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Larissa Silva Freire Spinelli
É Doutora em Estudos Interdisciplinares de Cultura (UFMT/FCA/ECCO), Diretora da Casa de Cultura Silva Freire e Docente no UNIVAG – Centro Universitário de Várzea Grande.

A CARTOGRAFIA SILVFREIREANA DE MARI GEMMA

O encontro do olhar da artista visual Mari Gemma De La Cruz com o do poeta Silva Freire nas imagens-poemas que ilustram esta edição da Revista Pixé, aguçam múltiplos e inusitados sentidos e sensações neste setembro (freire) tricentenário. 


Revisitar as fotografias apresentadas durante a exposição Olhar Cuiabá – Cartografia Silvafreireana baseada na obra Trilogia Cuiabana, volume 1, (Presença na Audiência do tempo) Tempo de Histórias & Espaços Cotidianos, nos leva a apreender duas narrativas que se entrecruzam no tempo-espaço, uma pela linguagem literária e outra pela fotográfica, imprimindo um sentido contemporâneo ao instigar o leitor a pensar a cidade de Cuiabá em meio aos seus trezentos anos.


A relação dos escritores com suas cidades são tramadas na circulação entre o histórico, social, cultural, concreto e uma imaginação poética, criativa e inventiva, imaginativa. Poesia e cidade tornam-se assim uma coisa só. “Silva Freire é um poeta da cidade. Poeta-poética de sua cidade, de seu espaço‹‹››cidade‹‹››Cuiabá. PoetiCidade”, como o descrevem Leite & Spinelli (2018, p.125). 


Gemma parece transitar, no início do século XXI, pelos becos, ruas, ruelas e avenidas percorridas pelo poeta desde sua infância até a última década do século XX, em que sentiu e pressentiu o “crescimento” da cidade, mas sem deixar de lado o seu compromisso com o “telúrico” e a “herança atávica”.  Vez em quando, temos a impressão de que ambos, com seus corpos em movimento pela cidade, se encontram pessoalmente, na Rua de Cima, bem na esquina de Dona Janoca (casa materna de Silva Freire), no Centro Histórico para registrar, inventar, imaginar a cidade.  


Na Trilogia Cuiabana o poeta e a cidade se fundem em um trabalho poético-amoroso-etnográfico de vinte anos de elaboração, resultando na sensação de “cuiabania”, descrita por ele como um “charivari-de-maçaroca-poética”, “sensação indizível” (efeito sensorial, não percepção racional, aesthesis decolonial).  Uma explosão em seu anseio de dar um lugar para as múltiplas vozes que compõem a “cuiabania” no esforço de tirá-las do silêncio, da subalternização, do abandono mediante a cidade que se moderniza. “Documento poético” da realidade cuiabana como sugeriu Magalhães (2001).


Por sua vez, a cartografia afetiva de Mari Gemma retira do texto silvafreireano imagens-sensações de cuiabania, perceptos da cidade, provocando o estranhamento do observador ao desconstruir cenas cotidianas em seus fragmentos visuais que borram a figuração e os clichês, mas deixando ver sua crítica cultural na medida em que apresenta forças ao invés de representar formas.

 
Nas suas experimentações, a deformação, a multiplicação e a imprecisão da imagem refletida em estilhaços de espelhos e captada pela lente, dão lugar a uma ficção documental do cotidiano urbano onde se dilui os signos da tradição e da modernidade em diálogo com os fragmentos poéticos silvafreireanos.  


Ao explorar a palavra-tema produz, simultaneamente, desfocagem e repetição, que desviam o significado e o olhar do espectador realçando  denúncias acerca de questões sociais, culturais, políticas, ambientais, urbanas. Nota-se o descaso com o Centro Histórico na imagem do Beco Torto, “esgualepado” e “descascados pelo tempo”; o esquecimento das brincadeiras infantis tradicionais na imagem de um menino negro segurando a pandorga quase imperceptível; a corrupção cravada pelo Minhocão do Pari que se revolta em pleno viaduto do que seria a trilha do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) ou com a poluição do rio e ainda violência urbana numa referencia aos crimes que atingem crianças e adolescentes.


De modo intrigante e intensivista, onde “além da imagem está outro significado poético”, o leitor se depara com imagens-textos-cidade resultantes da indignação, da resistência, do (des)cobrimento das pulsões soterradas pela modernidade/colonialidade que atinge o processo cultural e histórico cuiabano e o desenvolvimento urbano da cidade, convidando ao OLHAR CUIABÁ em tempos contemporâneos.