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Leo Almeida 
Escreveu a novela “Trilogia Mundana”, publicada pela editora Multifoco em 2016 e o livro de contos “Quiçaças e Agouros”, contemplado pelo prêmio Estevão de Mendonça e publicado em 2021 pela Carlini  & Caniato, do qual faz parte o presente conto. 

A MORTE ESTÁ DE PASSAGEM

Entediada com a vida urbana,  a Morte e sua família resolveram mudar para o interior do país. “Enganam-se aqueles que pensam que a Morte não tem vida própria.” Quando chegaram à fronteira com Mato Grosso, ficou impressionada com a maquinaria agrícola e as promoções apresentadas pelo comércio. 
- Acho que vou comprar esta ceifadeira gigante que parece um trator. Vai dar para fazer meu trabalho em grande escala e terei tempo de descansar. Quem sabe poderei ir ao cinema. Faz tempo que não me divirto. 
Comprou então uma ceifadeira. Ficou feliz porque conseguia atuar em grande escala e se dedicar à família nos tempos vagos.
Depois de alguns anos, sua máquina de morte enguiçou. Mesmo não sendo seu métier, a Morte passou a entender de agricultura, já que alugava a sua máquina aos fazendeiros de sua região de tempos em tempos. 
Ao escutar e saber com a prática de seu trabalho o poder mortífero dos agrotóxicos, a Morte resolveu pegar um empréstimo no BNDES e plantar soja. Assim, lucraria duas vezes, ou mais, com sua vocação.