Lorenzo Falcão

“Nasci inexplicavelmente para ser poeta”, reconhece Lorenzo Falcão na breve biografia que acompanha “mundo cerrado” (assim mesmo sem maiúsculas por opção do autor). “O cerrado é meu lar e a poesia, o meu mundão sem porteira”, conclui o jornalista, que nasceu em Niterói (RJ), mas cresceu em Mato Grosso, “entre barrancos, pedras e sombras”, e trabalha há muitos anos como jornalista na área de cultura. 

MARIA FRAMBOESA

Arrastava-se pela madrugada engarrafado e mamado. Olhos vermelhos. Fígado inchado. Língua mole dentro da boca, de onde emanavam odores etílicos. A retina noturna alongava sua fúria de pária. Seguia sob a luz prateada do luar na direção de seu cérebro lunático. Sem rumo. Titubeante como um veadinho que acaba de nascer e ensaia os primeiros passos.


O último bar das redondezas, de onde fora gentilmente expulso, ainda não fechara. Era o único a jazer aceso enquanto a noite escorregava madrugada adentro. Ele estava a alguns passos do bar. Talvez uns vinte, trinta metros. Voltaria só para encher mais um pouco o saco do garçom. Benevides. Sujeito de boa índole, negro, com quase dois metros de altura. De quem já levara um cacete muito bem dado sei lá quanto tempo atrás. Lembrou-se do dente que a porrada do Benevides havia quebrado, o molar ausente. E da dor que sentiu. Do olho roxo, das escoriações no cotovelo. Reminiscências do cacete do Benevides afloraram sua memória esvaziada e enxaguada. “N...nã...não vo voltar nessa porra de bar”. Disse baixinho consigo próprio e virou-se para trás olhando em direção ao bar. “Negro fio da puta...”. Seguiu pela rua a esmo. Destino, pra que?


A luz tênue dos postes fraquejava-lhe a visão. Parecia um conluio com a manguaça que turvava seu raciocínio impróprio. Sentiu o chão se mexer e amparou-se num poste ao lado. Uma pontada de orgulho no peito. Riu. Estava se achando naquela pose, atracado com o poste. A imagem emblemática que vez em quando lhe vinha à cabeça, a de um bêbado abraçado com um poste, lembrança de sua infância sofrida, na roça, voltou-lhe na memória. Quando era criança, certa vez, folheava um velho almanaque e se deparara com uma ilustração que trazia a sua situação daquela hora. Começou a gargalhar.


Passou um carro devagarzinho cheio de gente. Uma loira linda que estava no banco da frente atirou-lhe um caloroso beijo. O gesto inesperado não chegou a afetá-lo. Parou de gargalhar e se envolveu com os estranhos pensamentos que o acometiam naquelas circunstâncias.


Três, talvez quatro horas da manhã. Era a hora em que o diabo atentava e ele ali naquele estado imprestável. Não se lembrava de quase nada. Da hora em que havia começado a beber, da direção da sua casa... Sabia que tinha um nome, mas nem isso estava claro na sua cabeça. Nenhuma voz informava-lhe se vivia sozinho ou ainda estava enrolado com Maria Framboesa... Maria Framboesa, parece, o tinha abandonado, mas ele ainda estava com ela. Ou não? Será? Estava só no mundão da noite. Só com o silêncio noturno, quebrado por um pequeno murmúrio de vozes que vinham do bar poucos metros atrás. “Hoje eu tô que tô!”, pensou.


Ainda estava abraçado ao poste. Sentiu um ligeiro mal estar e a urina foi vertida molhando a roupa e escorrendo pela perna direita e depois pela perna esquerda. O mal estar passou e ele foi sentando-se, ainda agarradinho ao poste. Seu olhar subiu ao céu numa retidão estranha para um bêbado. Lembrou-se novamente de Maria Framboesa. Olhou pra baixo e percebeu que estava todo mijado. Uma lágrima escorreu do seu olho direito. Uma única lágrima. Voltou o olhar para o céu e conseguiu ver uma estrela cadente. 

© 2019 - Revista Literária Pixé.

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