem ?

Será que é bonito?

Dizia pra sua mãe:

“Às vezes, nem acredito...”.

Sua mãe sentia pena

 e respondia:

“Vou lhe fazer um vestido!”.

 

Irineia 32

Já se tornara mulher,                         

Se colocava à janela

De forma um tanto discreta

pensando:

“Será que ele não me quer?”

Sua mãe, após o apito,

Dizia: “Eu acredito.

Se hoje ele não vier,

então ele vem depois”.

 

Irineia 40 e poucos

o corpo já quase louco

gritando ao ouvir o barulho

do trem passando no trilho:

“Será

que só nunca ele virá?”

e perguntava para a mãe:

“É pra isso que nasci,

para ficar encalhada?”.

A mãe ficava calada.

 

Irineia fez 50.

Sua alma já não aguenta

o trem,

a espera,

a ilusão.

Olha para a mãe

como para sua prisão.

A janela fica aberta...

ao eterno do apito;

só seu peito ainda aperta.

Sua mãe então lhe diz:

“Sei que você não é feliz.

Mas, se ele vier lhe buscar,

quem então vai me cuidar?”.

 

Irineia fez 60.

Sua mãe morreu,

foi um choque.

Ela sentada na cama,

fez um terço,

Fez um coque;

já não era sentinela,

já não pensava no trem.

Ela fechou a janela,

ela sabe: ninguém vem.

(DONA, 2018, p. 60-62)

 

 

ESMOLER

El pedia com os olhos. O cabelo bem pintadinho e ainda assim, sem viço, talão de cheque, cartão de crédio, emprego fixo, competente. Ainda assim pedia com os olhos. A pele pálida de moça de escritório, a blusinha de alça de cor alegrinha, não conseguiam atrair os olhares para o corpo gritantemente mal tocado. Viera ao Choppão e por sob a mesa os dedos dos pés retesados me contaram da ansiedade; a amiga sentada a sua frente: nem mais bonita, nem mais rica, só mais plena. Ela, expressão de Mariete, me contava através dos cotovelos apertados junto às costelas, das noites emocionantes não havidas, dos sussurros de amor não trocados, da agenda sem surpresas. Talvez se chamasse Teresa e morasse no Terra Nova num pequeno apartamento de dois quartos adquirido com a prova do profissional bem-sucedido. O riso contido e a expressão do rosto ensaiada pra agradar, me falavam que sempre foi Josiana, querendo aplauso do pai, espanto da mãe, sempre chegou só um pouquinho atrasada e quis agradar aos professores. Fez sua faculdade e seu concurso. E nesta sexta à noite, sem que se dê conta, os olhos pedem.

(Conta-gotas, 2007, p.30)

 

 

CADEIRA DE BALANÇO

Na quaresma da vida pouca coisa lhe restara: a cadeira de balanço e as lembranças. As saídas do casarão do Barão de Melgaço só nos dias de consulta com o Dr. Benevides. As visitas da família são cada vez mais rápidas e espaçadas, ela já não lembra os nomes de todos e as caras vão se misturando umas as outras à medida que o tempo se acumula sobre os dias. Velha não tem compromisso marcado.

Dos 6 filhos, só 3 estão vivos, dos netos já perdeu as contas, por vezes tenta refazer o quebra-cabeças de fotografias que enfeita a parede da sala com sorrisos e sobrancelhas que lembram os seus. Bobagem. Hoje em dia ela não pode esquecer é o remédio para pressão alta, o resto já não tem tanta importância. Essa é a maior lição que o tempo lhe trouxe: a pouca importância dos problemas urgentes, não há nada que o tempo não encubra.

O tempo levou o pai, alto funcionário do Banco da Borracha; a mãe, carola que morreu tão silenciosamente quanto viveu; levou seus 9 irmãos, deixando-a sem ninguém pra dividir recordações do tempo antigo; levou o marido capitão do exército, mas esse, o tempo já levou tarde, lhe deixando pensão e alívio.

Na solidão de mulher velha de memória falha, pouco lhe restara: só a cadeira de balanço, as lembranças e esse pequeno ir e vir entre a varanda e o quintal; a conversa com as árvores e os passarinhos o que faz quando bem entender; esses vestidos de cores alegres e decotes mais frescos que só pode ter após a viuvez.

