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Luciana Borges
É leitora e pesquisadora de literatura. Professora de Literatura Brasileira na Universidade Federal de Catalão, cidade onde nasceu. Doutora em Letras pela Universidade Federal de Goiás, integrante do grupo Dialogus (CNPq), do GT ANPOLL - A mulher na literatura e do Coletivo Literário Mulherio das Letras. Sua principal produção é o livro O erotismo como ruptura na ficção brasileira de autoria feminina (Ed. Mulheres, 2013), tendo também organizado A mulher na escrita e no pensamento (Funape, 2013), O corpo na literatura e na arte (Depecac, 2013) e Letras Insubmissas (Mercado de Letras, 2020), dentre outros. Publica também artigos e capítulos de livro. De vez em quando, arrisca-se na escrita de poemas e contos.

In/Escrever o corpo: a poesia erótica de autoria negro-brasileira contemporânea

 

“Escrever é perigoso porque temos medo do que a escrita revela:

os medos, as raivas, a força de uma mulher sob uma opressão tripla ou quádrupla.”

Glória Anzaldúa (2000)

 

“Escrever poesia erótica é tatuar sobre as cicatrizes que o colonizador imprimiu sobre os corpos das mulheres negras” [1]: a afirmação feita pela escritora Cristiane Sobral, diz muito sobre os aspectos inerentes à escrita do erotismo por autoras negras na contemporaneidade. Pensar criticamente essa produção poética inclui, frequentemente, a necessidade de abordar a literatura a partir de aspectos estéticos associados a aspectos políticos, uma vez que a voz lírica que se estabelece nos poemas apresenta demandas específicas de expressão. Tal escrita aciona também elementos temáticos bastante marcados, especialmente em relação ao corpo negro e aos seus modos de representação e associação com a vida afetiva, amorosa e sexual.

A escrita da poesia por essas autoras também se relaciona a aspectos constitutivos da sociedade brasileira, na qual a existência de escritores e escritoras negras permaneceu inimaginável em alguns períodos da história do Brasil colonial, situação sendo alterada apenas recentemente. Tendo em vista esse aspecto, pode-se afirmar que escrever tensiona a relação entre o ato de escrita (habilidade intelectual e técnica) e a escrita como ato (tomada de um lugar de fala e expressão), estando a escrita literária no campo movediço entre rupturas e permanências.

Sobre a tomada da escrita, a pesquisadora Grada Kilomba afirma que, ao escrever, opera-se a mudança de posição de ser escrita (passivo) para ser aquela que escreve (ativo): “Não sou o objeto, mas o sujeito. Eu sou quem descreve minha própria história, e não quem é descrita. Escrever, portanto, emerge como um ato político” (KILOMBA, 2019, p. 27). Especialmente por ser uma tomada de consciência, vista como uma atividade perigosa e subversiva, a escrita é sequestrada das populações subalternas, como mecanismo de silenciamento e fragmentação identitária. Sobre esse sequestro de voz, é interessante notar que, em relação às representações de corpos negros na literatura brasileira colonial, um estudo como o de Affonso Romano de Sant’Anna no livro O canibalismo amoroso (1987), aponta a ausência de autonomia de expressão ao mostrar como autores brancos construíram personagens negras no período, principalmente as femininas, de forma estereotipada ou distorcida.  Segundo o autor, na economia libidinal da colônia, predominam processos a um só tempo contrários e complementares, designados como negrofilia, negrofagia e negrofobia, nos quais desejo de propriedade, de degustação sexual e de aniquilação pelo temor se mesclam nas imagens retóricas e poéticas de representação das mulheres. Podemos acrescentar que o corpo escravizado se torna, nesse contexto, um corpo sem voz e sem escrita, é um “corpo-sem corpo”, portanto, sem história e sem memória. É também um corpo sem direito à beleza e sem direito ao desejo, posto que submetido aos desejos e desmandos de outrem. A predominância desse imaginário e as dinâmicas sociais excludentes explicariam, inclusive, a entrada tardia no campo poético do erotismo. O corpo negro que se escreve subverte a ordem, resgata sua dimensão humana, sua pertença a uma coletividade, a sua pertença a si mesmo e a possível entrega ao outro, na parceria erótica.

