Lorenzo Falcão

“Nasci inexplicavelmente para ser poeta”, reconhece Lorenzo Falcão na breve biografia que acompanha “mundo cerrado” (assim mesmo sem maiúsculas por opção do autor). “O cerrado é meu lar e a poesia, o meu mundão sem porteira”, conclui o jornalista, que nasceu em Niterói (RJ), mas cresceu em Mato Grosso, “entre barrancos, pedras e sombras”, e trabalha há muitos anos como jornalista na área de cultura. 

A RAINHA DA NOITE

De dentro do ônibus a cidade passava pela janela como um filme cinza. Eles estavam em lua de mel. O caderno cultural de um jornal estava sobre o colo dele, escondendo as mãos dela. Um passageiro entrou e procurava lugar pra sentar. Olhou com expressão desaprovadora a postura possivelmente libidinosa do casal. Eles se intimidaram e desconversaram. O ônibus seguiu.


A cidade em movimento, uma garrafa gigante que devora mar de prédios, esquinas, carros, ônibus, sinais de trânsito, postes, transeuntes, ambulantes, vitrines, letreiros, mendigos, viadutos, botequins... barulho e bosta de cachorro na calçada. E gargalos.


– Vamos descer no próximo ponto, diz levantando-se e puxando a fêmea. Descem. – Aonde vamos? Seguem por uma rua e quebram n’outra que vai ao encontro do mar. Maresia. Brisa faceira os afaga enquanto ele explica que o cinema fica logo ali. O ônibus onde estavam passa e eles percebem o olhar do passageiro censor. Sentem uma raiva silenciosa, mas nenhum se manifesta. Não precisam demonstrar cumplicidade e não se propagandeia o óbvio.


Filme de arte. Cinema pequeno e vazio. Nem que uma flauta mágica tocasse, como que arrebanhando o público, a sala se encheria. Eles entram felizes... A Rainha da Noite vai estar lá com seu solo de esplendor, sua voz sopra/no coração a invadir a ária. O escurinho do cinema se banha de expectativas. Na grande tela a grande arte. A ópera opera. Mozart. Ele solta um suspiro. – O que foi?


Não foi, mas o ar condicionado está muito frio. O cinema é pequeno e o filme, bem, o filme tá lá. Eles estão aqui na plateia juntinhos. A vingança do inferno ferve no meu coração, canta a Rainha da Noite. Ele puxa-lhe delicadamente a mão para o ponteiro de seu relógio biológico que, silenciosamente, marca doze horas. Ponteiro retilíneo, e ereto.  Ela se surpreende. Só um pouco...


O que havia começado dentro do ônibus e se interrompido, recomeça. Cinema é assim. Nem só as imagens e sons ‘climatizam’ os espectadores. Cinema é romance. Namoro. Coisas que se desdobram em outras coisas. – Uuiiiii... O gritinho veio dele, beliscado em sensível região. Uma senhora de cabelo branco azulado duas fileiras à frente virou-se e olhou-os. Achavam que seriam repreendidos novamente. A cinéfila aposentada abriu sorriso flor. Mulheres são mais sensíveis às luas de mel.


Entre os dois a coisa seguia. Anjinhos barrocos cantavam com seus cabelinhos encaracolados. Papageno, Tamina... A história se encaminhava na grande tela. Telão. Tesão. Ele pensou em se vingar e beliscar-lhe o mamilo, mas já se rendia aos afagos fogosos da moça. Afagos correspondidos em gênero, número e grau. Estavam gozosos. Ele achou de convidá-la pra que se sentassem lá atrás, no fundão da pequena sala, onde teriam mais liberdade de opinião. A senhora de cabelos brancos azulados nunca mais olhou pra trás, enquanto ela parecia querer dizer que ia recusar o convite. E foi virando seu rostinho de moça magrela e safadinha para conferir se lá atrás, nas últimas poltronas do cinema, estava mesmo um lugar desabitado onde tudo poderia ser resolvido sem a menor possibilidade de interrupção. 

*Conto publicado no livro “Duplex - concurso interno de contos” (Carlini & Caniato), que reúne a ficção de Fátima Sonoda e Lorenzo Falcão

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