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Luane Nigro Sato
Numa forma poema prosado, conto-poema ou outro molde a intitular um eixo pouco específico, Lua Nê atriz, musicista, professora e escritora latinoamericana, pauta sua poética no quotidiano afetivo, como mulher, lésbica, amarela e no lugar da palavra do lúdico ao biográfico. Tem seu primeiro conto publicado em 2021 (Editora Unesp) e sua primeira obra “O arroz é o maior lugar da casa” em 2022 (Editora Multifoco).

ENQUANTO RENDA

Enquanto renda, não diga a ela que dia da semana é. Pois é dito como grosseria; querer medir em pressa o milagre de tecer os dias, como se não se soubesse cada veio que o perpassa em hora de labuta ora de descanso ou ainda como se não fosse esse dia próprio andar inevitavelmente à caminho da terça, à caminho da idade, à caminho. Não resta tempo. E tempo, acreditava ser uma medida essencial pro batismo do que se diz amor. Tempo é rendar um tecido, render uma lasca, bordar os batentes de cada coisa inadiável. Quando se tem afeto, faz-se tempo. Rendar. Render. 
Que dali uma mulher passando a janela, vendo-a disse: me ensina a fazer renda, que te ensino eu a namorar. Pensaram, uma d’um lado e outra d’outro, em aprender algo nunca antes visto, de categorias distintas do saber. Desconfiadas, pois era difícil acreditar que mãos diferentes dariam o mesmo ponto ainda que a agulha fosse igual, isso pra costura, também pro amor. Difícil porque ambas miravam o entender da coisa como uma virtude. Dom dado antes de nascido. Era mais como trocar uma caneta por um pássaro na esperança que tivessem a mesma função. 
Lecionaram arrebatadas pelo acaso de que era raro distinguir a temática das aulas. As frases repetiam-se, a medida era o tempo. Desfazer o ponto, depois refazê-lo. Dizer algo que enverga milimetricamente o tecido, a alma, a calma. Desfazê-lo. Como se fosse possível, além de provável, enfeitar cada cômodo da casa, cada pano de prato, com essa matéria. Rendar, render. Como se fosse ali, aos poucos aparecendo algo que se pode chamar de alguma outra coisa além do encontro constante de linha e agulha, pessoa e pessoa. Como descobrir que o canto do pássaro na verdade registra o dia, tinteiro azul assemelhadamente distinto da caneta. Como descobrir que bordar uma relação é fazer o tempo que passa rejuvenescer quando adentra. 
Não falemos que dia da semana é hoje. Como se não fosse um milagre tecido em veios de mistério ou ainda como se não fosse ele próprio andar inevitavelmente à caminho de nós mesmos, à procura de quem acha. Ainda que não reste tempo, é uma medida essencial pro batismo do que se diz amor. Tempo é rendar uma lasca, render um tecido, amar os batentes de cada coisa inadiável. Quando se tem amor, faz-se tempo. Quando se tem tempo, faz-se amor. Eis que rendar, rendeu-a amor.