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​​Lilia Guerra
É paulistana, autora da coletânea de contos Perifobia, livro finalista do Prêmio Rio em 2019 e do romance Rua do Larguinho.

MORA UMA VELHA RANZINZA EM MEU ESTÔMAGO

Para ela, nada presta. Não pode com gordura, nem álcool. Não suporta nicotina, acidez, cafeína ou açúcar. É uma velha protestante, que recita salmos e canta hinos com voz esganiçada de manhã, quando ainda estou em jejum. Esmurra minhas paredes pela hora do almoço e sapateia sobre meu assoalho quando penso em jantar.
Hoje, acordei disposta a escrever qualquer coisa agradável, acolhedora. Mas, tudo se descoordena. Os dias frios são tiranos. Esbocei uma frase fraca e abandonei o computador aberto sobre a mesa. Fui ao quintal e examinei as plantas. Encontrei um galho morto no vaso de alfazema. O arranquei com urgência. É incômodo ver um cadáver no meio dos vivos. Joguei a carcaça no balde de lixo.
Voltei para a cozinha e botei feijão de molho. Vontade de comer pão e mortadela. Mas, pensei no frio. E na velha. Não vou à vendinha. Há duas laranjas na fruteira. Escolhi a menos murcha. Busquei uma faca amolada na gaveta. Pra descascar laranja murcha a faca tem que ser bem afiada. Pensei no Cipriano, meu vizinho. Quando bebe, despreza a pobre da Judite. A ofende na frente de todos. Diz que ela não arranja outro valente pra encarar aquela barriga murcha de oito filhos. E que devia beijar os pés dele. A Judite se retrai. Ri com cuidado porque, lhe faltam dentes. Eu já notei que, muita gente ri, quando qualquer coisa as magoa. Pra fazer de conta que a ofensa caiu como brincadeira.
Outra vez, me coloquei diante da tela, buscando inspiração. Preciso de samba, penso. Mas, a velha me lembra de que, ainda é cedo.
É cedo pra bater cinza também! E pra tomar vinho.
É tarde pra despejar tudo o que está me angustiando. Eu tenho certeza de que as palavras rançosas estão me fazendo mal. Que elas estão se deteriorando dentro de mim. Meu corpo lida para expulsá-las. Voltei anos atrás. Aula de fisiologia. Visitou-me a voz cansada do professor:
“O corpo é inteligente. Tenta se livrar daquilo que representa perigo. Por isso, podem ocorrer episódios de vômito, precedendo o infarto. Entendam como um sinal de alerta. O cérebro percebe que algo está errado e, aciona comandos para que os órgãos trabalhem, na tentativa de eliminar possíveis agentes inimigos”.
As palavras contidas devem estar mesmo inflamando os meus órgãos. Causando infecções. Minha mente quer expulsá-las, mas, eu não ajudo. Perco tempo cismando. Ao invés de fazer como Rubem Braga, que idealizou escrever uma história tão engraçada, que fizesse rir a moça da casa cinzenta. Quando ela lesse sua história no jornal riria tanto, que chegaria a chorar e diria – “ai meu Deus, que história mais engraçada!” E então a contaria para a cozinheira e telefonaria para duas ou três amigas para contar a história; e todos a quem ela contasse ririam muito e ficariam alegremente espantados de vê-la também tão alegre. Ah! Uma história que fosse como um raio de sol, irresistivelmente louro, quente, vivo, na vida da moça reclusa (que não sai de casa), enlutada (profundamente triste), doente. Ela mesma ficaria admirada ouvindo o próprio riso, e depois repetiria para si própria – “mas essa história é mesmo muito engraçada”!
Eu queria imitar o cronista. Mas torro o casco pensando que muita gente já está na rua, a caminho do trabalho, enfrentando este frio miserável. A velha que mora em meu estômago, apregoa:
Estão sendo pagas pra isso, deixe de bobagens, menina tonta! As pessoas devem dar graças a Deus, pela oportunidade de se levantarem da cama e cruzarem a cidade. Por caminharem congeladas até o ponto de ônibus, ainda de madrugada, no escuro, mesmo correndo perigo de assalto e assassinato. Você queria o quê? Que ficassem dormindo até as tantas? A comida não brota no prato quando a fome nasce no ventre. Menina idiota! O povo reclama de barriga cheia. Inventam bobagens de direitos disso e daquilo, apontam injustiças em tudo. Cada um deve evitar o mal como pode. Se as mulheres se portassem com alguma compostura, não provocariam ímpetos nos estupradores.