É verdade que muito, muito da memória se perdeu, porém, dentre o que restou, é recorrente a lembrança de um certo Cabo Tomé que freqüentou-lhe a casa quando os 40 anos gritavam a urgência do corpo. O rosto dele lhe volta aos olhos com mais força cada vez que sua caçula, a rapa do tacho, vem lhe visitar. Na hora de abençoar a filha na despedida, chama-a de Tomezinha e não se importa quando escuta o que sussurram de viés, lhe chamando de caduca.

(Conta-Gotas, 2007, p.14)

 

 

CONTA-GOTAS

Eu velarei a noite inteira, mãe, estarei atenta ao conta-gotas nas horas certas da medicação, creia. Conseguirei o seu perdão tantas falhas, tanta frustração. Ah, mãe! Serei motivo da sua admiração, a senhora se esquecerá da menina sem encantos, da mocinha sem brilho, se esquecerá da perda do seu filho. Eu prometo lhe recompensar pela moça sem beleza, pelo genro pífio, de profissão modesta e ambição tacanha. Minha fé tamanha trará a recompensa. O médico me disse que com algum cuidado levarei a gestação até o fim, é certo sempre ter sido um tanto frágil e sem viço, mas, desta vez, vou dar conta do serviço. Isso é vital pra mim: terei nosso menino. Eu me vejo entrando em sua casa, por uma vez vitoriosa, levando o neném nos braços envolto em manto azul, será noitinha, meu ventre ainda abaulado, meu peito cheio. O passo cuidadoso do pós-parto, seguirei até seu quarto, que fica logo após o meu de filha pouca; minhas mãos seguirão até sua direção, lhe entregarei meu filho mãe, que será nosso. Nossas tardes após então, serão serenas e seremos íntimas e cúmplices.

A senhora me ensinará todos os cuidados, estaremos próximas, talvez voltemos a morar juntinhas. Talvez eu não descubra como ser mãe sozinha. Só preciso de repouso, de descanso pra atravessar por essas seis semanas, o remédio que me deu o médico nem é ruim, só tenho que atentar ao conta-gotas.

(Conta-Gotas, 2007, p. 25)

 

 

ROTA

Ela desceu no ponto de ônibus da Prainha, perto do calçadão ainda meio tonta: passou em gente à joalheira onde haviam comprado as alianças em setembro passado, numa tarde de risos e cumplicidade. As lágrimas sucumbiram às lembranças, desabando pelo seu rosto, enquanto descia a 13 de junho em direção à farmácia Pax. Comprou uma Água de Melissa de um balconista solícito que, vendo seus olhos cheios de lágrimas, perguntou se ela queria mais alguma coisa.

“Quero, quero sim” ela pensava, enquanto seus lábios murmuravam um obrigada pálido “quero voltar as horas, mudar o caminho das coisas, quero acordar de novo nesse sábado...” ela decidiu ir a pé pra casa após pagar a nota da farmácia. Sua dor precisava de espaço e sua cabeça tinha entrado em redemoinho de pensamentos sem controle...

“Quero acordar de novo neste sábado e não inventar moda de querer ir à casa de Frederico pra ter uma conversa sobre nós dois - esse negócio de discutir relação é bobagem – ainda que eu saia de casa, que eu não pegue o ônibus do CPA, que eu vá ao Porto visitar Anginha. E mesmo que pegue o ônibus, que eu desça na subido do Araés e vá ver Zulma, que eu desça no centro e torre meu cartão. Quero qualquer força que me mude a rota, que me impeça de chegar à casa do meu Fred e usar chave na porta.

Qualquer milagre que me cegue os olhos antes que eu veja os corpos na cama: lindos, íntimos, entregues um ao outro. E se nenhum impedimento for possível, que ele minta, que ela não olhe nua em piedade terna. Que ele minta pelo amor de Deus; que fale em sem querer e aventuras, que peça meu perdão. Que ela não se vista e saia, digna e serena. Que ele peça nem que seja um tempo, pra pensar nas coisas. Quero esquecer que ele tirou a aliança do dedo com alívio pleno e só: ‘Sinto muito’. Quero arranhar a cara do ladrão de sonhos, rasgar minha roupa...”

