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Lorenzo Falcão

“Nasci inexplicavelmente para ser poeta”, reconhece Lorenzo Falcão na breve biografia que acompanha “mundo cerrado” (assim mesmo sem maiúsculas por opção do autor). “O cerrado é meu lar e a poesia, o meu mundão sem porteira”, conclui o jornalista, que nasceu em Niterói (RJ), mas cresceu em Mato Grosso, “entre barrancos, pedras e sombras”, e trabalha há muitos anos como jornalista na área de cultura. 

O SUTIÃ

Ela chegou faceira lá em casa, por volta das 19h43. Apesar de contraindicados, beijo e abraço calorosos. Já nos conhecíamos há mais de um ano, mas não em carne e osso. Estávamos envolvidos, mas caiu de ser naquela quarta-feira o nosso primeiro encontro de corpos presentes. Havia uma grande expectativa da minha parte e, conforme a própria me confessou pouco depois, ela também estava assim... tinindo.


Acho-a linda e a recíproca confirmou-se verdadeira, segundo o que disse. Sabe essas mulheres jovens e decididas que já aprenderam a atropelar o machismo e suplantá-lo com comportamentos supostamente audaciosos, mas que, são apenas verdadeiros? Ela é assim.


Uma mulher que vai à casa de um homem decerto que está querendo alguma coisa. Foi assim que me falou já bem noite adentro. Eu, pobre homem, achava ou fingia achar que não necessariamente deveria de ser sempre isso mesmo, e não sei porquê penso dessa forma, já que uma voz pensante que aflora de dentro do meu ser acredita que um encontro, bem, um encontro há de descambar sempre para o sexo.


Aconteceu numa certa altura da noite que nos atracamos e, num conluio celestial espaventado, abusamos do sofá da sala e, embora desprovidos de juras amorosas, praticamos o oposto criminoso do isolamento social. Não... Não vou dizer aqui que foi o máximo. A questão que emplaco é que quando você pretende ser literário, apesar da ficção se fazer de besta, é aí, na literatura e fidelíssimo à ela, que você tem que ser verdadeiro.


Mas foi bem bom. Mas podia ser melhor. Mas não era isso que eu queria dizer. Eu queria mesmo era falar do sutiã dela e também de como no dia seguinte fiquei o dia inteirinho sem tomar banho só pra que o cheiro... cheiro, não... o aroma, os aromas é mais generoso; do corpo dela, permanecessem impregnados na epiderme ressecada deste pobre mortal.  

 
Acho que não vou dormir aqui não... É quando o mundo da gente despenca no abismo das decepções, mas a gente continua fazendo aquela pose como convém à maldita esperança que remete aos desejos incontroláveis do amor que provém da carne mal passada. Enquanto assim raciocinava após a resposta/fuga lacônica dela, a respeito de o que eu iria dizer, percebi que eu estava lento e ela já tava no celular.


Acho essa história de transporte por aplicativo uma porra de uma merda de uma coisa totalmente canalha.


Foi-se ela.


O conformismo é um pecado contra o nosso orgulho, mas ele deve ser acionado quando necessário. Foi assim que me vi envolvido com o isolamento novamente. Olhei triste para o derredor e, num lampejo, reparei que o sutiã dela estava presente. Ela se foi, mas deixou um pedacito de intimidade. Sou otimista de carteirinha. 


A noite ainda não estava completa e mandei mensagem. Disse que ela teria que voltar, mais cedo ou mais tarde, para buscar o sutiã. A resposta lancinante chegou formatada em pergunta: Você pode me enviar por sedex?

© 2019 - Revista Literária Pixé.

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