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Lívia Bertges

(1987, Juiz de Fora – MG) é doutoranda em Estudos Literários (UFMT) com estágio sanduíche na Sorbonne Université (Paris, França). É mestra em Estudos Literários (UFMT) e em Langues et Cultures Etrangères (Université Stendhal). Publicou artigos e poemas em revistas, antologias e sites. É editora da revista literária Ruído Manifesto.

ENCÉFALO

Sapos por todos os cantos, sapos desencantos. 
Recolheram, retiraram dos cantos o ódio, 
o ódio mais odioso da papada. 
Nada há que se queixar o sapo martelo. 
Martela nas redes, negam as paredes. 
As paredes estão brancas com brilho. 
Quem me dera poder ouvir o Cururu na beira do rio. 
Mas, ainda há rio? Que rio? 
Rio sem caldas? Os caldos escoam vazio? 
Retiram às margens, as águas, as árvores... 
onde habitarão os anfíbios? 
Escorregarão pelo asfalto e não saberão escrever à mão? 
Estarão suados em busca de alguma poça inexistente? 
As marteladas desmontam estandes, estantes. 
Já não se pode mais ler livros? 
E ler poemas? Pode? 
Ver cenas de um beijo ardente, 
quase nunca pode.
 As marteladas encobrem desejos 
- e não se pode mais cantar o amor. 
As marteladas, palavras coturnos, 
lideram os sussurros adormecidos.
Cantam, coaxam, 
quase voam em notas dó, ré, mi, fá...
Sapo Cururu observa, posiciona o ataque. 
Berra, berra e vê-se diante da enroscada. 
Deseja o breu iluminado. 
Está pronto ao acasalamento. 
Sapateia nas estradas de ferro. 
Fere os ditames adormecidos. 
Reaprende a flertar na loucura. 
E segue nadando no encontro de alguém, 
beija um, dois, três. 
Demora. 
Deita e rola. 
Lê-se em uma cena 
de um HQ quase emudecido.