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Lilian Barros de Abreu Silva 
É paulistana, professora, leitora, escrevedora e graduada em Letras pela Universidade de São Paulo (USP), onde, atualmente, é doutoranda em Filologia e Língua Portuguesa.

VIDAS NEGRAS IMPORTAM

Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, ela era a princesa da casa, nove, dez, onze, doze, treze, catorze, quinze, uma vida inteira pela frente, dezesseis, dezessete, dezoito, dezenove, ele era o cestinha do nosso time, vinte, vinte e um, vinte e dois, foi a primeira  da família a entrar para a faculdade, vinte e três, vinte e quatro, vinte e cinco, vinte e seis, vinte e sete, vinte e oito, vinte e nove, trinta, trinta e um, trinta e dois, trinta e três, trinta e quatro, tinha orgulho do pente garfo no black, trinta e cinco, trinta e seis, trinta e sete, trinta e oito, trinta e nove, quarenta, quarenta e um, deixou três filhos e uma esposa, quarenta e dois, quarenta e três, quarenta e quatro, quarenta e cinco, quarenta e seis, quarenta e sete, negro, preto ou pardo? Dava aula! Quarenta e oito, quarenta e nove, cinquenta, cinquenta e um, cinquenta e dois, cinquenta e três, cinquenta e quatro, cinquenta e cinco, cara de bravo, mas coração gigantesco, cinquenta e seis, cinquenta e sete, estava desarmado, cinquenta e oito, cinquenta e nove, sessenta. Vidas negras importam. Sessenta e um, sessenta e dois, sessenta e três, sessenta e quatro, sessenta e cinco, sessenta e seis, estou cansado, sessenta e sete, sessenta e oito, sessenta e nove, eu não consigo respirar, setenta mais dez. OITENTA. Tiros, pauladas, asfixia, eu não con-si-go res-pi-rar.