O que é que tem demais se apinharem num coletivo lotado, sem conforto algum? Coisa da vida. Essa gente preguiçosa faz corpo mole. Reclamam dos baixos salários, das condições precárias e não abençoam seus patrões. Ruim com eles? Pior sem eles! Se esquecem de que precisam de seus empregos. Ingratidão é pecado!
Me debruço outra vez, sobre o teclado. Digito duas ou três palavras curtas, mas… e o povo que dorme ao relento? Terá morrido muita gente essa noite? 
A velha tem resposta pra tudo:
A gente colhe o que planta, menina besta! Se essa gente está na rua é porque não faz por merecer. Enchem a cara e usam drogas porque querem. Se reproduzem feito cachorro. Veja lá se, essa mulherada vagabunda tem disposição pra lavar uma privada, limpar umas vidraças. Pergunte àquele vadio que mendiga no farol se ele quer descarregar um caminhão de cimento, carpir um terreno. Mais fácil pedir esmola. Espie se, no fim do dia, quando conta as moedas, vai para o mercado comprar comida. Que nada! Vai é encher o rabo de pinga, isso sim. Menina tonta! Você deu dinheiro praquela rampeira comprar cigarro.
Quando a velha gargalha, sinto náuseas.
E penso que, deve haver uma história muito longa, que esclareça como aquele homem da avenida se tornou andarilho.
Eu penso baixo, enquanto a velha cochila, resmungando de vez em quando que, a laranja que chupei lhe foi indigesta.
Quero evitar as opiniões dela.
A desmiolada da Judite? Botou oito filhos no mundo. Não larga o nojento do Cipriano por quê?
Diabo de velha. Até cochilando palpita em meus pensamentos.
Pus o feijão no fogo. Panela chiando. Lavar arroz. Daqui a pouco é meio-dia. Planejo comer um ovo frito. Pra me vingar da velha boquirrota. Tomara passe a tarde se contorcendo. Eu não me importo. A gente não colhe o que planta? Não é bem assim… tem vezes em que, a gente planta, fica aguardando o fruto e nada. Esperei pitanga a estação todinha. Reguei a árvore. Joguei adubo. Nada.
Cascando alho. Dona Benedita, madrinha de minha prima, falava desse jeito. Saudade de quando a gente ia ao centro, no sábado à tarde. Dona Benedita preparava a comida do santo com zelo. Deixava as crianças experimentarem. Era quase sempre farofa e um tutu com gosto de outro mundo. Nunca que provei nada parecido.
Na prateleira tem uma lata de leite condensado. Eu bem que podia fazer um pudim. Usando o forno, a cozinha fica quentinha. Será que aquela menina que fica com o rodinho e o pano no farol gosta de pudim? Será que ela gosta de comer o quê? As pessoas que fazem caridade servem sopa e eu acho bonito. Mas, tenho curiosidade de saber o que ela escolheria pra comer, se pudesse.
Eu preciso afugentar esses pensamentos que me impedem de escrever coisas agradáveis. Mas eles me perseguem. Será que tem o quê, dentro da morte? Só sono, só descanso? Será que, depois de morto, a gente não pensa em mais nada? Será?
Fui experimentar o sal e derramei um pouco de caldo na roupa. Me lembrei que, outro dia, numa sala de espera, folheei uma revista. A atriz passava dias numa ilha, comemorando o terceiro casamento. Nas fotos, exibia diferentes vestidos, chapéus, sandálias, lenços de pescoço. Terá plantado o quê, aquela mulher com rugas enrustidas? Para colher passeios de lancha sob o sol, degustar iguarias. Ter seus lençóis e toalhas trocados pelos serviçais… para passar pela vida sem saber o que é lavar a porra de um garfo?
A inveja envenenou Caim!
Gritou a velha. De dentro de mim.