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Lucas Rodrigues 
É formado em Jornalismo pela UFMT e pós-graduando em Jornalismo Empresarial e Assessoria de Imprensa. É escravo de algum impulso desconhecido que manda ele escrever sem hora marcada ou qualquer tipo de intervalo de tempo pré-definido. Autor do livro “Pirotecnia” (2017). Já atuou como repórter/editor de Judiciário, coordenador de Jornalismo do Governo de Mato Grosso e atualmente é assessor de imprensa do governador Mauro Mendes

PINTINHO AMARELINHO
A CONSPIRAÇÃO

“Pintinho Amarelinho” é a faixa de abertura do álbum “Gugu”, lançado em 1994 pelo apresentador de mesma alcunha, batizado como Antônio Augusto Moraes Liberato - falecido em 2019.


Ao longo dos seus 1m57s de duração, a canção infantil composta por Hilton Junior exalta a pequenez e fofura do galináceo protagonista do hit. Sem nome específico, o pintinho amarelinho serviu de inspiração a artistas consagrados do entretenimento infantil surgidos depois, como a Galinha Pintadinha – cujo carisma artificial talvez nunca chegue aos pés do pequeno e pioneiro pinto.


Mesmo com poucos dias de vida, o pintinho demonstra um forte instinto de sobrevivência, evidenciado pelo temor em relação ao predador, o gavião, e também ao buscar se alimentar de “bichinhos” não especificados na faixa musical. 


Acredita-se que os tais bichinhos sejam pequenos insetos e que o pinto seja caipira, uma vez que as aves de granja são alimentadas com ração. Ou, talvez, por se tratar de um pinto alçado de forma prematura ao estrelato, tenha se contaminado com as excentricidades dos grandes nomes do show business e passado a adotar hábitos peculiares. Uma espécie de Tom Cruise da granja. 


O ritmo alegre e “chiclete” da música leva o ouvinte a adquirir empatia pelo pinto, que deixa de ser um mero animal a ser preparado para o abate e passa a figurar como um mascote adorado pelas crianças e pais, influenciados não apenas pelo poder de convencimento de Gugu, mas também de suas dançarinas, que atuam como entusiastas sorridentes e demasiadamente sensuais da ave.


O que poucos sabem é que o Brasil, até o lançamento desta canção, detinha 14,6% do mercado mundial de frango. Nos anos seguintes, quando a canção “Pintinho Amarelinho” virou hit nacional, a participação declinou para 6,9%, segundo dados do Banco Nacional de Desenvolvimento Social (BNDES), fator que ampliou a participação dos EUA na liderança mundial deste segmento.


A retomada do crescimento do Brasil na exportação de frango só veio a ocorrer em 1998, coincidentemente quando a música caiu no previsível ostracismo dentro da indústria fonográfica, sendo substituída nos lares das melhores e piores famílias brasileiras pelos sucessos “Eu Tô Feliz” e “Adoleta”, da Xuxa. 


Teria Bill Clinton construído toda essa artimanha psicológica para que os empreendedores do Brasil, cegos subliminarmente pelo amor ao pequeno e fofo pinto amarelo, ficassem incapazes de investir em um mercado que resultasse em criação e abate de frangos?

*O texto é ficcional
**Documento do BNDES: https://goo.gl/cB9v5d

© 2019 - Revista Literária Pixé.

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