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Luane Nigro Sato
Numa forma poema prosado, conto-poema ou outro molde a intitular um eixo pouco específico, Lua Nê atriz, musicista, professora e escritora latinoamericana, pauta sua poética no quotidiano afetivo, como mulher, lésbica, amarela e no lugar da palavra do lúdico ao biográfico. Tem seu primeiro conto publicado em 2021 (Editora Unesp) e sua primeira obra “O arroz é o maior lugar da casa” em 2022 (Editora Multifoco).

RIBANCEIRA

 

Precisava dizer antes que se tornasse inexorável a pressa da vida. As coisas têm tido outro têxtil e já não escrevo mais entre linhos. O silêncio faz sua sombra de descanso e mofo sob minhas palavras, que já nem tanto me vem. Veja, sinto--me à beira da ribanceira, numa mesa, onde trabalho, como, rezo. Daqui, de onde fico estável entre minhas profissões pouco precisas, mas poeticamente assíduas, não queixo da vista, horizontal, vasta, montanhosa. Tampouco preciso que me notem ou me lembrem. Quero o que o peixe que vem dar sua graça em pesca me valha e ainda que o que cultivo possa dizer que amo quando ainda não é flor nem nada além da possibilidade improvável de se-la. De vez em um quando, levanto-me. A cadeira reserva um vazio, que já não estou no agora e nem mais me pertenço. É uma pressa que vem do dentro, um impulso desatento. Meus pés vão a beira, a beira de ribanceira e de lá vejo tudo que não posso ver. A casa que não sei, a viagem que não penso. Os filhos que não tenho, o emprego do amanhã. Um salário contado pela criatividade das coisas que nem cabem ao meu nome. Uma vertigem. Um medo da altura. Olhando meus pés, vejo como é quase queda, vejo o salário que mal ganho, as viagens que cogito em gasolina, a volta pra casa, o amor que amo. A mesa ali fica, poucos passos atrás do que chamo eu, mas os pés pregam e não se movem. Paraliso. Entre o que me ribança e entre o que alcanço. Parece-me não ser possível o salto, muito menos a queda de alguma forma. Não ser possível também descalçar a vista do que meus pés ali mostram. É um entretempo. Vertigem. Ali não sou filha. Sou nada. Sou nem eu. Alguma coisa escorre, que nem sei se tempo, suor, lágrima, gozo, infância. E daí eu sei que uma forma de saltar é escorrer, ainda que agarrada as paredes, escorrer no abismo. Derreter é vertiginoso, porque o peito desloca ao chão. Escorrer ou saltar, isso é todo dia. Daí vem alguém. Um rádio toca. É preciso comprar cebola e ser filha. É lindo amar o amor que amo. Os pés caem em si. Me caminham à mesa, onde trabalho, como, rezo. A vista me devora, a cadeira me preenche. Te olho e conto que estive na minha beira, precisava te dizer antes que se tornasse inexplorável o amanhã.