Lélia Gonzalez (1984), no texto Racismo e sexismo na sociedade brasileira, menciona a dificuldade que estudiosos brancos expressam em considerar as possibilidades afetivas no contexto colonial da escravidão, uma vez que seriam incapazes de perceber as pessoas negras como seres humanos e, portanto, passíveis de amor. Analisando um excerto de Caio Prado Jr. – no qual o autor designa como “amor de senzala” as interações afetivas entre escravizados, afirmando que este não foi capaz de realizar o milagre do amor humano e se resumiu ao nível primário do contato sexual –, Lélia Gonzalez é contundente ao afirmar que “nessa perspectiva, ele pouco teria a dizer sobre essa mulher negra, seu homem, seus irmãos e seus filhos. Exatamente porque ele lhes nega o estatuto de sujeito humano. Trata-os sempre como objeto. Até mesmo como objeto de saber” (GONZALEZ, 1984, p. 232). Ao reduzir a atividade afetivo-sexual à simples cópula, Caio Prado retira justamente a dimensão erótica da interação, dimensão esta que teóricos do erotismo como Bataille (2013) apontam como fundamental ao ser humano.

Feitas estas considerações, temos que uma das principais expressões da poesia erótica de autoria feminina negro-brasileira é justamente o resgate da dimensão afetiva humanizadora do sujeito negro, por meio, especialmente, da tematização do corpo e do resgate da ancestralidade originária, seus símbolos e imaginário afrocentrado. Nessa poesia, os corpos negros pavoneiam, interagem e gozam o prazer negado por séculos de racismo estrutural. É possível notar uma estratégia poética que tenho chamado de positivação do corpo negro [2], na composição de poemas que tematizam a erotização de corpos negros e seus traços fenotípicos em processo de reversão da negatividade histórica atribuída a esses corpos nos processos coloniais. Autoras como Cristiane Sobral, Miriam Alves, Dandara Suburbana, Nina Silva, Priscila Preta [3] tem se dedicado à escrita do erotismo, no entanto, para o presente texto, alguns poemas do livro Estado de libido ou poesias de prazer e cura, de Carmem Faustino (2020), serão a baliza desse expressar autoamor pelo corpo, satisfatório em seus aspectos mais intrínsecos, desejável em sua negritude, como o texto Construção:

 

Meu corpo

É espaço de criação

E força motriz

Onde aprendo a cada curva

Edificar um templo meu

Movimentar meus desejos

E alinhar a vista turva

Da lente pálida

E distorcida

Que cega minha realeza negra

 

Sou minha fonte de prazer

Meu abrigo de amor e cura

(FAUSTINO, 2020, p. 87)

 

Sobre as cicatrizes coloniais, borda-se uma perspectiva outra, não mais distorcida pela “lente pálida” da branquitude desvalorizadora. O amor, o desejo e o prazer que dele decorrem compõem-se muito na perspectiva que Audre Lorde (2020, p. 73) apresenta no texto Os usos do erótico: o erótico como poder, em que argumenta sobre o erotismo como força de vida: “em contato com o erótico, eu me torno menos disposta a aceitar a impotência, ou aqueles outros estados do ser que nos são impostos e que não são inerentes a mim, tais como a resignação, o desespero, o autoapagamento, a depressão e a autonegação”. O poema Viva, também de Carmem Faustino, expressa esse movimento de adoção do erótico como poder:

 

Eu faço

Do erótico

A poética viva

Do meu dia a dia

A cada gozo

Expelido

Do meu ventre

Na cama

Ou na rua

Curo

Feridas

E sigo

Firme

Preta

Em frente.

(FAUSTINO, 2020, p. 110)

 

O corpo é materialidade discursiva da qual não é possível que o sujeito se desvincule na elaboração de si. A potencialidade do eu que fala tem como ponto de disparo o corpo: corpo e identidade, corpo e discurso, corpo e prazer que não se desvinculam. Para Viny Rodrigues (2020, n.p.) a autora “não só vai evidenciar que mulheres negras devem gozar, mas que esse gozar move estruturas pessoais e sociais”. Celebrar o corpo negro, positivando-o, resulta em também em movimento para distanciar-se da apropriação objetificadora, sendo, então, possível, a continuidade com o outro, uma relação de maior horizontalidade, como no poema Soul:

 

Você é o ritmo

E eu a poesia

Juntos

Os agudos ruídos

Do cotidiano doído

Soam leves aos corações

E ouvidos

Equilíbrio das emoções

Construção de um novo abrigo

E assim

Bailamos o bem viver

Os tropeços e solfejos

Afeto ancestral

Difícil de erguer

Furacão de conflito

Tempestade de prazer

Mas real

E possível

De viver

(FAUSTINO, 2020, p. 56)

 

O prazer possível de se viver demarca esse campo de reconfigurações de si e do outro, a mulher que flui em águas e bailados, permite-se a escrita e o afeto, elaborado ancestralmente. Aqui, afeto é tecnologia de resistência na guerra contra a desumanização de corpos cuja cor da pele é estabelecida como determinante de seu estar-no-mundo. Em uma sociedade na qual a racialização dos indivíduos produz hierarquias políticas, sociais, econômicas, bem como amorosas e sexuais, amar é lutar contra ter “a pele como destino”, destino de solidão, violência ou objetificação. Encarar o perigo da escrita/ poesia equivale a encarar o perigo dessas tempestades cotidianas das relações amorosas, relações que começam pela garantia do amor por si mesma, operando, finalmente, a desejada modificação da política dos afetos. Se existem cicatrizes inscritas na memória do corpo erótico, fazer amor com o verbo se sobrepõe a essas marcas e o texto de prazer pode então ser lido, como um palimpsesto.