Nem deu pra perceber o chegar em casa, o caminho feito. Talvez com a vida também fosse assim: o seguir das horas, mesmo o peito em brasa. Talvez devesse voltar-se pra si, como quem vai pra casa...

 

(Conta-Gotas, 2007, p. 32)

 

 

PRA PODER SONHAR

 

Sairia dali

Sairia dali em breve

O mais breve que pudesse

Antes que o tempo passasse

Antes que a força acabasse

Antes que a vida morresse

Nos dias iguais

 

Sairia dali

Por qualquer caminho

Que abrisse primeiro

Faria dinheiro

E sairia dali...

Enquanto ainda,

Faria faxina

Faria resenha

Faria pamonha

Faria programa

 

Sairia dali

Pra não ser mais uma

Pra não se mais nada

Dessas que se acaba

No tanque e  fogão

 

Sairia dali

Diria não

Pra rua poeira

Pro amor de coleira

Pra não ser obreira

De sim pro pastor.

 

Sairia dali

Porque não queria amor

De teto com ranço

E aquele balanço

No tosco quintal

Pra alegrar as crias

Do parto bienal.

 

Sairia dali

Por que tinha medo

_Pensando de noite_

E acordava cedo

Pra poder sonhar

 

Sairia dali

Pra ver vida inteira

 De alguma maneira

Por sorte

 

Ou por morte

Mas, ia escapar

 

Poema inédito de Luciene Carvalho

JOGO DA SELEÇÃO

 

A rua não lhe perguntava nada

Só lhe convidava pra andar...

Era dessas mulheres

De portão pra fora,

Desde menina

Tinha essa sina

Não curada

Por nada:

Nem cinto de pai

Nem choro de mãe

Nem –até- camburão

O irmão olhava

E falava:

“Tem comichão”

Ela não queria

Saber o que tinha,

Queria a alegria

Que dentro sentia

Quando escapava portão...

O cheiro da rua

O desconhecido

Vizinho, vizinha

O andar sozinha.

Conversa fiada

A vida alheia

Posta na calçada

A troco de nada

Ela nem ligava

Ficar mal falada,

Queria estar junto

Mesmo que na rua,

Fosse ela o assunto...

Falava com puta

Vendedor de fruta

Com irmã da igreja

Com gente de facção

Bebia cerveja

De boca fechada

Não falava nada

De tudo sabia

Bicheiro

Agiota de dinheiro

Idiota, travesti

E daí?

Um dia,

Era jogo de seleção

Ela saiu:

Carteira no bolso

Celular na mão.

Assistiu o primeiro tempo

No bar do Ari

Teve um gol

Teve um vento

No barulho

Ninguém viu

Ela sumiu

Nunca mais voltou

Foi a rua que engoliu.

 

Poema inédito de Luciene Carvalho

 

BOLO

 

No terceiro filho

Ela entendeu:

O marido era aquele

O bairro era aquele.

Parou de sofrer

Numa quinta-feira

Os filhos

Um na escola

Uma comendo pedaço de parede

Outro berrando por peito.

Ela parou

Olhou pra tudo

Prendeu o cabelo pra sempre.

Era uma quinta-feira,

Ela foi até o muro

E pediu açúcar emprestado

Pra vizinha mais velha

- de cabelo sempre amarrado-

Olhou bem praquela mulher

De idade nenhuma

Sorriu e disse:

“Vou fazer um bolo

Depois passo um pedaço

Pra senhora”

 

Poema inédito de Luciene Carvalho

 

SONHO NEGRO AZUL

 

Beiço de negra,

pronto pro beijo

e p’ra palavra certa.

Sou toda assim:

cabelo pixaim,

juba de pantera.

Sou fera!

De inteligência rara

e brilho certo.

Não chegue perto!

Você não me doma.

Se deita em minha cama,

ainda se apaixona.

Não entre em minha redoma,

sei do prazer da carne,

que é negra e doce.

Antes fosse submissa...

Não o é, não o é.

tarde ou cedo,

você perde o medo,

vai querer provar

do que vale,

O dia sem o risco?

Sou raio negro, corisco.

E o beiço da preta

se escancara em riso

- Sabe a dor-

O olho preciso,

é convite azeviche,

gozo de piche

Sonho Negro Azul.

Poema inédito de Luciene Carvalho

© 2019 - Revista Literária Pixé.

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