 

Notas

[1] Fala proferida em conferência no evento V Colóquio Internacional de Literatura e Gênero / II Colóquio Nacional de Imprensa Feminina, no dia 03 de outubro de 2020, na Universidade Estadual do Piauí – UESPI.

[2] O processo está analisado no artigo “Poéticas da cor/ eróticas de resistência: o corpo na poesia erótica de escritoras negras brasileiras” (BORGES, 2020), onde estão descritas também outras especificidades da produção poética erótica contemporânea. A positivação do corpo negro, a horizontalidade na relação erótica, o autoamor ou autoerotismo, a recuperação da ancestralidade afrocentrada são procedimentos temático-retóricos presentes na poesia.

[3] Ver, por exemplo, antologias de poemas como Pretumel de chama e gozo (KINTÊ; CUTI, 2015); Incorporos (SILVA, KINTÊ, 2011); A calimba e a flauta (PRETA; ROSA, 2012); Além dos quartos (LOUVA DEUSAS, 2015).

 

Referências

ANZALDÚA, Gloria. Falando em línguas: uma carta para as mulheres escritoras do terceiro mundo. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, p. 229-235, 2000. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/ref/article/view/9880/9106. Acesso em: 20 mar. 2021.

BATAILLE, Georges. O erotismo. Belo Horizonte: Editora Autêntica, 2013.

BORGES, Luciana. Poéticas da cor/eróticas de resistência: o corpo na poesia erótica de escritoras negras brasileiras. Letra Magna - Revista de Divulgação Científica em Língua Portuguesa, Linguística e Literatura, São Paulo, Ano 16, n. 26, p. 90-110, jul.- dez. 2020.

Disponível em: <http://www.letramagna.com/artigos_26/texto_06_26.pdf>. Acesso em: 20 jan. 2021.

FAUSTINO, Carmem. Estado de libido ou poesias de prazer e cura. São Paulo: Editora Oralituras, 2020.

GONZALEZ, Lélia. Racismo e sexismo na cultura brasileira. Revista Ciências Sociais Hoje, Anpocs, p. 223-244, 1984.

KILOMBA, Grada. Memórias da plantação: episódios de racismo cotidiano. Trad. Jess Oliveira. Rio de Janeiro: Cobogó, 2019.

KINTÊ, Akins; CUTI (Luiz Silva). Pretumel de chama e gozo: antologia da poesia negro-brasileira erótica. São Paulo: Ciclo Contínuo, 2015.

LOUVA DEUSAS (Org.) Além dos quartos: coletânea erótica feminista negra. São Paulo, 2015. Editora Priscila Romio; Projeto Gráfico Jackeline Romio. Disponível em: https://louvadeusas.files.wordpress.com/2019/08/louva_deusas_erotica_2015.pdf. Acesso em: 10 mai. 2020.

LORDE, Audre. Os usos do erótico: o erótico como poder. In: LORDE, Audre. Irmã outsider. Trad. Stephanie Borges. Belo Horizonte: Autêntica, 2020. p. 67-74.

PRETA, Priscila; ROSA, Allan da. A calimba e a flauta: versos úmidos e tesos. Capulanas: Coletivo de Arte negra, 2012.

RODRIGUES, Viny. Resenha: Estado de Libido, de Carmen Faustino. Oralituras Editora, 20 jun. 2020. Disponível em: https://oralituras.medium.com/resenha-estado-de-libido-de-carmen-faustino-por-viny-rodrigues-f54f63a4b60c. Acesso em: 18 mai. 2021.

SANT’ANNA, Affonso Romano de. A mulher de cor e o canibalismo erótico na sociedade escravocrata. In: SANT’ANNA, Affonso Romano de. O canibalismo amoroso. São Paulo: Círculo do Livro, 1987. p. 19-61.

SILVA, Nina; KINTÊ, Akins. Incorporos: nuances de libido (Coletânea de Poemas eróticos). São Paulo; Rio de Janeiro: Ciclo Contínuo, 2011. Disponível em: https://issuu.com/negranina/docs/04475_-_miolo. Acesso em: 15 abr. 2020.